Os Idos de Junho

Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Era 18 junho de 2013. Vesti minha camiseta polo e uma calça Calvin Klein. Calcei meu tênis  Olympicus e dei os últimos retoques no meu topete, da mesma forma que fazia todos os dias antes de  ir para a faculdade. Naquela data, porém, não ia estudar. Não era a primeira vez que matava aula, mas  não ia ficar no barzinho em frente à faculdade, jogando bilhar, como era meu costume nessas ocasiões.  Eu ia acompanhar o protesto de Araçatuba em apoio às manifestações políticas que estavam  acontecendo naquele mês em todo o País. 

Meu pai me ofereceu uma carona até a faculdade, mas disse que não precisava. Menti para ele que queria andar um pouco. Eu nem imaginava a longa caminhada que faria naquele dia… 

Meus pais eram idosos e ficariam doidos se descobrissem minhas escapadas. E essa seria uma das piores delas. Não poderia decepcioná-los assim. Meus irmãos, muito mais velhos do que eu, já  reclamavam o suficiente de que não foram tratados da mesma maneira quando tinham 18 anos. 

Sai da minha casa no bairro Nova Iorque e fui até a rotatória da avenida Brasília. A noite começava a cair. O ar estava seco, mas a temperatura era até que agradável. Nem o tradicional calor infernal, nem o frio congelante do inverno araçatubense. O tempo ideal para uma passeata. 

Ao chegar à rotatória, percebi que não havia o trânsito caótico comum daquele horário, porque todas as ruas ao redor estavam bloqueadas. Lá, encontrei meu amigo e colega da faculdade de  jornalismo, Alan, que havia me convencido a participar daquele negócio. 

— E aí, seu tratante — eu disse para ele. 

— Ô doutor Marcos. Você veio! — respondeu Alan, oferecendo-me uma vuvuzela verde-amarela, que ele devia ter guardado da última Copa do Mundo. Eu a devolvi, dizendo que não queria aquela porcaria. Uma garota interrompeu nossa conversa, querendo pintar o meu rosto de verde-amarelo. Não aceitei também.

— Você precisa entrar no clima, cara — pediu Alan. 

— Cadê ela? — perguntei. Só vim aqui porque você disse que ela viria. Se ela não aparecer, vou  embora.  

Não era contra, nem a favor do governo. Naquela época, achava que todos os políticos eram ladrões. Minha presença no protesto também não tinha nada a ver com a faculdade de jornalismo. Apenas havia escolhido o curso que tinha menos matemática na grade. 

Estava ali porque o Alan me falou que a Dani participaria da mobilização e lá seria o melhor lugar para encontrá-la fora da faculdade.  

Nós três estávamos na mesma turma do primeiro ano de jornalismo. Dani tinha uma beleza diferente, não sabia bem ao certo como explicá-la, mas era algo que me atraía. Talvez o fato de ela nunca ter dado ouvido para as minhas conversas, ao contrário do que as outras garotas faziam, tenha  aumentado minha paixão. 

No entanto, no campus da faculdade não dava para conversar direito com ela, pois Dani estava sempre muito focada nas atividades do curso ou do diretório acadêmico. Também nunca a encontrava nas baladas, barzinhos ou quermesses que eu frequentava. 

— Ali está ela — disse Alan apontando Dani em uma pequena aglomeração de pessoas. 

Do alto de um caminhão de som, um rapaz anunciou que a manifestação ia começar. Os autofalantes tocavam o jingle de um comercial de carro, que pedia para as pessoas saírem às ruas. Os  manifestantes, então, passaram a se mover. Daniela seguia à frente, segurando um cartaz que pedia  saúde e educação “padrão Fifa”. Ela estava vestida com uma saia comprida, com estampas africanas,  uma blusinha branca e, por cima dela, um colete jeans, com bottons de bandas de rock antigas. 

Havia pouca gente e pensei que o protesto seria só aquilo mesmo. No meio daquelas pessoas, reparei  que havia um idiota, também da minha turma de jornalismo, chamado Lucas, vestindo calças  seguradas por suspensórios e uma ridícula gravata borboleta. Ele vivia discutindo política com Dani e batia boca com o professor de filosofia quando ele mencionava o nome do Karl Marx – um  cara que eu nem sabia quem era naquele tempo e nem queria saber. 

— Vai atrás dela! — disse Alan de repente, despertando-me de meus pensamentos. Você está esperando o que? Um convite? Nem parece o Marcos que conheço. 

Apertei o passo para alcançar Dani, mas fui logo parado por uma moça que me ofereceu  uma das pontas da enorme bandeira do Brasil que estavam estendendo por toda a faixa da avenida. Recusei.  

Enquanto a moça e outros jovens sacudiam a bandeira, o grupo de Dani seguia em frente, bem depressa. Tive que passar por baixo dela para cortar caminho e tentar alcançá-la. Ao sair do outro lado, a luz do helicóptero Águia da Polícia Militar ofuscou minha visão.  

Reparei que o manto negro da noite já havia coberto todo o céu. Alguns manifestantes de um  movimento estudantil começaram a gritar: “Ei, burguês, essa aqui é pra vocês!”. Confesso que o barulho deles e das hélices do helicóptero da polícia em busca de algum tumulto me fez sentir medo. 

Coloquei as mãos acima dos olhos e vi os longos cabelos cacheados de Dani bem longe de mim, próximos ao restaurante Bola Sete. Entretanto, não consegui chegar até lá por causa das várias faixas esticadas e pessoas segurando cartazes, que saíam e entravam na minha frente. 

Em um dos cartazes li que os professores mereciam receber salários melhores do que o Neymar. Concordei. Outros pediam mais saúde e educação e pensei que não tinha como não aderir a essas causas. Ri de um cara que carregava uma cartolina pedindo a redução do preço do Marlboro. Isso seria ótimo para mim. Também esbarrei em algumas pessoas enroladas em bandeiras do Brasil, paradas para fazer selfies. 

Ao se aproximarem do Hotel Íbis, os manifestantes foram para o outro sentido da avenida,  para retornar à rotatória. Já não conseguia mais ver Dani. Na altura do Hotel Pekin, reencontrei Alan. Ele apontou para a rotatória da Brasília com a Pompeu: 

— Olha só aquilo! — disse ele.

O local onde, até pouco tempo atrás, tinha apenas algumas pessoas, foi invadido por um mar de gente, que chegava pela Pompeu de Toledo e engrossava a marcha. 

Apertando um pouco as pálpebras, consegui distinguir a silhueta de Dani lá embaixo. Mas a multidão continuava me espremendo. 

E o Alan tinha sumido de novo.  

Quando estava próximo à rodoviária, consegui ultrapassar algumas pessoas, trombando em seus ombros e esmagando pés. Porém, uma velha Brasília amarela me barrou o caminho. O som do carro tocava em volume alto uma música que dizia “A burguesia fede”. 

Senti que o clima voltou a ficar tenso quando os manifestantes chegaram à prefeitura. Policiais do Choque cercavam o prédio e eram provocados por algumas das pessoas que participavam do protesto. Lembrei-me das repressões aos atos em São Paulo, que assisti na televisão, e meu estômago esfriou. Ao olhar para o outro lado, vi um rapaz no topo do monumento do Lions Clube. Ele estendia  uma camiseta com a imagem do Che Guevara. Não sabia por qual motivo, mas senti a necessidade de tirar uma foto daquela cena com o meu celular. 

Após atravessar o monumento, entrei na rua Luís Pereira Barreto a passos lentos, por causa da turba. Muitas pessoas de lojas, lanchonetes e farmácias saíram de dentro de seus estabelecimentos muito iluminados. Outras apareceram na sacada de prédios para ver os manifestantes, que lhes convidavam para o protesto. “Vem pra rua, vem pra rua!”, eles gritavam em meio a assovios, apitos e buzinas. 

Ao meu lado, surgiu um grupo vestindo camisetas da seleção brasileira, segurando uma faixa  com os dizeres “Morte aos políticos”. Outros integrantes estavam com cartazes pedindo “Intervenção militar já!”. Eles entoavam um hino que mandava a presidente ir tomar naquele lugar, igual ao que eu ouvia nos jogos de futebol. Um dos que gritavam me pareceu um senhor respeitável, com idade para ser meu avô. Ele, porém, xingava uma mulher que também tinha idade para ser minha avó. 

Apesar de achar o governo daquela senhora um desastre, sem saber exatamente por qual motivo,  perguntei-me como alguém poderia sair às ruas pedindo respeito sendo tão desrespeitoso. 

Olhei por cima das cabeças e mais uma vez não consegui ver onde Dani estava. No momento em que a marcha caminhava para o seu fim, já me sentia arrependido de ter participado daquela droga. Nunca andei tanto a pé como naquela noite e não troquei um olhar com a garota. Aquele povo achava mesmo que andando tanto alguma coisa ia mudar?, me perguntei. Aliás, que ideia besta tinha sido aquela de procurar a Dani para conversar durante uma passeata política. O que eu iria dizer para ela? Você vem sempre aqui? Hoje “faz um protesto gostoso”, não é? Pensei em matar o Alan assim que o encontrasse de novo. 

Ao atingir a Praça Rui Barbosa a multidão começou a se dispersar, apesar de um grupo seguir em direção à Câmara dos Vereadores. Alguns caras que estavam perto de mim passaram a chutar os  tapumes ao redor da praça, que estava em reforma há muito tempo. Eles eram vaiados por outras  pessoas que gritavam “sem violência, sem violência”, também em ritmo de torcida organizada. O  helicóptero da Polícia Militar continuava a sobrevoar minha cabeça, lançando luzes no entorno da  praça. 

Foi quando vi Dani e algumas amigas dela, à minha direita, tirando fotos. Era a minha chance! 

Mas, alguns gritos fizeram com que eu voltasse a atenção para a esquerda, onde o babaca do Lucas estava puxando a bandeira vermelha de um casal de idosos sem-terra. “Sem partido, sem  partido”, ele berrava, dando um banho de cuspe nos dois. 

Não consegui deixar de pensar nos meus pais ao ver a mulher e homem acuados. Os olhos cansados daquele senhor lembravam os do meu pai. Decidi ajudá-los. Além disso, já fazia muito tempo que eu queria dar uma lição naquele trouxa que se achava demais na sala de aula.  

— Para com isso, brother — falei para Lucas, que me empurrou. 

— Sai daqui seu idiota! Comuna! — ele gritou.

Eu revidei com um murro, que transformou o nariz dele em um chafariz de sangue. Lucas levou as mãos ao rosto, para conter o vazamento. O casal sem-terra aproveitou a oportunidade para fugir. Ele olhou para as mãos ensanguentadas e depois olhou para mim. Em seguida, gritou. Armei  meus punhos para a briga inevitável. 

No entanto, dois policiais militares vieram em nossa direção, com cassetetes prontos para racharem nossas cabeças. 

Corri como um ladrão flagrado em um assalto. Contornei a praça e segui pela rua Prudente de Morais. Depois, dobrei a Quinze de Novembro e peguei a Joaquim Nabuco. Olhava de tempos em tempos para cima, a fim de ter certeza de que o Águia não estava me seguindo. 

Finalmente, cheguei ao Terminal Rodoviário Municipal e pude colocar as mãos em meus  joelhos latejantes. Não conseguia respirar direito e sentia umas pontadas no baço. Tudo o que eu queria naquela hora era pegar um ônibus coletivo que me levasse direto para casa. 

— Eu vi o que você fez. Gostei! Aquele imbecil mereceu — era uma voz feminina que me dizia aquilo. 

Levantei os olhos e vi Dani segurando uma cartolina enrolada debaixo do braço. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. De repente, esqueci que tinha acabado de fugir da polícia. Botei as mãos na cintura para respirar melhor. 

— Não sou de brigar, ainda mais por política, mas não podia deixar que ele batesse naquelas pessoas — eu disse a ela. Não sei, mas senti alguma coisa estranha nessa manifestação, como se algo muito ruim estivesse prestes a acontecer se a gente não tomar nenhuma atitude agora. Sei lá. Posso estar falando bobagem também. 

— Não acho bobagem — falou Daniela. Penso a mesma coisa. Você é da minha turma de jornalismo, não é? 

— Sou — respondi com um sorriso. 

Um ônibus com destino ao bairro Nova Iorque parou na estação.

— Acho que é o meu — eu disse. 

— Vou pegar esse também. Deve passar pelo Alvorada.

Embarcamos.


Gostou do conto? Escreva nos comentários o que achou e não deixe de curtir se você gostou. Aproveitando que o assunto são as manifestações de junho de 2013, na minha newsletter desta semana escrevi a respeito do que vi e senti em um dos protestos e o que penso sobre as consequências das chamadas Jornadas de Junho. Confira lá e aproveite para assinar gratuitamente: https://open.substack.com/pub/marcenarialiteraria/p/junho-de-2013-o-fim-da-inocencia?r=r1iar&utm_campaign=post&utm_medium=web

Resenha #16: “As águas-vivas não sabem de si” de Aline Valek

A humanidade está sempre buscando uma maneira de estabelecer contato com outras formas de vida conscientes de sua existência, para afastar a estranha sensação de que está sozinha no universo. Ao mesmo tempo, cada vez mais a comunicação entre nós, seres humanos, é rara e complicada.

O tema da comunicação — ou a falta dela — está presente em quase todas as páginas do livro “As águas-vivas não sabem de si”, da escritora Aline Valek. Eu já conhecia a autora por conta de sua newsletter “Uma Palavra”, a qual gosto muito, e ao encontrar esse romance, fiquei curioso para saber como ela se saía na ficção .

A protagonista da história, Corina, é uma mergulhadora profissional e está trabalhando em uma expedição liderada por Martin, um polêmico cientista estrangeiro, que em vez de buscar vida inteligente no espaço, como a maioria de seus colegas, a procura nas misteriosas e ainda pouco conhecidas profundezas do oceano.

O trabalho de Corina consiste em colocar sondas no fundo do mar junto com outro mergulhador, Arraia, que ela  já conhece dos tempos em que prestava serviços em uma empresa petrolífera. Martin usa essas sondas para enviar sinais pelas águas na esperança de que alguma criatura marinha os compreenda e mande uma mensagem sonora de volta. Ele quer saber se os animais do mar têm algo a dizer aos seres humanos.

Solidão

A missão só consegue chegar a profundidades tão grandes graças a um traje especial desenvolvido pela empresa que patrocina a pesquisa e que, por meio dela, pode testar seus novos equipamentos de mergulho.

A expedição fica sediada em uma estação no fundo do mar chamada Auris. Além de Corina, Martin e Arraia, vivem nela mais duas pessoas: Maurício, outro cientista que auxilia Martin; e Susana, uma engenheira naval que também faz o papel de enfermeira e médica às vezes, sem ter formação alguma nessas áreas. 

O lugar é pequeno e monitorado por câmeras. Apesar dessa proximidade física, não há muita conversa entre seus moradores. Isso aumenta a solidão que parece existir naturalmente nas profundezas do oceano, o que dá espaço para muitos pensamentos melancólicos.

Assim como o fundo do mar, os personagens guardam muitos segredos. Dramas e traumas que são apresentados ao leitor aos poucos. Todos eles parecem estar ali para tentar superá-los, provar algo para eles mesmos ou para a sociedade. Suas personalidades são bem definidas e coerentes com o passado de cada um.

O segredo de Corina é o mais complicado. Ele pode colocar a vida dela e a de seu colega Arraia em risco a qualquer momento e pôr fim à pesquisa. Mas a teimosia e perseverança de Corina são admiráveis para mim, mesmo que isso possa levá-la às piores consequências. Outro personagem que me chamou a atenção foi Martin, por causa de sua obsessão, que me fez lembrar de outros velhos lobos do mar da literatura, como o Capitão Ahab de “Moby Dick” (Herman Melville) e o Capitão Nemo de “Vinte Mil Léguas Submarinas” (Júlio Verne)

Tem uma cena no livro que gostei muito e que exemplifica bastante a solidão e incomunicabilidade pelas quais os integrantes da expedição optaram. Os tripulantes de Auris também recebem mensagens da superfície vindas de seus familiares e amigos. Corina recebeu uma de sua mãe. Apesar de ter ficado emocionada, ela decide não responder. Fiquei pensando o quanto era irônico tentar estabelecer uma conexão com um ser inteligente hipotético no fundo do mar, enviando sinais e ficar aguardando uma resposta, enquanto ignoramos as tentativas de diálogo com pessoas que nos são próximas.

A obra tem vários outros exemplos de ruídos de comunicação como esse, mas não seria possível colocar todos aqui numa pequena resenha. Convido você a ler o romance e encontrá-los.

Animais Marinhos

Alguns capítulos são narrados do ponto de vista de animais marinhos, o que dá um toque de fantasia e ficção científica ao livro. Alguns deles são conhecidos nossos como cachalotes e águas-vivas. Outros teriam sido extintos há muito tempo, que é o caso dos azúlis, criaturas conscientes e civilizadas. E uma espécie existente nos dias de hoje, no entanto, ainda desconhecida: os espectros. Até mesmo o oceano possui um capítulo no qual ele é o narrador.

Mas não pense que essas partes são apenas exercícios narrativos. Elas têm um propósito dentro do romance.

Aline Valek – Foto: Marcos Felipe

A prosa de Aline Valek é envolvente e poética. Embora ela trate de muitos temas densos, o leitor tem uma sensação prazerosa em degustar suas palavras. A leitura avança em um ritmo devagar, da mesma forma que as coisas parecem fluir no fundo do mar. Tudo nos leva à contemplação e reflexões.

A escritora realça como o oceano é um lugar estranho, não só por causa de suas criaturas esquisitas, mas também porque ele parece inadequado aos seres humanos, que apesar de conseguirem entrar em suas domínios, não têm uma estrutura corpórea para sobreviver por muito tempo naquele lugar.

Nos detalhes do fundo do oceano, porém, parece estar escrita a história do nosso planeta e da nossa espécie, à espera de alguém com coragem, inteligência e força, que consiga chegar até lá e decifrá-la. Alguém como Corina que ouve e aceita o convite incessante vindo desse perigoso abismo: mais fundo, mais fundo.


Você já conhecia esse livro da Aline Valek? Escreva aí nos comentários o que você achou desta resenha e não deixe de curtir se você gostou!

Chat(o)bots

Tenho um amigo que acredita que a maior parte das conversas que ocorrem no Whatsapp são entre robôs, desses que enviam respostas automáticas.

Outro dia, eu testemunhei uma delas. De um lado, o número de uma lanchonete que faz entregas. E do outro o contato de um serviço de atendimento ao consumidor de uma empresa de cartões de crédito.

— Boa noite! Hoje o x-salada está na promoção aqui no Kikão Lanches. Três por R$ 10,00. Bora fazer seu pedido?

— Oi, boa noite! Meu nome é Dri, sou assistente virtual da Agiotacred e vou realizar o seu atendimento. Digite de forma breve como eu posso ajudá-lo?

— Desculpe, acho que não entendi seu pedido. Gostaria de ver o nosso cardápio? Digite 1 para sim ou 2 para não.

— Desculpe, mas não consegui entender o que você precisa. Vamos tentar outra vez? Escreva de maneira sucinta o que você deseja. Por exemplo: fatura do cartão.

— Opção inválida. Se você quiser receber nosso cardápio digite 1. Caso contrário, digite 2 para sair.

— Desculpe, mas ainda não consegui entender o que você precisa. Gostaria de ser encaminhado para um de nossos atendentes? Digite sim ou não.

— Por falta de comunicação, vamos encerrar o  atendimento. De 0 a 5, como você avalia nosso serviço?

— Opção inválida. Por falta de comunicação, vamos encerrar o atendimento. Se quiser retomá-lo, basta nos enviar uma mensagem.

— Opção inválida. Agradecemos a atenção! Se precisar novamente da gente, mande qualquer mensagem para este número.

— Oi, boa noite! Meu nome é Dri, sou assistente virtual da Agiotacred e vou realizar o seu atendimento. Digite de forma breve como eu posso ajudá-lo?

— Boa noite! Hoje o x-salada está na promoção aqui no Kikão Lanches. Três por R$ 10,00. Bora fazer seu pedido?

Reza a lenda que esses dois estão conversando até hoje.


Você conhece a minha newsletter? Na última edição eu fiz um experimento com o ChatGPT que tem muito a ver com esta crônica. Fiz uma série de pegadinhas da 5ª série para verificar se ele era uma inteligência mesmo. O resultado você pode conferir neste link: https://marcenarialiteraria.substack.com/p/fazendo-piadas-da-5-serie-para-o

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Anjo da Guarda

Se eu contar talvez você não acredite ou pense que fiquei louco. Mas vou contar assim mesmo: eu converso com o meu anjo da guarda. 

“Como assim? Você não é um cético?” — alguém pode perguntar. Sim, acho que ainda sou. 

Vou tentar explicar antes que você diga que sou doido. Para começar eu não o vejo. Bom, até aí tudo bem, porque ninguém vê o seu anjo da guarda. 

Em segundo lugar, a gente não conversa por meio de palavras. Meu anjo da guarda, que batizei de André, aparece disfarçado de bom senso.

É um incômodo dentro de mim, indicando o que eu devo ou não fazer, e que só para quando eu o obedeço. 

E o bendito está sempre certo! Quando eu não dou ouvidos para ele, geralmente, me dou mal. Algumas vezes não acontece nada de ruim, mas, no fundo, sei que ele mexeu os pauzinhos no mundo metafísico para livrar a minha cara daquela vez. 

Hoje mesmo, ou melhor, no dia em que estou escrevendo esta crônica, fui abastecer minha moto. O caminho todo o meu anjo da guarda ficou buzinando na minha mente: não se esquece de encher os pneus. 

Eles estavam murchos há vários dias, o que prejudicava a estabilidade da moto. Porém, estava com muita pressa, queria voltar para casa logo. Mas o André continuou falando.

“Depois, quando o pneu estourar, você não vai culpar Deus, o universo, o destino”, senti ele dizer. 

— Tá bom, tá bom! — eu disse.

— O quê? — perguntou o frentista que me atendia. 

— Ah, desculpe, não foi nada não. Não ligue para mim, sou um cara esquisito. 

 Levei a moto até o calibrador e comecei a encher os pneus.

— Pronto! Está feliz agora? — perguntei ao anjo.

Porém, o incômodo tinha passado. O Anjo da Guarda estava satisfeito pelo dever cumprido. 

***

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Tristezas Velhas, Novas Esperanças

Não me recordo exatamente como era o trecho, mas me lembro que o escritor Thomas Mann, em uma passagem de seu livro “A Montanha Mágica”, disse que a gente só sabe que é Ano Novo por causa dos sinos e fogos de artifício que o anunciam. A natureza em si continua impassível, sem dar sinal de mudança.

Nós vivemos em uma era muito racionalista, o que é bom. Por outro lado, sei que isso, quando levado ao extremo, tira muito da poesia do cotidiano.

Eu já odiei muito as festas de fim de ano. Costumava desejar aos meus amigos, em tom de deboche, que eles tivessem uma boa volta completa em torno do sol.

Realmente, os dias são como todos os outros depois de 1º de janeiro. Hoje é terça-feira, amanhã será quarta. Haverá um dia e uma noite. Nada de novo sob o sol. O dia de hoje poderia ser batizado como dia 32 de fevereiro que não sentiríamos a menor diferença.

Mas como a vida seria insuportável se não existissem coisas como o ano passado. A ideia de que algo doloroso aconteceu há um ano é confortadora. Se não houvesse esse ponto final no dia 31 de dezembro, o sofrimento seria contínuo. Com o passar do ano novo, a tristeza vai ficando velha e vamos superando-a.

O Ano Novo também traz esperança. Se algo não deu certo neste ano, bom, no próximo ano poderá dar certo.

Quando era criança e minha mãe trazia um calendário do próximo ano do supermercado — a famosa “folhinha” — eu ficava contemplando todos aqueles dias que estavam por vir, tentando imaginar o que aconteceria. Certa vez, contei isso para ela. “Xi! Só desgraça!”, minha mãe comentou.

Já passei por algumas coisas na vida que me permitem dizer que não existem anos completamente bons, mas que também não existem anos completamente ruins. Coisas boas e más acontecem alternadamente o ano inteiro.

Mas que se dane! Quero olhar para o calendário como aquele garotinho e pensar que tenho 365 novas oportunidades para realizar os meus sonhos.

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Precisamos Sonhar

Assistindo à série da Netflix “Sandman” um episódio me chamou muito a atenção. Nele, o vilão John Dee, desejando que todas as pessoas do mundo sejam “honestas” e vejam as coisas como elas realmente são, usa o rubi do Senhor dos Sonhos para controlar a mente dos clientes e funcionários de uma lanchonete, levando-os à loucura e à crueldade.

Quando o herói Sandman chega à lanchonete e se depara com aquele cenário macabro, John Dee diz a ele que aquilo mostrava o que a humanidade era de verdade. Mas Sandman o repreende. Aquelas pessoas seguiam suas vidas inspiradas por sonhos, ele diz. Quando isso foi tirado delas, após Dee acabar com suas aspirações, realmente, elas se destruíram. 

Aí o Sandman… Não. Chega de spoilers por hoje.

Para mim, esse episódio serve de metáfora para os nossos tempos pós-modernos, carregados de niilismo.

Ao destruirmos todos os nossos valores e propósitos, não nos resta nada sólido para se agarrar. Quando os tempos difíceis chegam, somos arrastados pelos eventos, como uma frágil sacola plástica de supermercado em um temporal.

Os amores líquidos, a repetição diária de trabalhos serializados, o consumismo que apenas sacia os prazeres imediatos, entre outras coisas, fazem muitas pessoas acreditarem que a vida não tem sentido. Que não vale mais a pena se levantar de manhã e encarar um novo dia. Diante dessa angústia existencial, elas se rendem ao desespero.

Mas o psiquiatra Viktor Frankl, pai da logoterapia, dizia que não somos nós que perguntamos à vida qual é o seu sentido. É a vida que nos pergunta a todo instante qual é o seu sentido. Cada momento, cada situação, exige de nós alguma coisa.

Sobrevivente de um campo de concentração nazista, ele afirmava que aqueles que tinham um propósito, mesmo que fosse rever uma pessoa amada, que já poderia estar morta àquela altura, resistiam melhor aos sofrimentos do que os que haviam perdido totalmente a esperança.

Em seu livro “Em busca de sentido”, Frankl conta que, quando percebia que um prisioneiro não queria mais guardar cigarros para trocar por uma comida melhor, por exemplo, e os fumava somente para sentir um prazer momentâneo, sabia que ele havia entregado os pontos. E que dias depois esse prisioneiro iria ou morrer por alguma doença, ou tirar a própria vida.

Como naquela música do Tim Maia, mesmo quem sofre precisa procurar uma razão para viver, ver na vida algum motivo para sonhar. E ter um sonho todo azul. Azul da cor do mar.

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Baile na Sexta-Feira Santa

O pároco da cidadezinha de São Judas do Alto Tietê, padre Sidnei, bem que tentou alertar que uma desgraça aconteceria, mas de nada adiantou.

O prefeito Antônio decidiu promover um baile na noite de Sexta-Feira Santa no ginásio de esportes, já que o padre não liberou o salão de festas da paróquia.

— Os cofres da prefeitura estão vazios, enquanto as cestinhas de oferta da missa estão cheias — disse o prefeito ao padre ao sair da igreja.

A mãe de Ana, muito católica e amicíssima do padre Sidnei, não concordou com a decisão do prefeito.

— Onde já se viu darem uma festa no dia da morte do Nosso Senhor Jesus Cristo? E o prefeito ainda teve a cara de pau de pedir o salão da igreja.

— Mas Jesus não ressuscitou, mãe? — perguntou Ana, que acabara de completar dezessete anos e queria muito ir ao seu primeiro baile.

Além de não lhe dar permissão, por achar a filha nova demais para sair de casa à noite, a mãe de Ana a colocou de castigo por ser respondona.

Porém, na noite de sexta-feira, Ana abriu a janela do seu quarto, trancada apenas com um barbante amarrado entre os puxadores, e saiu para a rua. Com uns trocados furtados de um pote de biscoitos da mãe, ela entrou no baile.

Suas bochechas arderam ao ver um casal dançando agarrado. Ela olhou para as luzes quentes do palco, respirou a fumaça de gelo seco que envolvia a quadra e ouviu o forró tocado pela banda. Tudo isso provocou um arrepio em seu corpo.

Depois de passar algum tempo observando a movimentação, ela juntou algumas moedas que sobraram e trocou por uma ficha de refrigerante.

Enquanto esperava em frente à barraca montada com ferro e lonas, surgiu ao seu lado um rapaz com bastante gel nos cabelos pretos, vestido com uma camisa de cor roxa metalizada e calças vermelhas. Ana percebeu que ele não era da cidade. Nunca o tinha visto em São Judas. As outras pessoas também devem ter pensado a mesma coisa, pois olhavam de forma estranha para ele.

— Vou querer duas caipirinhas — pediu o rapaz, cortando a fila. Uma para mim e outra para essa moça aqui — disse ele, apontando para Ana.

Ana se surpreendeu com a atitude do rapaz.

— Desculpa, moço, mas minha mãe não me deixa beber. Aliás, eu nem te conheço.

— Mas eu sei quem você é, Ana.

— Como você sabe o meu nome?

O rapaz não respondeu nada, apenas sorriu. Ele pegou um dos copos e deu o outro para Ana. Sem saber ao certo o que fazer, Ana o virou de uma vez. O rapaz olhava para ela com copo dele na boca. 

A bebida queimou a garganta de Ana e depois ela sentiu um calor em seu peito. Ana, então, começou a se abanar com a mão. O rapaz riu. Passado alguns minutos, Ana teve uma leve tontura, que, apesar de esquisita, era agradável.

— Toma a minha caipirinha também — disse o rapaz entregando seu copo a Ana.

— Não. Só uma já é suficiente.

— Deixe de bobagem. Só mais uma não vai te fazer mal.

Como o moço insistia, ela tomou a bebida dele, da mesma forma que a primeira dose, de uma só vez. O segundo copo de álcool fez com que ela se soltasse. De repente, ficou mais animada, respondia as perguntas do rapaz espontaneamente e ria de tudo.

— Antigamente — disse o rapaz — as pessoas jejuavam na Sexta-feira Santa. Os mais velhos colocavam uma fatia de pão contra o sol. Se a luz passasse pelo pão, eles o comiam e aquela seria a única refeição do dia. Se não passasse, eles não comiam nada. Você não acha que um baile na Sexta-feira Santa é meio desrespeitoso? Sei lá, você não tem medo que, de repente, Deus mande um castigo?

— Eu acho que é um dia como outro qualquer. Jesus não vivia sempre em festas?

O rapaz gargalhou.

— Ele gostava mesmo.

— Mas me fala sobre você. Qual é seu nome?

— Adivinhe.

— Assim não vale.

— Vou dizer apenas que sou um cara de muita riqueza e bom gosto.

— Hummmm! Gostei!

Os dois riram.

— Vamos dançar — disse ele, puxando o braço de Ana.

— Mas eu não sei dançar.

— Deixa que eu te ensino.

Os dois foram para o meio da quadra. O rapaz explicou que era só dar dois passos para um lado e depois dois passos para o outro, que estava tudo certo. Ele apertou uma das mãos da moça e, com a outra, puxou o corpo dela de encontro ao seu. Ana tremeu e o calor em seu corpo aumentou.

Ela gostou do jeito que o rapaz sacudia a cintura. Em pouco tempo, Ana já dançava melhor. O rapaz se afastava para trás, girava Ana e depois a puxava novamente.

Os outros casais pararam por alguns instantes para observá-los, admirados com os movimentos ousados. Ana ficou sem jeito. Não estava acostumada a ser o centro das atenções. Mas logo todos se cansaram de ficar só olhando e voltaram a dançar.

Em certo momento, Ana e o rapaz se olharam nos olhos e seus rostos se aproximaram.

Porém, o rapaz franziu o rosto de repente e soltou um gemido.

Outro jovem que dançava perto se virou para pedir desculpas, porque achou ter pisado no pé do rapaz.

No entanto, ele se assustou ao ver o rapaz segurando uma cauda vermelha com uma seta na ponta. Ana olhou para baixo e gritou ao ver que os pés dele, na verdade, eram patas de bode. Seus olhos estavam vermelhos e faiscantes.

— Eu não desculpo ninguém — disse o rapaz indo na direção do jovem.

Com um soco, o rapaz arremessou o jovem na parede, atrás da última fileira de assentos da arquibancada. Todos gritaram.

Em seguida, ele lançou com os olhos uma rajada de fogo que incendiou o palco. As luzes explodiram e os cacos caíram sobre as pessoas que estavam na pista. Ana tentou se proteger com as mãos, mas os pedaços de vidro cortaram seus braços.

Ana viu que o rapaz desconhecido tinha se transformado em uma criatura parecida com um bode, com longos chifres retorcidos em espiral. “É o Diabo!”, concluiu apavorada.

A criatura vociferou e disparou mais fogo pelos olhos, desta vez, na direção da cesta de basquete, que desmoronou sobre o palco e os músicos. As pessoas começaram a correr para todos os lados, fugindo das chamas que se espalhavam rapidamente pelo ginásio.

Ana foi até a porta, empurrou a barra anti-pânico, que queimou suas mãos. Como se estivesse trancada com mil cadeados, a porta não cedeu nenhum milímetro.

A moça olhou para as suas mãos. Por detrás dos dedos em carne viva, Ana viu várias pessoas rolando no chão para apagar o fogo que consumia seus corpos. Entre elas, o prefeito Antônio. Outras já estavam carbonizadas. Algumas desmaiavam, como se estivessem com muito sono. Nunca mais acordariam.

O cheiro de carne assada sufocou Ana, que caiu de joelhos. Já não havia mais gritos, apenas os estalos do fogo destruindo o ginásio.

Em meio a fumaça, a criatura diabólica caminhou na direção da moça. Seus olhos vermelhos brilhavam. Lágrimas escorriam pelo rosto de Ana. O demônio ergueu uma das mãos, que passou a pegar fogo. Depois ele expirou fumaça pelas narinas.

Do lado de fora, bombeiros usando machados e serras derrubaram a porta do ginásio. Um estrondo ecoou pelo local. Enquanto uns tentavam controlar o incêndio, outros saíram em socorro às vítimas.

— Eu acho que não sobreviveu ninguém, comandante — disse um dos bombeiros após vasculhar o lugar.

Foi quando eles ouviram um gemido vindo debaixo de uma pilha de madeiras. Rapidamente levantaram os escombros e encontraram uma moça.

Era Ana.

Um bombeiro mediu sua pulsação. Ela estava viva.

***

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Ser Adulto

Quando eu era criança, tinha uma ideia bem clara do que era ser adulto: ir a um bar na rua Conselheiro Antônio Prado, no Centro de Birigui, sentar em um dos banquinhos ao redor do balcão; pedir um cigarro e uma cerveja. E, depois, conversar com os outros adultos que estavam lá sobre as coisas mais importantes da vida, como política e os problemas do País.

Naquela época, não tinha a menor vontade de ser adulto. Enquanto meus amigos queriam completar 18 anos logo, para terem uma carteira de motorista, eu queria que o tempo passasse o mais lentamente possível. “Você quer ficar pequeno para sempre?”, perguntava minha mãe. Sim, eu queria. Não era à toa que eu gostava tanto do Peter Pan, o personagem de histórias infantis que se recusava a crescer. 

Mas, como não é possível parar o fluxo da mudança ao qual nosso mundo está condenado, logo eu estava em uma “terra de gigantes”, como diz aquela música do Engenheiros do Hawaii. 

A “idade da razão” chegou para destruir o conceito claro que eu tinha sobre ser adulto. Hoje, pergunto-me se alguns dos hábitos que ainda tenho são infantis e se tenho responsabilidades suficientes para me considerar um homem maduro. 

Um dia, perto de completar 32 anos, fui a um bar, bem pequeno, na rua Conselheiro Antônio Prado. Sentei-me em um dos banquinhos ao redor do balcão. Olhei para a prateleira com vários cigarros de embalagens bonitas. Não comprei nenhum, pois não fumo. Pedi um refrigerante, porque estava de moto e, por isso, não podia beber nada que tivesse álcool.

Havia alguns homens mais velhos sentados em uma mesa do lado de fora. Porém, por ser tímido, não entrei na roda de conversas. Um deles falava de uma dor terrível que sentia e que perturbava seu sono à noite. A dor é realmente uma coisa de adulto. Nunca senti tantas dores como sinto hoje: doem-me os pés, a cabeça, a coluna. 

Fui embora sentindo que tinha completado um rito de passagem. Mas, fora a certeza de que viver sentindo dor é um sintoma de ser adulto, as dúvidas ainda me perseguem. Talvez ser adulto seja isso: nunca ter a ingênua certeza sobre nada. 

O Jantar

Jamais imaginei que iria reencontrá-lo. Ainda mais na imensa São Paulo, tão longe da nossa cidadezinha natal no interior do Estado.

Minha esposa havia combinado um jantar no apartamento de uma moça que tinha começado a trabalhar com ela. Eu não gosto de sair, muito menos visitar os outros, mas aceitei ir só para não chateá-la. 

Quando ele abriu a porta do apartamento, mal pude acreditar. Acho que ele sentiu a mesma coisa, no entanto, não demonstrou qualquer reação. Eu também me esforcei para agir com naturalidade. Nem em meus sonhos mais absurdos poderia imaginar que o marido da colega de trabalho da minha esposa fosse ele

Qual era a possibilidade de rever alguém com quem eu cortei relações há mais de dez anos? “Sabia que deveria ter ficado em casa”, pensei.

Quando apertei sua mão, aquela noite veio como um relâmpago na minha memória.

O ano era 2003. Depois de voltarmos do baile de formatura do ensino médio, nós dois pegamos um dos carros do pai dele, um fusca restaurado. O coroa dele era colecionador de veículos antigos. 

Estávamos muito bêbados. Queríamos curtir aquela noite o máximo possível. Afinal, depois daquele dia, cada um iria para o seu canto começar uma nova vida. Éramos amigos desde a primeira série e precisávamos nos despedir com classe.

Ele e eu tínhamos várias coisas em comum, em especial, o amor pelo time do São Paulo. E tínhamos também um cumprimento sacana. Ao apertar as mãos, às vezes ele, às vezes eu, enfiava o dedo do meio na palma da mão do outro. Quando ele fazia isso comigo, sempre o empurrava e dizia: “Para com isso, seu veado”.

O cheiro da costela assada, colocada na mesa pela mulher dele, interrompeu os meus pensamentos. Ela era uma bela morena. Usava um par de óculos que lhe dava uma aparência de intelectual. Tinha tido sorte o filho da puta. Seu menino também era bonito, cabelos negros, cortados no formato de tigela.

Será que ele não pensava na mulher e nos filhos daquele homem quando olhava para sua família? Pensei em como ele era insensível. Já no meu caso, não tinha um maldito dia em que não me lembrava daquele homem.

Enquanto ele falava como era seu trabalho de arquiteto, recordei-me que, naquela noite, era ele quem dirigia. Ouvíamos uma música do Slipknot no volume máximo. A gente gritava junto com a banda.

Ao descer uma ladeira, vimos algo reluzir na rua sem iluminação. Eram faixas refletoras coladas no uniforme de um lixeiro. Ele subia a rua. Acredito que estava voltando para casa. Toda vez que me lembro daquela noite penso em como aquele homem deveria estar cansado.

— Vamos dar um susto nesse sujeito? — ele me perguntou rindo. 

Como eu estava chapado, também ri da ideia e concordei. O som distorcido das guitarras e a bateria frenética do Slipknot davam mais emoção ao que iríamos fazer. “Vamos filho da puta! Todo mundo tem que morrer!”, era o que dizia um dos versos da música.

Ele girou o volante para a esquerda e avançou na direção do homem. Não sei se foi por causa do álcool ou por não ter experiência como motorista, mas ele não conseguiu desviar a tempo e atropelou o cara.

Anos depois, ele bebia devagar uma taça de vinho no conforto da sala de jantar de seu apartamento, com pinturas de paisagens nas paredes e cheiro de desodorizador de ambiente. O cretino perguntou se eu aceitava uma bebida. Respondi que não. Na verdade, queria lhe dizer que, desde aquela noite, nunca mais coloquei uma gota de álcool na boca.

Naquela noite, descemos do carro e vimos o lixeiro inconsciente, caído no asfalto. O sangue dele escorria até a sarjeta. Porém, percebi que ainda respirava. Li no bolso de seu uniforme o nome: “José”.

Não havia ninguém na rua e nenhuma casa construída por perto, pois estávamos em um lote novo de um conjunto habitacional. 

O vocalista do Slipknot continuava gritando no alto-falante que todo mundo tinha que morrer No entanto, nós dois não achávamos mais aquilo engraçado. 

Aquele homem tinha um nome. José. “As pessoas não são um merda, como aquela maldita música dizia”, pensei. 

José. 

Esse nome ecoa na minha mente todos os dias.

Após todos comerem, a mulher dele nos serviu um mousse de morango de sobremesa. Ela e minha esposa, então, passaram a contar fofocas sobre seus colegas de trabalho. Ele prestava atenção nas duas, enquanto eu o encarava. Porém, ele não olhou nos meus olhos nenhuma vez.

— Vamos embora – ele disse.

— Não! Precisamos chamar o socorro.

O desespero nos tornou sóbrios. Foi como se tivéssemos despertado de um sonho.

— Você está louco? O meu pai vai me matar se descobrir isso. Vou perder minha permissão para dirigir.

— Mas ele está precisando de ajuda.

— É o seguinte: eu vou cair fora. Se você quiser ficar aí e ser preso, o problema é seu.

Olhei uma última vez para José inconsciente no chão e entrei no carro. Ele desligou o som e voltamos para nossas casas, sem trocar uma palavra.

Antes de dormir, rezei muito para que alguém encontrasse aquele homem que se chamava José e o socorresse. Pedi a Deus para que a pancada não tivesse sido forte o suficiente para matá-lo. 

No outro dia, porém, ouvi no rádio que José havia sido encontrado morto, já em estado de rigidez cadavérica. A polícia ainda não sabia quais tinham sido as causas da morte, apesar de suspeitar de atropelamento. 

Liguei para ele, que me contou que seu pai estava furioso por causa do amassado no carro e que tinha inventado uma história de que bateu em uma árvore como desculpa. Disse a ele que estava pensando em me entregar à polícia.

— Não, cara! Esquece isso! Ninguém viu nada, sacou? Nunca vão descobrir que foi a gente, a não ser que você abra o bico. Se você fizer isso, acabo com você.

Não falei nada para ninguém e, realmente, nunca fomos descobertos. Dias depois eu me mudei. Fui estudar publicidade em outra cidade, também no interior de São Paulo. Ele foi estudar arquitetura em outro estado. Antes de partir, liguei para ele novamente para me despedir. Só que para sempre, pois não queria mais voltar a falar com ele novamente.

Mas o acaso quis nos reunir outra vez. O assunto na mesa agora era a corrupção na política. A mulher dele passou a falar sobre como era inacreditável a ladroagem no país.

— Eu não sei como um cara desses consegue colocar a cabeça no travesseiro e dormir – ele disse.

Aquilo foi demais para mim. Senti vontade de enfiar um soco na cara daquele imbecil. Pedi licença e me levantei. Fui até a sacada do apartamento e acendi um cigarro. “Como ele tinha a cara de pau de falar aquilo?”.

Enquanto olhava as luzes das janelas dos outros apartamentos, lembrando de que a maior construção da cidade de onde vim era a caixa d’água, ele entrou na sacada. Reparei que ele não tinha mudado muito, apenas engordou um pouco. Eu, por outro lado, já tinha vários fios de cabelos brancos. Ele perguntou se eu tinha fogo. Acendi o cigarro dele com a ponta do meu.

— Sabe… – ele fez uma pausa enquanto tragava.

Ele iria falar sobre aquela noite! Finalmente, poderia despejar na cara dele tudo o que havia guardado há mais de uma década. E se ele quisesse engrossar iria quebrar a cara dele ali mesmo. Não me importava que nossas mulheres e seu filho assistissem a tudo. 

— …eu acho que o São Paulo não vai ser rebaixado neste ano – ele concluiu.

Filho da puta!

— Pois eu não acho – eu disse. Tenho certeza de que vai ser rebaixado. 

Joguei a bituca do cigarro no chão da sacada e a esmaguei.

Retornei à sala e disse para a minha esposa que já estava na hora de voltarmos para casa. Ela e a mulher dele reclamaram que era cedo. Porém, eu disse que estava passando mal. 

Dei um beijo no rosto da mulher dele e baguncei o cabelo do garoto. Ele se ofereceu para nos levar à porta. 

Para manter as aparências, antes de sair, voltei-me para cumprimentá-lo. Ele enfiou o dedo do meio na palma da minha mão.

Olhei para ele e sorri. 

Tive vontade de o empurrar e dizer: “Para com isso, seu veado”. 

Distância (versão do século 21)

Em uma crônica chamada “Distância”, o meu grande mestre Rubem Braga recomendou aos seus leitores que evitassem o amor à distância. 

Na época em que o nosso maior cronista escreveu o texto, o meio mais comum de as pessoas se comunicarem ainda era através de cartas. Como o próprio Braga explicou na época, uma ligação telefônica era muito cara. 

Porém, levando-se em consideração que uma carta demorava dias para chegar, poderia ocorrer que o sentimento apaixonado que a/o remetente tinha quando a escreveu já não existisse mais quando a missiva encontrasse as mãos do(a) destinatário(a).

Por isso, o Braga terminou a crônica com a severa recomendação: “Não ameis à distância, não ameis, não ameis!”. 

Mas, atualmente, o mundo é muito diferente do que era em 1955. A tecnologia encurtou demais as distâncias. Todos têm celulares, redes sociais e aplicativos para falar e trocar mensagens instantaneamente, seja por texto, áudio ou vídeo. Quase ninguém escreve cartas hoje. Com tanta facilidade assim, os namoros à distância se tornaram comuns em nossa época. E muitos se transformaram em casamento. 

Parece algo até meio clichê para um cara meio tímido, meio nerd, como eu, ter encontrado sua esposa pela internet. 

Não sei se posso dizer exatamente que conheci a Jéssica pela internet. Realmente, o primeiro contato que tive com ela foi pelo Facebook. Mas não foi da forma tradicional como esses tipos de relacionamentos começam, em chats ou aplicativos e sites para encontrar uma pessoa perfeita.

Eu já conhecia o irmão dela pessoalmente. Ele era de Manaus e estava morando em Birigui. Éramos fãs de quadrinhos e, por isso, acabamos nos aproximando. Um dia ele disse que tinha uma irmã. Procurei o nome dela na rede social do Mark Zuckerberg e começamos a conversar. Passamos alguns anos nos falando apenas pelo celular. Namorando à distância.

Até que um dia eu desembarquei no aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus. Lembro-me de como fiquei ansioso ao perceber, enquanto subia as escadas, que em poucos segundos finalmente me encontraria face a face com alguém que parecia que já conhecia pessoalmente a vida inteira. 

Quinze dias depois ela voltou comigo para Birigui. “Namoramos pessoalmente” por dois anos e no próximo mês de julho completaremos quatro anos casados. 

O Braga lá do Céu que me perdoe, mas meu severo conselho para vocês neste Dia dos Namorados é: ameis de qualquer forma, ameis, ameis!