Resenha #16: “As águas-vivas não sabem de si” de Aline Valek

A humanidade está sempre buscando uma maneira de estabelecer contato com outras formas de vida conscientes de sua existência, para afastar a estranha sensação de que está sozinha no universo. Ao mesmo tempo, cada vez mais a comunicação entre nós, seres humanos, é rara e complicada.

O tema da comunicação — ou a falta dela — está presente em quase todas as páginas do livro “As águas-vivas não sabem de si”, da escritora Aline Valek. Eu já conhecia a autora por conta de sua newsletter “Uma Palavra”, a qual gosto muito, e ao encontrar esse romance, fiquei curioso para saber como ela se saía na ficção .

A protagonista da história, Corina, é uma mergulhadora profissional e está trabalhando em uma expedição liderada por Martin, um polêmico cientista estrangeiro, que em vez de buscar vida inteligente no espaço, como a maioria de seus colegas, a procura nas misteriosas e ainda pouco conhecidas profundezas do oceano.

O trabalho de Corina consiste em colocar sondas no fundo do mar junto com outro mergulhador, Arraia, que ela  já conhece dos tempos em que prestava serviços em uma empresa petrolífera. Martin usa essas sondas para enviar sinais pelas águas na esperança de que alguma criatura marinha os compreenda e mande uma mensagem sonora de volta. Ele quer saber se os animais do mar têm algo a dizer aos seres humanos.

Solidão

A missão só consegue chegar a profundidades tão grandes graças a um traje especial desenvolvido pela empresa que patrocina a pesquisa e que, por meio dela, pode testar seus novos equipamentos de mergulho.

A expedição fica sediada em uma estação no fundo do mar chamada Auris. Além de Corina, Martin e Arraia, vivem nela mais duas pessoas: Maurício, outro cientista que auxilia Martin; e Susana, uma engenheira naval que também faz o papel de enfermeira e médica às vezes, sem ter formação alguma nessas áreas. 

O lugar é pequeno e monitorado por câmeras. Apesar dessa proximidade física, não há muita conversa entre seus moradores. Isso aumenta a solidão que parece existir naturalmente nas profundezas do oceano, o que dá espaço para muitos pensamentos melancólicos.

Assim como o fundo do mar, os personagens guardam muitos segredos. Dramas e traumas que são apresentados ao leitor aos poucos. Todos eles parecem estar ali para tentar superá-los, provar algo para eles mesmos ou para a sociedade. Suas personalidades são bem definidas e coerentes com o passado de cada um.

O segredo de Corina é o mais complicado. Ele pode colocar a vida dela e a de seu colega Arraia em risco a qualquer momento e pôr fim à pesquisa. Mas a teimosia e perseverança de Corina são admiráveis para mim, mesmo que isso possa levá-la às piores consequências. Outro personagem que me chamou a atenção foi Martin, por causa de sua obsessão, que me fez lembrar de outros velhos lobos do mar da literatura, como o Capitão Ahab de “Moby Dick” (Herman Melville) e o Capitão Nemo de “Vinte Mil Léguas Submarinas” (Júlio Verne)

Tem uma cena no livro que gostei muito e que exemplifica bastante a solidão e incomunicabilidade pelas quais os integrantes da expedição optaram. Os tripulantes de Auris também recebem mensagens da superfície vindas de seus familiares e amigos. Corina recebeu uma de sua mãe. Apesar de ter ficado emocionada, ela decide não responder. Fiquei pensando o quanto era irônico tentar estabelecer uma conexão com um ser inteligente hipotético no fundo do mar, enviando sinais e ficar aguardando uma resposta, enquanto ignoramos as tentativas de diálogo com pessoas que nos são próximas.

A obra tem vários outros exemplos de ruídos de comunicação como esse, mas não seria possível colocar todos aqui numa pequena resenha. Convido você a ler o romance e encontrá-los.

Animais Marinhos

Alguns capítulos são narrados do ponto de vista de animais marinhos, o que dá um toque de fantasia e ficção científica ao livro. Alguns deles são conhecidos nossos como cachalotes e águas-vivas. Outros teriam sido extintos há muito tempo, que é o caso dos azúlis, criaturas conscientes e civilizadas. E uma espécie existente nos dias de hoje, no entanto, ainda desconhecida: os espectros. Até mesmo o oceano possui um capítulo no qual ele é o narrador.

Mas não pense que essas partes são apenas exercícios narrativos. Elas têm um propósito dentro do romance.

Aline Valek – Foto: Marcos Felipe

A prosa de Aline Valek é envolvente e poética. Embora ela trate de muitos temas densos, o leitor tem uma sensação prazerosa em degustar suas palavras. A leitura avança em um ritmo devagar, da mesma forma que as coisas parecem fluir no fundo do mar. Tudo nos leva à contemplação e reflexões.

A escritora realça como o oceano é um lugar estranho, não só por causa de suas criaturas esquisitas, mas também porque ele parece inadequado aos seres humanos, que apesar de conseguirem entrar em suas domínios, não têm uma estrutura corpórea para sobreviver por muito tempo naquele lugar.

Nos detalhes do fundo do oceano, porém, parece estar escrita a história do nosso planeta e da nossa espécie, à espera de alguém com coragem, inteligência e força, que consiga chegar até lá e decifrá-la. Alguém como Corina que ouve e aceita o convite incessante vindo desse perigoso abismo: mais fundo, mais fundo.


Você já conhecia esse livro da Aline Valek? Escreva aí nos comentários o que você achou desta resenha e não deixe de curtir se você gostou!

Resenha #1: ‘Penumbra’ de André Vianco

Quem nunca ouviu alguém falar aquela velha frase: “a única certeza que temos na vida é que vamos morrer”? A morte é a única coisa com a qual não devemos teimar, correto? Afinal, todos vamos morrer. Porém, Lana, a teimosa protagonista de “Penumbra”, do escritor André Vianco, insiste em não aceitar que a vida chegou ao fim e se recusa a ir em direção à luz. 

Em seu leito de morte, ela prometeu que nunca se esqueceria da mãe. Mas, em Penumbra, o lugar para onde Lana foi após falecer, não se esquecer do mundo dos vivos é um grande problema. A cada lembrança de Lana, relâmpagos surgem no céu escuro. Na verdade, esses clarões significam que atravessadores descobriram a localização da menina e estão indo ao seu encontro.

Os atravessadores usam a energia de crianças como Lana para ir ao mundo dos vivos rever seus entes queridos. Eles são crianças que se tornaram criaturas monstruosas presas à Penumbra, por se recusarem a deixar suas lembranças para trás e começarem uma nova jornada no post-mortem.

Se Lana não parar de ser teimosa, pode acabar se juntando a eles. Cheia de energia, ela é ideal para ser usada pelos atravessadores, que em sua teimosia egoísta, acabam atormentando os vivos, os quais também não conseguem seguir em frente no nosso mundo por causa das lembranças dolorosas.  

Para garantir a segurança das crianças mortas durante a passagem, existe em Penumbra a Babá Osso Duro. Ela é uma mulher de rosto cadavérico e que, carregando um trabuco, não desiste de cumprir sua missão. Pelo menos, não até encontrar a “menina certa” e poder partir em paz.

No entanto, acredito que ela nunca teve que encarar em sua morte um desafio tão grande quanto Lana. Se eu fosse a Osso Duro, já tinha jogado Lana aos atravessadores na segunda vez que ela insistisse em recordar o rosto da mãe. 

Acompanham Lana e a babá o medroso Jorge e um coelho comilão, que vai ficando cada vez maior no decorrer da caminhada. Quem já fez os cursos, assistiu às palestras ou webinários do André Vianco sobre storytelling, vai ficar feliz ao encontrar neste livro algumas “mensagens” para quem também ama escrever histórias.

A escrita do André Vianco é bastante fluida. O leitor saboreia cada palavra com gosto. É possível terminar a leitura em apenas um dia por conta de seu ritmo agradável. A simbologia e a criação do mundo inconfundível de Penumbra também são fascinantes. 

Obviamente, não vou revelar o final. Posso dizer apenas que ele é surpreendente e que os mais sensíveis podem até derramar algumas lágrimas.