Precisamos Sonhar

Assistindo à série da Netflix “Sandman” um episódio me chamou muito a atenção. Nele, o vilão John Dee, desejando que todas as pessoas do mundo sejam “honestas” e vejam as coisas como elas realmente são, usa o rubi do Senhor dos Sonhos para controlar a mente dos clientes e funcionários de uma lanchonete, levando-os à loucura e à crueldade.

Quando o herói Sandman chega à lanchonete e se depara com aquele cenário macabro, John Dee diz a ele que aquilo mostrava o que a humanidade era de verdade. Mas Sandman o repreende. Aquelas pessoas seguiam suas vidas inspiradas por sonhos, ele diz. Quando isso foi tirado delas, após Dee acabar com suas aspirações, realmente, elas se destruíram. 

Aí o Sandman… Não. Chega de spoilers por hoje.

Para mim, esse episódio serve de metáfora para os nossos tempos pós-modernos, carregados de niilismo.

Ao destruirmos todos os nossos valores e propósitos, não nos resta nada sólido para se agarrar. Quando os tempos difíceis chegam, somos arrastados pelos eventos, como uma frágil sacola plástica de supermercado em um temporal.

Os amores líquidos, a repetição diária de trabalhos serializados, o consumismo que apenas sacia os prazeres imediatos, entre outras coisas, fazem muitas pessoas acreditarem que a vida não tem sentido. Que não vale mais a pena se levantar de manhã e encarar um novo dia. Diante dessa angústia existencial, elas se rendem ao desespero.

Mas o psiquiatra Viktor Frankl, pai da logoterapia, dizia que não somos nós que perguntamos à vida qual é o seu sentido. É a vida que nos pergunta a todo instante qual é o seu sentido. Cada momento, cada situação, exige de nós alguma coisa.

Sobrevivente de um campo de concentração nazista, ele afirmava que aqueles que tinham um propósito, mesmo que fosse rever uma pessoa amada, que já poderia estar morta àquela altura, resistiam melhor aos sofrimentos do que os que haviam perdido totalmente a esperança.

Em seu livro “Em busca de sentido”, Frankl conta que, quando percebia que um prisioneiro não queria mais guardar cigarros para trocar por uma comida melhor, por exemplo, e os fumava somente para sentir um prazer momentâneo, sabia que ele havia entregado os pontos. E que dias depois esse prisioneiro iria ou morrer por alguma doença, ou tirar a própria vida.

Como naquela música do Tim Maia, mesmo quem sofre precisa procurar uma razão para viver, ver na vida algum motivo para sonhar. E ter um sonho todo azul. Azul da cor do mar.

Gostou desta crônica? Deixe sua curtida e comentário!

Resenha #9: “Mitologia Nórdica” de Neil Gaiman

Assim como o escritor Neil Gaiman conta na apresentação deste livro, o pouco que eu conhecia sobre a mitologia nórdica vinha dos quadrinhos do Thor, da Marvel. Lembro-me também vagamente de falarem de Odin em uma das sagas dos Cavaleiros do Zodíaco.

Com um rico conhecimento sobre o assunto, Gaiman usa suas habilidades de grande contador de histórias para nos apresentar um panteão de deuses e lendas magníficas em contos que possuem elementos de vários gêneros literários, como humor, tragédia, romance e policial.

Da mesma forma como a Bíblia, a mitologia nórdica tem histórias sobre o princípio de tudo e o fim de todas as coisas (Ragnarök) — o que na verdade é um recomeço. Como os mitos costumam fazer, existem explicações sobre diversas coisas, como o motivo pelo qual temos terremotos e de onde vem a inspiração para poemas.

Ao contrário dos quadrinhos, os deuses nórdicos não são tão nobres e nem sempre gentis. Eles são mais parecidos com as divindades gregas, que têm relacionamentos complicados e defeitos, como nós humanos mortais.

Alguns contos são muito engraçados. Um deles, por exemplo, é sobre Thor se vestindo de noiva para ir recuperar seu martelo Mjölnir no mundo dos gigantes (Jötunheim). Por outro lado, “A Morte de Balder” é a história mais triste do livro.

LEITURA AGRADÁVEL

A leitura é muito fácil e agradável. Devorei “Mitologia Nórdica” em poucos dias. Gaiman é muito bom em nos enredar na narrativa, deixando sempre uma pergunta na cabeça do leitor sobre o que vai acontecer depois. Dessa forma, é impossível largar o livro.

A única coisa que me incomodou no início foi a repetição sobre quem são os personagens, o que aconteceu com eles, em alguns dos contos. Porém, isso é compreensível, pois o leitor pode ler o livro do começo ao fim, como foi o meu caso, ou escolher contos aleatoriamente. Assim, ele não ficará tão perdido se optar por esta última forma.

Nas três primeiras histórias, temos um estilo diferente do que estamos acostumados quando lemos as obras do Neil Gaiman. Ele mais conta do que mostra. Lembra até o Gênesis, se formos traçar mais um paralelo com a Bíblia. (Bem como o final me parece um tanto profético, tal qual o Apocalipse). Mas esses contos são necessários para contextualizar o mundo que iremos adentrar em breve.

“Mitologia Nórdica” é uma forma muito boa de se iniciar nesse universo e também de passar horas a fio se divertindo com ótimas histórias.

Gostou desta resenha? Então curta este post e deixe o seu comentário!