Os Idos de Junho

Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Era 18 junho de 2013. Vesti minha camiseta polo e uma calça Calvin Klein. Calcei meu tênis  Olympicus e dei os últimos retoques no meu topete, da mesma forma que fazia todos os dias antes de  ir para a faculdade. Naquela data, porém, não ia estudar. Não era a primeira vez que matava aula, mas  não ia ficar no barzinho em frente à faculdade, jogando bilhar, como era meu costume nessas ocasiões.  Eu ia acompanhar o protesto de Araçatuba em apoio às manifestações políticas que estavam  acontecendo naquele mês em todo o País. 

Meu pai me ofereceu uma carona até a faculdade, mas disse que não precisava. Menti para ele que queria andar um pouco. Eu nem imaginava a longa caminhada que faria naquele dia… 

Meus pais eram idosos e ficariam doidos se descobrissem minhas escapadas. E essa seria uma das piores delas. Não poderia decepcioná-los assim. Meus irmãos, muito mais velhos do que eu, já  reclamavam o suficiente de que não foram tratados da mesma maneira quando tinham 18 anos. 

Sai da minha casa no bairro Nova Iorque e fui até a rotatória da avenida Brasília. A noite começava a cair. O ar estava seco, mas a temperatura era até que agradável. Nem o tradicional calor infernal, nem o frio congelante do inverno araçatubense. O tempo ideal para uma passeata. 

Ao chegar à rotatória, percebi que não havia o trânsito caótico comum daquele horário, porque todas as ruas ao redor estavam bloqueadas. Lá, encontrei meu amigo e colega da faculdade de  jornalismo, Alan, que havia me convencido a participar daquele negócio. 

— E aí, seu tratante — eu disse para ele. 

— Ô doutor Marcos. Você veio! — respondeu Alan, oferecendo-me uma vuvuzela verde-amarela, que ele devia ter guardado da última Copa do Mundo. Eu a devolvi, dizendo que não queria aquela porcaria. Uma garota interrompeu nossa conversa, querendo pintar o meu rosto de verde-amarelo. Não aceitei também.

— Você precisa entrar no clima, cara — pediu Alan. 

— Cadê ela? — perguntei. Só vim aqui porque você disse que ela viria. Se ela não aparecer, vou  embora.  

Não era contra, nem a favor do governo. Naquela época, achava que todos os políticos eram ladrões. Minha presença no protesto também não tinha nada a ver com a faculdade de jornalismo. Apenas havia escolhido o curso que tinha menos matemática na grade. 

Estava ali porque o Alan me falou que a Dani participaria da mobilização e lá seria o melhor lugar para encontrá-la fora da faculdade.  

Nós três estávamos na mesma turma do primeiro ano de jornalismo. Dani tinha uma beleza diferente, não sabia bem ao certo como explicá-la, mas era algo que me atraía. Talvez o fato de ela nunca ter dado ouvido para as minhas conversas, ao contrário do que as outras garotas faziam, tenha  aumentado minha paixão. 

No entanto, no campus da faculdade não dava para conversar direito com ela, pois Dani estava sempre muito focada nas atividades do curso ou do diretório acadêmico. Também nunca a encontrava nas baladas, barzinhos ou quermesses que eu frequentava. 

— Ali está ela — disse Alan apontando Dani em uma pequena aglomeração de pessoas. 

Do alto de um caminhão de som, um rapaz anunciou que a manifestação ia começar. Os autofalantes tocavam o jingle de um comercial de carro, que pedia para as pessoas saírem às ruas. Os  manifestantes, então, passaram a se mover. Daniela seguia à frente, segurando um cartaz que pedia  saúde e educação “padrão Fifa”. Ela estava vestida com uma saia comprida, com estampas africanas,  uma blusinha branca e, por cima dela, um colete jeans, com bottons de bandas de rock antigas. 

Havia pouca gente e pensei que o protesto seria só aquilo mesmo. No meio daquelas pessoas, reparei  que havia um idiota, também da minha turma de jornalismo, chamado Lucas, vestindo calças  seguradas por suspensórios e uma ridícula gravata borboleta. Ele vivia discutindo política com Dani e batia boca com o professor de filosofia quando ele mencionava o nome do Karl Marx – um  cara que eu nem sabia quem era naquele tempo e nem queria saber. 

— Vai atrás dela! — disse Alan de repente, despertando-me de meus pensamentos. Você está esperando o que? Um convite? Nem parece o Marcos que conheço. 

Apertei o passo para alcançar Dani, mas fui logo parado por uma moça que me ofereceu  uma das pontas da enorme bandeira do Brasil que estavam estendendo por toda a faixa da avenida. Recusei.  

Enquanto a moça e outros jovens sacudiam a bandeira, o grupo de Dani seguia em frente, bem depressa. Tive que passar por baixo dela para cortar caminho e tentar alcançá-la. Ao sair do outro lado, a luz do helicóptero Águia da Polícia Militar ofuscou minha visão.  

Reparei que o manto negro da noite já havia coberto todo o céu. Alguns manifestantes de um  movimento estudantil começaram a gritar: “Ei, burguês, essa aqui é pra vocês!”. Confesso que o barulho deles e das hélices do helicóptero da polícia em busca de algum tumulto me fez sentir medo. 

Coloquei as mãos acima dos olhos e vi os longos cabelos cacheados de Dani bem longe de mim, próximos ao restaurante Bola Sete. Entretanto, não consegui chegar até lá por causa das várias faixas esticadas e pessoas segurando cartazes, que saíam e entravam na minha frente. 

Em um dos cartazes li que os professores mereciam receber salários melhores do que o Neymar. Concordei. Outros pediam mais saúde e educação e pensei que não tinha como não aderir a essas causas. Ri de um cara que carregava uma cartolina pedindo a redução do preço do Marlboro. Isso seria ótimo para mim. Também esbarrei em algumas pessoas enroladas em bandeiras do Brasil, paradas para fazer selfies. 

Ao se aproximarem do Hotel Íbis, os manifestantes foram para o outro sentido da avenida,  para retornar à rotatória. Já não conseguia mais ver Dani. Na altura do Hotel Pekin, reencontrei Alan. Ele apontou para a rotatória da Brasília com a Pompeu: 

— Olha só aquilo! — disse ele.

O local onde, até pouco tempo atrás, tinha apenas algumas pessoas, foi invadido por um mar de gente, que chegava pela Pompeu de Toledo e engrossava a marcha. 

Apertando um pouco as pálpebras, consegui distinguir a silhueta de Dani lá embaixo. Mas a multidão continuava me espremendo. 

E o Alan tinha sumido de novo.  

Quando estava próximo à rodoviária, consegui ultrapassar algumas pessoas, trombando em seus ombros e esmagando pés. Porém, uma velha Brasília amarela me barrou o caminho. O som do carro tocava em volume alto uma música que dizia “A burguesia fede”. 

Senti que o clima voltou a ficar tenso quando os manifestantes chegaram à prefeitura. Policiais do Choque cercavam o prédio e eram provocados por algumas das pessoas que participavam do protesto. Lembrei-me das repressões aos atos em São Paulo, que assisti na televisão, e meu estômago esfriou. Ao olhar para o outro lado, vi um rapaz no topo do monumento do Lions Clube. Ele estendia  uma camiseta com a imagem do Che Guevara. Não sabia por qual motivo, mas senti a necessidade de tirar uma foto daquela cena com o meu celular. 

Após atravessar o monumento, entrei na rua Luís Pereira Barreto a passos lentos, por causa da turba. Muitas pessoas de lojas, lanchonetes e farmácias saíram de dentro de seus estabelecimentos muito iluminados. Outras apareceram na sacada de prédios para ver os manifestantes, que lhes convidavam para o protesto. “Vem pra rua, vem pra rua!”, eles gritavam em meio a assovios, apitos e buzinas. 

Ao meu lado, surgiu um grupo vestindo camisetas da seleção brasileira, segurando uma faixa  com os dizeres “Morte aos políticos”. Outros integrantes estavam com cartazes pedindo “Intervenção militar já!”. Eles entoavam um hino que mandava a presidente ir tomar naquele lugar, igual ao que eu ouvia nos jogos de futebol. Um dos que gritavam me pareceu um senhor respeitável, com idade para ser meu avô. Ele, porém, xingava uma mulher que também tinha idade para ser minha avó. 

Apesar de achar o governo daquela senhora um desastre, sem saber exatamente por qual motivo,  perguntei-me como alguém poderia sair às ruas pedindo respeito sendo tão desrespeitoso. 

Olhei por cima das cabeças e mais uma vez não consegui ver onde Dani estava. No momento em que a marcha caminhava para o seu fim, já me sentia arrependido de ter participado daquela droga. Nunca andei tanto a pé como naquela noite e não troquei um olhar com a garota. Aquele povo achava mesmo que andando tanto alguma coisa ia mudar?, me perguntei. Aliás, que ideia besta tinha sido aquela de procurar a Dani para conversar durante uma passeata política. O que eu iria dizer para ela? Você vem sempre aqui? Hoje “faz um protesto gostoso”, não é? Pensei em matar o Alan assim que o encontrasse de novo. 

Ao atingir a Praça Rui Barbosa a multidão começou a se dispersar, apesar de um grupo seguir em direção à Câmara dos Vereadores. Alguns caras que estavam perto de mim passaram a chutar os  tapumes ao redor da praça, que estava em reforma há muito tempo. Eles eram vaiados por outras  pessoas que gritavam “sem violência, sem violência”, também em ritmo de torcida organizada. O  helicóptero da Polícia Militar continuava a sobrevoar minha cabeça, lançando luzes no entorno da  praça. 

Foi quando vi Dani e algumas amigas dela, à minha direita, tirando fotos. Era a minha chance! 

Mas, alguns gritos fizeram com que eu voltasse a atenção para a esquerda, onde o babaca do Lucas estava puxando a bandeira vermelha de um casal de idosos sem-terra. “Sem partido, sem  partido”, ele berrava, dando um banho de cuspe nos dois. 

Não consegui deixar de pensar nos meus pais ao ver a mulher e homem acuados. Os olhos cansados daquele senhor lembravam os do meu pai. Decidi ajudá-los. Além disso, já fazia muito tempo que eu queria dar uma lição naquele trouxa que se achava demais na sala de aula.  

— Para com isso, brother — falei para Lucas, que me empurrou. 

— Sai daqui seu idiota! Comuna! — ele gritou.

Eu revidei com um murro, que transformou o nariz dele em um chafariz de sangue. Lucas levou as mãos ao rosto, para conter o vazamento. O casal sem-terra aproveitou a oportunidade para fugir. Ele olhou para as mãos ensanguentadas e depois olhou para mim. Em seguida, gritou. Armei  meus punhos para a briga inevitável. 

No entanto, dois policiais militares vieram em nossa direção, com cassetetes prontos para racharem nossas cabeças. 

Corri como um ladrão flagrado em um assalto. Contornei a praça e segui pela rua Prudente de Morais. Depois, dobrei a Quinze de Novembro e peguei a Joaquim Nabuco. Olhava de tempos em tempos para cima, a fim de ter certeza de que o Águia não estava me seguindo. 

Finalmente, cheguei ao Terminal Rodoviário Municipal e pude colocar as mãos em meus  joelhos latejantes. Não conseguia respirar direito e sentia umas pontadas no baço. Tudo o que eu queria naquela hora era pegar um ônibus coletivo que me levasse direto para casa. 

— Eu vi o que você fez. Gostei! Aquele imbecil mereceu — era uma voz feminina que me dizia aquilo. 

Levantei os olhos e vi Dani segurando uma cartolina enrolada debaixo do braço. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. De repente, esqueci que tinha acabado de fugir da polícia. Botei as mãos na cintura para respirar melhor. 

— Não sou de brigar, ainda mais por política, mas não podia deixar que ele batesse naquelas pessoas — eu disse a ela. Não sei, mas senti alguma coisa estranha nessa manifestação, como se algo muito ruim estivesse prestes a acontecer se a gente não tomar nenhuma atitude agora. Sei lá. Posso estar falando bobagem também. 

— Não acho bobagem — falou Daniela. Penso a mesma coisa. Você é da minha turma de jornalismo, não é? 

— Sou — respondi com um sorriso. 

Um ônibus com destino ao bairro Nova Iorque parou na estação.

— Acho que é o meu — eu disse. 

— Vou pegar esse também. Deve passar pelo Alvorada.

Embarcamos.


Gostou do conto? Escreva nos comentários o que achou e não deixe de curtir se você gostou. Aproveitando que o assunto são as manifestações de junho de 2013, na minha newsletter desta semana escrevi a respeito do que vi e senti em um dos protestos e o que penso sobre as consequências das chamadas Jornadas de Junho. Confira lá e aproveite para assinar gratuitamente: https://open.substack.com/pub/marcenarialiteraria/p/junho-de-2013-o-fim-da-inocencia?r=r1iar&utm_campaign=post&utm_medium=web

A Modernidade Esfaqueada

Tela “As Mulatas” de Di Cavalcanti danificada por terroristas – Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

É muito provável que o idiota que deu seis facadas na obra “As Mulatas” de Di Cavalcanti no Palácio do Planalto, durante os ataques terroristas em Brasília no último 8 de janeiro de 2023, não fazia a menor ideia de quem era o autor ou da magnitude daquele quadro. Mas o ato não deixa de ser simbólico por várias razões.

Muitas pessoas apontaram que o esfaqueamento representava o ódio que os golpistas têm por mulheres, ainda mais por mulheres negras, que não têm medo de serem livres, belas e felizes. Também há o ódio pela cultura, pela arte, pelo que é belo, pela liberdade de se expressar e por tudo o que é brasileiro de verdade. Veja que ironia, logo eles que se julgam patriotas!

Concordo com essas interpretações. Mas o que pode ter passado despercebido para muitas pessoas e que me chamou muita a atenção foi como esse esfaqueamento simboliza também a ojeriza que a extrema-direita tem pela modernidade.

Di Cavalcanti foi um pintor modernista. Era amigo de Mário e Oswald de Andrade. Junto a eles e outros artistas ajudou a realizar a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo. Em suas pinceladas percebemos a influência das artes de vanguarda europeias, que fervilhavam naquela época, mas com um toque de brasilidade ao representar o nosso povo e a nossa cultura.

Os autoproclamados intelectuais da extrema-direita brasileira detestam o modernismo. Assim como os nazistas no passado, eles acham que a arte moderna e tudo que seguiu sua influência posteriormente representam a degeneração humana. Repetindo a erudição enciclopédica que ouviram de outros gurus extremistas, citam pintores clássicos como verdadeira expressão de arte, sem nem saber do que estão falando.

Vale lembrar que outra obra vandalizada pelos bolsonaristas raivosos foi a escultura “A Bailarina”, de Victor Brecheret, também artista do modernismo brasileiro.

Eu tenho minhas críticas à modernidade, por motivos totalmente opostos aos deles, porém, não posso negar a contribuição que ela trouxe para a humanidade.

E não pense você que a raiva dos golpistas tem a ver com uma busca por um mundo melhor. Não. Muito pelo contrário. A ideia de progresso é horrível para essas pessoas. Para elas, o ideal seria voltarmos à idade média. Uma das características do fascismo é justamente esse culto imbecil a um passado idílico que sequer existiu.

Os ideólogos da extrema-direita acreditam que estão em uma guerra cultural contra todo o tipo de arte que, na cabeça deles, representa o marxismo. E isso compreende desde uma novela da Globo até as poesias do Paulo Leminski. Por isso, querem uma “higienização” por meio da eliminação de tudo o que contraria seus padrões estéticos (o que para alguns deles se aplica a seres humanos também).

Nessa primeira batalha física, os fascistóides feriram gravemente nossa cultura, mas não conseguiram matá-la. O quadro “As Mulatas” está sendo restaurado. A nossa democracia precisa ser restaurada também.

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E o que você pensa disso tudo? Escreva aí nos comentários. Sei que o tema é polêmico, por isso, só te peço que seja educado. E curta o post se você gostou desta crônica.