Resenha #6: “Androides sonham com ovelhas elétricas?” de Philip K. Dick

Eu até que tentei, mas a comparação entre o livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick, com sua adaptação cinematográfica “Blade Runner”, de Ridley Scott, é inevitável.

Apesar de algumas semelhanças, acredito que as diferenças entre livro e filme são maiores. A começar pelos títulos. O nome “Blade Runner” foi tirado de uma obra do escritor beat William S. Burroughs que, convenhamos, tem muito mais apelo comercial do que o título original, embora este seja extremamente brilhante.

Outro contraste está no protagonista, Rick Deckard. No livro de PKD, Deckard me parece mais com o estereótipo daqueles policiais americanos acima do peso, prestes a se aposentar e amantes de donuts. Muito diferente do Harrison Ford em seu auge.

Para mim, tanto o filme, quanto o livro, são obras-primas. Mas vou me ater um pouco mais ao livro nesta resenha.

CAÇADOR DE RECOMPENSAS

A Terra foi praticamente devastada após a Guerra Mundial Terminus. Quem sobreviveu e resolveu ficar precisa conviver com uma poeira radiotiva. O governo incentiva as pessoas a irem para as colônias em Marte e até oferece um androide como mão de obra escrava para quem aceitar partir.

No entanto, os modelos de androides estão tão sofisticados que já se tornou difícil saber quem é humano ou não. Os Nexus-6 são tão semelhantes que alguns deles, liderados pelo messiânico Roy Baty, fugiram para a Terra e estão se passando por humanos.

Rick Deckard é um caçador de recompensas e recebe a missão de aposentar, ou seja, de destruir seis Nexus-6, após estes ferirem gravemente outro caçador.

Deckard aceita o trabalho, que vai lhe render dinheiro suficiente para comprar um animal de verdade. A vida na Terra é tão rara após a Guerra Mundial Terminus que ter um animal de verdade é sinal de status. Serve para fazer inveja aos vizinhos.

Assim como muita gente, para manter as aparências, Deckard tem uma ovelha elétrica – um animal artificial, mas muito semelhante a um genuíno.

Porém, após se relacionar com uma androide chamada Rachael Rosen, o que é ilegal, Deckard começa a se questionar sobre seu ganha-pão.

O QUE É REAL?

Um dos temas de “Androides sonham com ovelhas elétricas?” é a pergunta filosófica: o que é real?

Essa dúvida permeia todo o livro: o animal do vizinho é de verdade ou é elétrico? Fulano de tal é um androide ou não? Até as emoções são artificiais. As pessoas no mundo criado por PKD se conectam a sintetizadores de ânimos para terem sentimentos (alguém mais pensou em antidepressivos?).

A empatia é uma forma de confirmar se alguém suspeito é um androide ou não. Existe um teste para isso, chamado Voight-Kampff, que é utilizado por caçadores de recompensa como Deckard.

Mas dá mesmo para dizer que os seres humanos do livro de PKD têm empatia? Para terem empatia, eles precisam se conectar a uma espécie de guru chamado Wilbur Mercer, meio Buda, meio Jesus Cristo, através de uma caixa de empatia.

Além disso, existem algumas pessoas que foram drasticamente afetadas pela poeira e se tornaram especiais, conhecidos também pejorativamente como “cerébros de galinha”.

Em um momento da narrativa, até eu mesmo comecei a desconfiar que todos os personagens que apareciam eram androides. Até o próprio Deckard. E se em uma de suas missões Deckard matou um humano por engano? Afinal, o teste Voight-Kampff é um dos vários testes de empatia e sua eficácia está sendo questionada.

O que nos leva a outra pergunta: qual é essência do ser humano? No universo de “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, os humanos parecem ter perdido o interesse em viver, enquanto os androides buscam ser iguais aos humanos.

ESCRITA

Gostei da forma como PKD me fez imergir no livro com suas palavras. O mundo criado por ele é tão vívido, que tive a sensação de poder tocá-lo. Senti-me no apartamento de Isidore, um “cérebro de galinha” muito importante na narrativa.

Sei que a Terra mostrada na obra é horrível, mas achei a escrita do autor muito agradável, a ponto de querer morar no livro e passar os dias assistindo aos eternos programas do Buster Gente Fina.

Acredito que nos identificamos com os personagens e com o universo criados por PKD, pois ele mistura elementos futuristas com coisas semelhantes com o nosso cotidiano, como acordar para ir trabalhar, e com reflexões que costumamos fazer frequentemente.

Ao contrário do que muitos me disseram, não achei a leitura difícil. Pelo contrário. Achei muito fácil de ler e com muitas informações sobre a realidade em que os personagens vivem.

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