
As sinopses que se encontram na orelha e na contracapa da edição da Rocco (1988) do romance “Os Inocentes”, do escritor austríaco Hermann Broch, podem ser enganosas. Não quero dizer que o que está escrito ali esteja errado. Porém, o livro não se resume a um único enredo e a apenas uma ideia, como esses textos dão a entender. Pelo contrário. É possível fazer inúmeras reflexões a partir da leitura desta grande obra.
O romance é multiplot, ou seja, existem várias tramas envolvendo diversos personagens. Eles são apresentados em contos que, a princípio, parecem ser totalmente independentes, colocados aleatoriamente. No entanto, as histórias dessas pessoas vão acabar se cruzando ao longo da narrativa.
Aliás, todos os enredos são muito bem amarrados. Nada colocado em uma cena ou descrição é gratuito. Se o leitor for perspicaz e atento aos mínimos detalhes, será alegremente recompensado pelo autor. Sugiro que você faça anotações enquanto vai lendo o livro. Vale muito a pena, pois, ao voltar a elas, você irá perceber como tudo se encaixa.
PERSONAGENS
A. (ou Andreas) é um dos protagonistas do romance. Ele é uma pessoa que não gosta de tomar decisões e, consequentemente, ter responsabilidades. Prefere ser levado pelo destino e ter uma vida amena. Foi assim que conseguiu ganhar muito dinheiro como negociante de pedras preciosas na África do Sul.
Enquanto Hitler ascendia na Alemanha, A. ganhava dinheiro. Enquanto os bolcheviques chegavam ao poder na Rússia, A. ganhava dinheiro. Porém, por sua causa, algo terrível acontece a uma moça humilde e doce. Apesar de não ter intenção de fazer mal à garota e tentar não pensar mais no que houve, um dia, o tribunal de sua consciência irá cobrar um preço alto pela sua indiferença.
Outra personagem importante é Zerline, que é criada da baronesa W. e de sua filha bastarda Hildegard. Ela nutre um ódio mortal pelas duas. Invejosa e perversa, Zerline conhece muitos segredos sórdidos dessa família alemã tradicional. Sua raiva pela baronesa irá até as últimas consequências.
Já o professor titular Zacharias representa o espírito político da Alemanha no entre guerras. Embora pertença ao partido socialdemocrata, suas ideias estão sendo distorcidas por um nacionalismo e conservadorismo exagerados. Com seus filhos e alunos, Zacharias é muito autoritário. Mas o leitor vai descobrir logo que, pelo menos em sua casa, ele é o típico oprimido que deseja ser opressor.
MODERNISTA
Como um bom escritor modernista, Hermann Broch desafia a forma como o romance é escrito. O livro é dividido em três partes: Pré-Histórias, Histórias e Pós-Histórias. Cada uma dessas partes é iniciada por um poema de versos brancos e livres chamado Vozes.
Porém, não existe experimentalismos de vanguarda na linguagem da obra. O texto é bastante claro e muitas vezes poético, embora as frases e os parágrafos sejam grandes e exijam um certo fôlego do leitor.
Existem algumas digressões no meio da narrativa. Elas são curtas e estão de alguma forma ligadas ao personagem que conduz a cena. Porém, não são cansativas como as digressões costumam ser. A maioria são reflexões profundamente filosóficas a respeito de metafísica, sobre o tempo, o espaço e o ser, que nos retiram do senso comum e, em outras palavras, fazem nossa cabeça explodir.
IDEIAS
As ideias que são debatidas no romance após mais de 70 anos ainda são atuais. Uma delas é o problema que a indiferença ao autoritarismo pode causar. Todos os personagens do livro são “inocentes” no sentido de não terem envolvimento direto com o nazismo. Entretanto, essa postura “isentona” de muitos alemães na época permitiu os horrores praticados por Hitler e seus seguidores.
Outra ideia muito presente no livro é a capacidade do ser humano, mesmo após várias gerações, de praticar atrocidades contra o próximo. É possível também perceber o choque entre o passado – símbolo de orgulho para muitos – e a modernidade na cidadezinha alemã onde se passa a narrativa, bem como o clima do entre guerras, com paranoia e inflação crescentes.