A Modernidade Esfaqueada

Tela “As Mulatas” de Di Cavalcanti danificada por terroristas – Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

É muito provável que o idiota que deu seis facadas na obra “As Mulatas” de Di Cavalcanti no Palácio do Planalto, durante os ataques terroristas em Brasília no último 8 de janeiro de 2023, não fazia a menor ideia de quem era o autor ou da magnitude daquele quadro. Mas o ato não deixa de ser simbólico por várias razões.

Muitas pessoas apontaram que o esfaqueamento representava o ódio que os golpistas têm por mulheres, ainda mais por mulheres negras, que não têm medo de serem livres, belas e felizes. Também há o ódio pela cultura, pela arte, pelo que é belo, pela liberdade de se expressar e por tudo o que é brasileiro de verdade. Veja que ironia, logo eles que se julgam patriotas!

Concordo com essas interpretações. Mas o que pode ter passado despercebido para muitas pessoas e que me chamou muita a atenção foi como esse esfaqueamento simboliza também a ojeriza que a extrema-direita tem pela modernidade.

Di Cavalcanti foi um pintor modernista. Era amigo de Mário e Oswald de Andrade. Junto a eles e outros artistas ajudou a realizar a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo. Em suas pinceladas percebemos a influência das artes de vanguarda europeias, que fervilhavam naquela época, mas com um toque de brasilidade ao representar o nosso povo e a nossa cultura.

Os autoproclamados intelectuais da extrema-direita brasileira detestam o modernismo. Assim como os nazistas no passado, eles acham que a arte moderna e tudo que seguiu sua influência posteriormente representam a degeneração humana. Repetindo a erudição enciclopédica que ouviram de outros gurus extremistas, citam pintores clássicos como verdadeira expressão de arte, sem nem saber do que estão falando.

Vale lembrar que outra obra vandalizada pelos bolsonaristas raivosos foi a escultura “A Bailarina”, de Victor Brecheret, também artista do modernismo brasileiro.

Eu tenho minhas críticas à modernidade, por motivos totalmente opostos aos deles, porém, não posso negar a contribuição que ela trouxe para a humanidade.

E não pense você que a raiva dos golpistas tem a ver com uma busca por um mundo melhor. Não. Muito pelo contrário. A ideia de progresso é horrível para essas pessoas. Para elas, o ideal seria voltarmos à idade média. Uma das características do fascismo é justamente esse culto imbecil a um passado idílico que sequer existiu.

Os ideólogos da extrema-direita acreditam que estão em uma guerra cultural contra todo o tipo de arte que, na cabeça deles, representa o marxismo. E isso compreende desde uma novela da Globo até as poesias do Paulo Leminski. Por isso, querem uma “higienização” por meio da eliminação de tudo o que contraria seus padrões estéticos (o que para alguns deles se aplica a seres humanos também).

Nessa primeira batalha física, os fascistóides feriram gravemente nossa cultura, mas não conseguiram matá-la. O quadro “As Mulatas” está sendo restaurado. A nossa democracia precisa ser restaurada também.

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E o que você pensa disso tudo? Escreva aí nos comentários. Sei que o tema é polêmico, por isso, só te peço que seja educado. E curta o post se você gostou desta crônica.

Resenha #8: “Os Inocentes” de Hermann Broch

As sinopses que se encontram na orelha e na contracapa da edição da Rocco (1988) do romance “Os Inocentes”, do escritor austríaco Hermann Broch, podem ser enganosas. Não quero dizer que o que está escrito ali esteja errado. Porém, o livro não se resume a um único enredo e a apenas uma ideia, como esses textos dão a entender. Pelo contrário. É possível fazer inúmeras reflexões a partir da leitura desta grande obra.

O romance é multiplot, ou seja, existem várias tramas envolvendo diversos personagens. Eles são apresentados em contos que, a princípio, parecem ser totalmente independentes, colocados aleatoriamente. No entanto, as histórias dessas pessoas vão acabar se cruzando ao longo da narrativa.

Aliás, todos os enredos são muito bem amarrados. Nada colocado em uma cena ou descrição é gratuito. Se o leitor for perspicaz e atento aos mínimos detalhes, será alegremente recompensado pelo autor. Sugiro que você faça anotações enquanto vai lendo o livro. Vale muito a pena, pois, ao voltar a elas, você irá perceber como tudo se encaixa.

PERSONAGENS

A. (ou Andreas) é um dos protagonistas do romance. Ele é uma pessoa que não gosta de tomar decisões e, consequentemente, ter responsabilidades. Prefere ser levado pelo destino e ter uma vida amena. Foi assim que conseguiu ganhar muito dinheiro como negociante de pedras preciosas na África do Sul.

Enquanto Hitler ascendia na Alemanha, A. ganhava dinheiro. Enquanto os bolcheviques chegavam ao poder na Rússia, A. ganhava dinheiro. Porém, por sua causa, algo terrível acontece a uma moça humilde e doce. Apesar de não ter intenção de fazer mal à garota e tentar não pensar mais no que houve, um dia, o tribunal de sua consciência irá cobrar um preço alto pela sua indiferença.

Outra personagem importante é Zerline, que é criada da baronesa W. e de sua filha bastarda Hildegard. Ela nutre um ódio mortal pelas duas. Invejosa e perversa, Zerline conhece muitos segredos sórdidos dessa família alemã tradicional. Sua raiva pela baronesa irá até as últimas consequências.

Já o professor titular Zacharias representa o espírito político da Alemanha no entre guerras. Embora pertença ao partido socialdemocrata, suas ideias estão sendo distorcidas por um nacionalismo e conservadorismo exagerados. Com seus filhos e alunos, Zacharias é muito autoritário. Mas o leitor vai descobrir logo que, pelo menos em sua casa, ele é o típico oprimido que deseja ser opressor.

MODERNISTA

Como um bom escritor modernista, Hermann Broch desafia a forma como o romance é escrito. O livro é dividido em três partes: Pré-Histórias, Histórias e Pós-Histórias. Cada uma dessas partes é iniciada por um poema de versos brancos e livres chamado Vozes.

Porém, não existe experimentalismos de vanguarda na linguagem da obra. O texto é bastante claro e muitas vezes poético, embora as frases e os parágrafos sejam grandes e exijam um certo fôlego do leitor.

Existem algumas digressões no meio da narrativa. Elas são curtas e estão de alguma forma ligadas ao personagem que conduz a cena. Porém, não são cansativas como as digressões costumam ser. A maioria são reflexões profundamente filosóficas a respeito de metafísica, sobre o tempo, o espaço e o ser, que nos retiram do senso comum e, em outras palavras, fazem nossa cabeça explodir.

IDEIAS

As ideias que são debatidas no romance após mais de 70 anos ainda são atuais. Uma delas é o problema que a indiferença ao autoritarismo pode causar. Todos os personagens do livro são “inocentes” no sentido de não terem envolvimento direto com o nazismo. Entretanto, essa postura “isentona” de muitos alemães na época permitiu os horrores praticados por Hitler e seus seguidores.

Outra ideia muito presente no livro é a capacidade do ser humano, mesmo após várias gerações, de praticar atrocidades contra o próximo. É possível também perceber o choque entre o passado – símbolo de orgulho para muitos – e a modernidade na cidadezinha alemã onde se passa a narrativa, bem como o clima do entre guerras, com paranoia e inflação crescentes.

Resenha #3: “Orlando – Uma Biografia” de Virginia Woolf

Tenho um amigo militante dos direitos LGBTQIA+ que sempre me ajuda corrigindo quando escrevo errado a forma de tratamento de pessoas trans. É o Pablo Vittar ou Pablo Vittar? Essa questão é muito debatida nos dias de hoje. Mas penso que em 1928, quando Virginia Woof publicou “Orlando – Uma Biografia”, o assunto ainda deveria ser tabu na sociedade.

Acredito que não deve ser spoiler para ninguém: a grande reviravolta do romance é Orlando acordar transformado em uma mulher, após passar vários dias dormindo. Até então ele era um rapazinho aristocrático, que vivia solitário em uma enorme mansão, ora contemplando a natureza, ora escrevendo poemas. Ou ainda recluso, mergulhado em imensa tristeza por uma paixão frustrada. 

A autora não explica os motivos que levaram a essa mudança fantástica, enquanto ele atuava como embaixador em Constantinopla. O interessante é que, a partir daí, Orlando passa a ser chamado de a Orlando. Virginia Woolf poderia trocar o nome por outro feminino ou até mesmo o tradutor poderia ter optado por Orlanda, o que seria ridículo, convenhamos. Penso que isso tem a ver com a forma que a escritora tratou a questão dos gêneros no livro. 

Uma das coisas que mais me chamou a atenção é que a governanta da mansão da casa avaliou como boa a transformação de Orlando, pois ela gosta da ideia de ter mais uma mulher na casa, para ajudar nos trabalhos domésticos. Por outro lado, o capelão, talvez por um questão religiosa, não gosta muito da mudança. Os cães, porém, reconhecem Orlando imediatamente, sem se preocupar com seu gênero. Seja homem ou mulher, é Orlando em essência que está ali. 

A narrativa nos mostra que a questão de gênero está mais ligada a comportamentos esperados pela sociedade, como o uso de determinadas roupas ou certas atitudes que são consideradas femininas ou masculinas, como chorar (é coisa mais aceitável em uma mulher, por exemplo). Ou seja: o gênero não tem uma relação intrínseca com o sexo biológico da pessoa, mas, sim, com uma construção social, algo que a filósofa e escritora Simone de Beauvoir também iria discutir mais tarde em sua obra. 

TEMPO

Outro tema discutido na obra que merece destaque é o tempo. Nós acompanhamos a vida de Orlando desde a sua vida na corte nos anos de 1500 até os agitados anos 1920.

Sim. Orlando vive mais de 300 anos. Além dele, o escritor (detestável) Nick Greene também continua vivo pelo mesmo período, além do carvalho, onde a/o protagonista vai sempre para admirar a paisagem ao seu redor. A árvore está presente em seu poema “O Carvalho”, o qual carrega consigo durante toda a vida. 

Por meio dos olhos de Orlando nós vemos a transformação do mundo através da passagem do tempo. Em uma das digressões da autora, ela comenta que o tempo está acontecendo em várias camadas ao mesmo tempo e que existem vários “eus”, de várias épocas, convivendo simultaneamente dentro do/a protagonista, sendo apenas comandados pelo “eu” do presente. Muitas vezes, esses “eus” antigos dão as caras na vida de Orlando. 

Como uma boa modernista, Virgina Woolf usa bastante metalinguagem no livro. Os mais de 300 anos de Orlando mesmo só são possíveis por estarmos em uma narrativa ficção.

A narradora se intromete várias vezes no texto, para fazer comentários e o livro mais nos conta do que mostra. Poderíamos até “acordar do sonho ficcional” por conta disso, mas o subtítulo “Uma Biografia” acaba nos mantendo presos ao mundo inventado pela escritora. Esse detalhe faz parecer que a história aconteceu de verdade e que está sendo narrada como a biografia de uma pessoa real. A biografia costuma ter intervenções do autor, como acontece no romance. E aqui temos outra característica cara aos modernos: a experimentação. 

O estilo biográfico, no entanto, não atrapalha em nada o livro, nem o torna enfadonho. Pelo contrário. A narradora nos descreve de forma exuberante a natureza, com muitas imagens, cores e sensações. 

“Orlando – Uma Biografia” é uma leitura saborosa e importante, ainda mais nos tempos de hoje de tanta intolerância, misoginia e homofobia.