Resenha #10: “Clube da Luta” de Chuck Palahniuk

A rotina mecânica e o consumismo do mundo moderno estão nos levando a um tédio perigoso e a uma perda total de sentido da vida, que pode provocar a destruição da civilização e um retorno à barbárie. Para mim, esta é uma das mensagens que o livro “Clube da Luta”, de Chuck Palahniuk, nos traz.

O romance é escrito em primeira pessoa, mas o narrador não diz o seu nome durante a história. Ele trabalha para uma empresa que avalia a necessidade (ou melhor, a vantagem financeira para a empresa) de se fazer recall de carros com defeito. Por isso, está sempre viajando de avião pelos Estados Unidos, desejando que um deles caia. Sua vida se resume a trabalhar e comprar coisas “legais” para seu apartamento.

O protagonista tem sofrido muito com insônia e procura um psiquiatra, que lhe recomenda frequentar grupos de apoio a pessoas com doenças terminais, caso ele quisesse encontrar um sentido para a vida. Ele faz isso e não é que o negócio dá certo? Em meio a tantas desgraças piores que a sua, o narrador consegue desabafar, chorar e dormir melhor.

Tudo ia muito bem até ele encontrar Marla Singer, que também passou a participar de vários grupos que o narrador ia. Assim como o protagonista, ela não está com uma doença terminal. Marla começa ser um empecilho para o narrador, que não consegue mais se concentrar durante os encontros, pois ela está ali para lembrá-lo de que ele é um farsante.

Os dois combinam de revezar os grupos de apoio para não se encontrarem. Entre uma viagem e outra, o narrador conhece Tyler Durden, um sujeito que é seu oposto, corajoso e descolado.

Certo dia, ao voltar de uma viagem, o narrador descobre que seu apartamento explodiu, provavelmente, por causa de um vazamento de gás. Só lhe sobraram as roupas que estavam na mala e as que ele vestia.

O protagonista, então, se muda para a casa de Tyler. Um dia, Tyler pede para o protagonista acertar uma porrada bem forte nele. A partir daí, os dois criam o Clube da Luta, onde caras como eles, pessoas com vidas e trabalhos triviais, podem lutar para extravasar todos seus instintos primitivos, reprimidos pelas facilidades do mundo contemporâneo.

Conforme o tempo passa, mais as ideias destrutivas de Tyler Durden vão tomando conta da mente do narrador.

INÍCIO ARREBATADOR

O início de “Clube da Luta” é um dos mais arrebatadores que já li. É uma antecipação do clímax da história. Tyler Durden coloca uma arma dentro da boca do narrador, em cima do prédio mais alto do mundo, que está prestes a desabar em um atentado terrorista.

Confesso que após esse início empolgante a narrativa chegou a me entediar um pouco por causa de seu tom extremamente pessimista, com personagens derrotistas, que pareciam fadados ao eterno fracasso. Porém, voltei a me empolgar depois que Tyler decide dar um passo adiante no Clube da Luta e cria o Projeto Desordem e Destruição.

Eu me lembro que quando assisti ao filme, lá pelos meus 20 e poucos anos, dizia: “é isso aí, Tyler! É preciso destruir tudo para reconstruir algo novo em cima de seus escombros”. (Gostava tanto do filme que eu tinha até uma camiseta do Tyler que brilhava no escuro).

Hoje, já com os meus quase 40 anos, lendo o livro, não tenho mais certeza de que penso assim. Ainda mais depois de ver a invasão do Capitólio e que, entre os manifestantes, estava um sujeito vestido como um bárbaro viking.

É até engraçado ver como o homem moderno sempre que se sente frustrado tem esse desejo de retornar ao estado de natureza (o mesmo que ele próprio destruiu), como diz o livro “TAZ Zona Autônoma Temporária”, de Hakim Bey, cuja leitura, aliás, eu recomendo muito.

Na verdade, eu acho que não precisamos jogar a água suja do banho com o bebê junto. O próprio narrador percebe que a coisa toda está fugindo do controle e que o Projeto Desordem e Destruição é uma receita para o desastre total. Mas pode ser que seja tarde demais para deter Tyler.

Por causa desse despertar do narrador, acredito que o Clube da Luta pode ser um alerta sobre o rumo que a nossa sociedade cada vez mais consumista está tomando, como escrevi no início desta resenha.

É claro que uma obra de arte pode ter “n” interpretações. Porém, não concordo, como muitos têm comentado ultimamente, que o autor tenha feito apologias ao fascismo, à homofobia e à misoginia. Ou que Palahniuk tenha escrito um livro doutrinário, para incentivar a criação de um Projeto Desordem e Destruição no mundo real. Os personagens de um romance não pensam necessariamente como o escritor, pelo amor de Deus!

ESTILO

O mergulho na mente do narrador é uma das seduções da escrita de Palahniuk. Existem muitas repetições de ideias no texto, o que costuma me incomodar um pouco. Mas neste caso  isso não ocorre por inexperiência ou pela insegurança de que o leitor não está entendendo do que se trata a história. Acredito que seja intencional, para nós sentirmos a mente doentia do protagonista.

Outra coisa que nos prende no estilo de Palahniuk é que o livro tem um pouco de skaz, uma técnica que emula o jeito como o personagem falaria, como se estivesse conversando informalmente com o leitor e este fosse um velho conhecido.

As frases e parágrafos curtos — às vezes com uma palavra só — aumentam a sensação de violência do texto, como se fossem socos. É uma narrativa crua, muitas vezes suja, carregada de niilismo e existencialismo, de uma maneira incômoda que eu só tinha sentido ao ler “Trainspotting” de Irvine Welsh.

“Clube da Luta” tem uma grande reviravolta no enredo, um pouco depois da metade do livro. Se você for um leitor atento, vai conseguir identificar as várias pistas que o autor vai deixando ao longo da história até o plot twist.

Enfim, “Clube da Luta” é um ótimo livro.

Já leu “Clube da Luta”? O que achou desta resenha? Deixe seu comentário e curta este post!

Resenha #6: “Androides sonham com ovelhas elétricas?” de Philip K. Dick

Eu até que tentei, mas a comparação entre o livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick, com sua adaptação cinematográfica “Blade Runner”, de Ridley Scott, é inevitável.

Apesar de algumas semelhanças, acredito que as diferenças entre livro e filme são maiores. A começar pelos títulos. O nome “Blade Runner” foi tirado de uma obra do escritor beat William S. Burroughs que, convenhamos, tem muito mais apelo comercial do que o título original, embora este seja extremamente brilhante.

Outro contraste está no protagonista, Rick Deckard. No livro de PKD, Deckard me parece mais com o estereótipo daqueles policiais americanos acima do peso, prestes a se aposentar e amantes de donuts. Muito diferente do Harrison Ford em seu auge.

Para mim, tanto o filme, quanto o livro, são obras-primas. Mas vou me ater um pouco mais ao livro nesta resenha.

CAÇADOR DE RECOMPENSAS

A Terra foi praticamente devastada após a Guerra Mundial Terminus. Quem sobreviveu e resolveu ficar precisa conviver com uma poeira radiotiva. O governo incentiva as pessoas a irem para as colônias em Marte e até oferece um androide como mão de obra escrava para quem aceitar partir.

No entanto, os modelos de androides estão tão sofisticados que já se tornou difícil saber quem é humano ou não. Os Nexus-6 são tão semelhantes que alguns deles, liderados pelo messiânico Roy Baty, fugiram para a Terra e estão se passando por humanos.

Rick Deckard é um caçador de recompensas e recebe a missão de aposentar, ou seja, de destruir seis Nexus-6, após estes ferirem gravemente outro caçador.

Deckard aceita o trabalho, que vai lhe render dinheiro suficiente para comprar um animal de verdade. A vida na Terra é tão rara após a Guerra Mundial Terminus que ter um animal de verdade é sinal de status. Serve para fazer inveja aos vizinhos.

Assim como muita gente, para manter as aparências, Deckard tem uma ovelha elétrica – um animal artificial, mas muito semelhante a um genuíno.

Porém, após se relacionar com uma androide chamada Rachael Rosen, o que é ilegal, Deckard começa a se questionar sobre seu ganha-pão.

O QUE É REAL?

Um dos temas de “Androides sonham com ovelhas elétricas?” é a pergunta filosófica: o que é real?

Essa dúvida permeia todo o livro: o animal do vizinho é de verdade ou é elétrico? Fulano de tal é um androide ou não? Até as emoções são artificiais. As pessoas no mundo criado por PKD se conectam a sintetizadores de ânimos para terem sentimentos (alguém mais pensou em antidepressivos?).

A empatia é uma forma de confirmar se alguém suspeito é um androide ou não. Existe um teste para isso, chamado Voight-Kampff, que é utilizado por caçadores de recompensa como Deckard.

Mas dá mesmo para dizer que os seres humanos do livro de PKD têm empatia? Para terem empatia, eles precisam se conectar a uma espécie de guru chamado Wilbur Mercer, meio Buda, meio Jesus Cristo, através de uma caixa de empatia.

Além disso, existem algumas pessoas que foram drasticamente afetadas pela poeira e se tornaram especiais, conhecidos também pejorativamente como “cerébros de galinha”.

Em um momento da narrativa, até eu mesmo comecei a desconfiar que todos os personagens que apareciam eram androides. Até o próprio Deckard. E se em uma de suas missões Deckard matou um humano por engano? Afinal, o teste Voight-Kampff é um dos vários testes de empatia e sua eficácia está sendo questionada.

O que nos leva a outra pergunta: qual é essência do ser humano? No universo de “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, os humanos parecem ter perdido o interesse em viver, enquanto os androides buscam ser iguais aos humanos.

ESCRITA

Gostei da forma como PKD me fez imergir no livro com suas palavras. O mundo criado por ele é tão vívido, que tive a sensação de poder tocá-lo. Senti-me no apartamento de Isidore, um “cérebro de galinha” muito importante na narrativa.

Sei que a Terra mostrada na obra é horrível, mas achei a escrita do autor muito agradável, a ponto de querer morar no livro e passar os dias assistindo aos eternos programas do Buster Gente Fina.

Acredito que nos identificamos com os personagens e com o universo criados por PKD, pois ele mistura elementos futuristas com coisas semelhantes com o nosso cotidiano, como acordar para ir trabalhar, e com reflexões que costumamos fazer frequentemente.

Ao contrário do que muitos me disseram, não achei a leitura difícil. Pelo contrário. Achei muito fácil de ler e com muitas informações sobre a realidade em que os personagens vivem.

Gostou desta resenha? Então curta, comente e compartilhe com seus amigos!

Resenha #5: “Os 300 de Esparta” de Frank Miller e Lynn Varley

Resenha #5: "Os 300 de Esparta" de de Frank Miller e Lynn Varley

A graphic novel “Os 300 de Esparta” de Frank Miller e Lynn Varley é, principalmente, uma história sobre resistência.

A HQ retrata a Batalha das Termópilas, ocorrida em 480 a.C. e que foi registrada pelo historiador grego Heródoto, quando 300 guerreiros espartanos, comandados pelo rei Leônidas, tentam impedir o avanço do imperador persa Xerxes sobre o território grego.

Mas não pense que a graphic novel é baseada fielmente em fatos históricos, até porque é muito difícil afirmar com toda a certeza o que aconteceu realmente nesse episódio.

Frank Miller faz uma adaptação do evento, um pouco romantizada até, transformando-o em um verdadeiro épico de coragem e determinação de um povo que não aceita se curvar. 

Espartanos X Persas

A Grécia é apresentada por Miller como o único lugar do mundo, na época, governado pelos princípios de Justiça, Razão e Liberdade. Mas ao contrário dos demais gregos, além desses valores, os espartanos têm a guerra como ofício. O exército de Esparta só admite os melhores e o treinamento deles é rigoroso. Fraqueza, piedade e medo não são sentimentos aceitos. 

Seu líder é o rei Leônidas, o protagonista da HQ. Criado desde cedo para ser um guerreiro, Leônidas é um rei austero. Porém, como todo grego de seu tempo, tinha muito apreço pela moderação e não admitia excessos. Por isso, ele é mostrado como um homem muito justo. 

Por outro lado, o inimigo de Esparta, o Império Persa é tirânico e selvagem. O imperador Xerxes acredita ser um deus e deseja expandir seu território, que já possui mais de cem nações. 

Xerxes quer que Esparta e toda a Grécia se curvem a ele. Entretanto, apesar de estarem em número menor, Esparta não aceita fazer parte do Império Persa. 

O exército espartano, então, com apenas 300 homens, enfrenta sem recuar os milhares de guerreiros persas, provocando-os sempre e derrotando-os humilhantemente. 

"Os 300 de Esparta"

Melhor fase de Miller

Acredito que Miller está na sua melhor fase como roteirista e desenhista nesta HQ. Sou muito fã de seu traço original, de seus enquadramentos, que, aliás, se transformaram em verdadeiras obras de arte com a pintura de Varley. Para mim, o formato widescreen e a narrativa de “300” continuaa inovadores ainda nos dias de hoje. 

A HQ foi publicada pela primeira vez em 1998 pela Dark Horse. Tanta qualidade lhe valeu um prêmio Eisner de melhor minissérie no ano seguinte. No Brasil, a Editora Abril a publicou em cinco edições e, depois, a Devir a reeditou em volume único. Em 2007, “Os 300 de Esparta” foi adaptado para o cinema pelas mãos Zack Snyder.

Quem ama quadrinhos de verdade não pode deixar de ler esta obra-prima sobre um povo que nega ter sua liberdade esmagada por um império poderoso e autoritário, nem que isso lhe custe preciosas vidas. 

"Os 300 de Esparta"

Gostou desta resenha? Então curta, comente e compartilhe com seus amigos!

Baile na Sexta-Feira Santa

O pároco da cidadezinha de São Judas do Alto Tietê, padre Sidnei, bem que tentou alertar que uma desgraça aconteceria, mas de nada adiantou.

O prefeito Antônio decidiu promover um baile na noite de Sexta-Feira Santa no ginásio de esportes, já que o padre não liberou o salão de festas da paróquia.

— Os cofres da prefeitura estão vazios, enquanto as cestinhas de oferta da missa estão cheias — disse o prefeito ao padre ao sair da igreja.

A mãe de Ana, muito católica e amicíssima do padre Sidnei, não concordou com a decisão do prefeito.

— Onde já se viu darem uma festa no dia da morte do Nosso Senhor Jesus Cristo? E o prefeito ainda teve a cara de pau de pedir o salão da igreja.

— Mas Jesus não ressuscitou, mãe? — perguntou Ana, que acabara de completar dezessete anos e queria muito ir ao seu primeiro baile.

Além de não lhe dar permissão, por achar a filha nova demais para sair de casa à noite, a mãe de Ana a colocou de castigo por ser respondona.

Porém, na noite de sexta-feira, Ana abriu a janela do seu quarto, trancada apenas com um barbante amarrado entre os puxadores, e saiu para a rua. Com uns trocados furtados de um pote de biscoitos da mãe, ela entrou no baile.

Suas bochechas arderam ao ver um casal dançando agarrado. Ela olhou para as luzes quentes do palco, respirou a fumaça de gelo seco que envolvia a quadra e ouviu o forró tocado pela banda. Tudo isso provocou um arrepio em seu corpo.

Depois de passar algum tempo observando a movimentação, ela juntou algumas moedas que sobraram e trocou por uma ficha de refrigerante.

Enquanto esperava em frente à barraca montada com ferro e lonas, surgiu ao seu lado um rapaz com bastante gel nos cabelos pretos, vestido com uma camisa de cor roxa metalizada e calças vermelhas. Ana percebeu que ele não era da cidade. Nunca o tinha visto em São Judas. As outras pessoas também devem ter pensado a mesma coisa, pois olhavam de forma estranha para ele.

— Vou querer duas caipirinhas — pediu o rapaz, cortando a fila. Uma para mim e outra para essa moça aqui — disse ele, apontando para Ana.

Ana se surpreendeu com a atitude do rapaz.

— Desculpa, moço, mas minha mãe não me deixa beber. Aliás, eu nem te conheço.

— Mas eu sei quem você é, Ana.

— Como você sabe o meu nome?

O rapaz não respondeu nada, apenas sorriu. Ele pegou um dos copos e deu o outro para Ana. Sem saber ao certo o que fazer, Ana o virou de uma vez. O rapaz olhava para ela com copo dele na boca. 

A bebida queimou a garganta de Ana e depois ela sentiu um calor em seu peito. Ana, então, começou a se abanar com a mão. O rapaz riu. Passado alguns minutos, Ana teve uma leve tontura, que, apesar de esquisita, era agradável.

— Toma a minha caipirinha também — disse o rapaz entregando seu copo a Ana.

— Não. Só uma já é suficiente.

— Deixe de bobagem. Só mais uma não vai te fazer mal.

Como o moço insistia, ela tomou a bebida dele, da mesma forma que a primeira dose, de uma só vez. O segundo copo de álcool fez com que ela se soltasse. De repente, ficou mais animada, respondia as perguntas do rapaz espontaneamente e ria de tudo.

— Antigamente — disse o rapaz — as pessoas jejuavam na Sexta-feira Santa. Os mais velhos colocavam uma fatia de pão contra o sol. Se a luz passasse pelo pão, eles o comiam e aquela seria a única refeição do dia. Se não passasse, eles não comiam nada. Você não acha que um baile na Sexta-feira Santa é meio desrespeitoso? Sei lá, você não tem medo que, de repente, Deus mande um castigo?

— Eu acho que é um dia como outro qualquer. Jesus não vivia sempre em festas?

O rapaz gargalhou.

— Ele gostava mesmo.

— Mas me fala sobre você. Qual é seu nome?

— Adivinhe.

— Assim não vale.

— Vou dizer apenas que sou um cara de muita riqueza e bom gosto.

— Hummmm! Gostei!

Os dois riram.

— Vamos dançar — disse ele, puxando o braço de Ana.

— Mas eu não sei dançar.

— Deixa que eu te ensino.

Os dois foram para o meio da quadra. O rapaz explicou que era só dar dois passos para um lado e depois dois passos para o outro, que estava tudo certo. Ele apertou uma das mãos da moça e, com a outra, puxou o corpo dela de encontro ao seu. Ana tremeu e o calor em seu corpo aumentou.

Ela gostou do jeito que o rapaz sacudia a cintura. Em pouco tempo, Ana já dançava melhor. O rapaz se afastava para trás, girava Ana e depois a puxava novamente.

Os outros casais pararam por alguns instantes para observá-los, admirados com os movimentos ousados. Ana ficou sem jeito. Não estava acostumada a ser o centro das atenções. Mas logo todos se cansaram de ficar só olhando e voltaram a dançar.

Em certo momento, Ana e o rapaz se olharam nos olhos e seus rostos se aproximaram.

Porém, o rapaz franziu o rosto de repente e soltou um gemido.

Outro jovem que dançava perto se virou para pedir desculpas, porque achou ter pisado no pé do rapaz.

No entanto, ele se assustou ao ver o rapaz segurando uma cauda vermelha com uma seta na ponta. Ana olhou para baixo e gritou ao ver que os pés dele, na verdade, eram patas de bode. Seus olhos estavam vermelhos e faiscantes.

— Eu não desculpo ninguém — disse o rapaz indo na direção do jovem.

Com um soco, o rapaz arremessou o jovem na parede, atrás da última fileira de assentos da arquibancada. Todos gritaram.

Em seguida, ele lançou com os olhos uma rajada de fogo que incendiou o palco. As luzes explodiram e os cacos caíram sobre as pessoas que estavam na pista. Ana tentou se proteger com as mãos, mas os pedaços de vidro cortaram seus braços.

Ana viu que o rapaz desconhecido tinha se transformado em uma criatura parecida com um bode, com longos chifres retorcidos em espiral. “É o Diabo!”, concluiu apavorada.

A criatura vociferou e disparou mais fogo pelos olhos, desta vez, na direção da cesta de basquete, que desmoronou sobre o palco e os músicos. As pessoas começaram a correr para todos os lados, fugindo das chamas que se espalhavam rapidamente pelo ginásio.

Ana foi até a porta, empurrou a barra anti-pânico, que queimou suas mãos. Como se estivesse trancada com mil cadeados, a porta não cedeu nenhum milímetro.

A moça olhou para as suas mãos. Por detrás dos dedos em carne viva, Ana viu várias pessoas rolando no chão para apagar o fogo que consumia seus corpos. Entre elas, o prefeito Antônio. Outras já estavam carbonizadas. Algumas desmaiavam, como se estivessem com muito sono. Nunca mais acordariam.

O cheiro de carne assada sufocou Ana, que caiu de joelhos. Já não havia mais gritos, apenas os estalos do fogo destruindo o ginásio.

Em meio a fumaça, a criatura diabólica caminhou na direção da moça. Seus olhos vermelhos brilhavam. Lágrimas escorriam pelo rosto de Ana. O demônio ergueu uma das mãos, que passou a pegar fogo. Depois ele expirou fumaça pelas narinas.

Do lado de fora, bombeiros usando machados e serras derrubaram a porta do ginásio. Um estrondo ecoou pelo local. Enquanto uns tentavam controlar o incêndio, outros saíram em socorro às vítimas.

— Eu acho que não sobreviveu ninguém, comandante — disse um dos bombeiros após vasculhar o lugar.

Foi quando eles ouviram um gemido vindo debaixo de uma pilha de madeiras. Rapidamente levantaram os escombros e encontraram uma moça.

Era Ana.

Um bombeiro mediu sua pulsação. Ela estava viva.

***

Gostou deste conto? Então curta e deixe seu comentário aqui embaixo!

Ser Adulto

Quando eu era criança, tinha uma ideia bem clara do que era ser adulto: ir a um bar na rua Conselheiro Antônio Prado, no Centro de Birigui, sentar em um dos banquinhos ao redor do balcão; pedir um cigarro e uma cerveja. E, depois, conversar com os outros adultos que estavam lá sobre as coisas mais importantes da vida, como política e os problemas do País.

Naquela época, não tinha a menor vontade de ser adulto. Enquanto meus amigos queriam completar 18 anos logo, para terem uma carteira de motorista, eu queria que o tempo passasse o mais lentamente possível. “Você quer ficar pequeno para sempre?”, perguntava minha mãe. Sim, eu queria. Não era à toa que eu gostava tanto do Peter Pan, o personagem de histórias infantis que se recusava a crescer. 

Mas, como não é possível parar o fluxo da mudança ao qual nosso mundo está condenado, logo eu estava em uma “terra de gigantes”, como diz aquela música do Engenheiros do Hawaii. 

A “idade da razão” chegou para destruir o conceito claro que eu tinha sobre ser adulto. Hoje, pergunto-me se alguns dos hábitos que ainda tenho são infantis e se tenho responsabilidades suficientes para me considerar um homem maduro. 

Um dia, perto de completar 32 anos, fui a um bar, bem pequeno, na rua Conselheiro Antônio Prado. Sentei-me em um dos banquinhos ao redor do balcão. Olhei para a prateleira com vários cigarros de embalagens bonitas. Não comprei nenhum, pois não fumo. Pedi um refrigerante, porque estava de moto e, por isso, não podia beber nada que tivesse álcool.

Havia alguns homens mais velhos sentados em uma mesa do lado de fora. Porém, por ser tímido, não entrei na roda de conversas. Um deles falava de uma dor terrível que sentia e que perturbava seu sono à noite. A dor é realmente uma coisa de adulto. Nunca senti tantas dores como sinto hoje: doem-me os pés, a cabeça, a coluna. 

Fui embora sentindo que tinha completado um rito de passagem. Mas, fora a certeza de que viver sentindo dor é um sintoma de ser adulto, as dúvidas ainda me perseguem. Talvez ser adulto seja isso: nunca ter a ingênua certeza sobre nada. 

O Jantar

Jamais imaginei que iria reencontrá-lo. Ainda mais na imensa São Paulo, tão longe da nossa cidadezinha natal no interior do Estado.

Minha esposa havia combinado um jantar no apartamento de uma moça que tinha começado a trabalhar com ela. Eu não gosto de sair, muito menos visitar os outros, mas aceitei ir só para não chateá-la. 

Quando ele abriu a porta do apartamento, mal pude acreditar. Acho que ele sentiu a mesma coisa, no entanto, não demonstrou qualquer reação. Eu também me esforcei para agir com naturalidade. Nem em meus sonhos mais absurdos poderia imaginar que o marido da colega de trabalho da minha esposa fosse ele

Qual era a possibilidade de rever alguém com quem eu cortei relações há mais de dez anos? “Sabia que deveria ter ficado em casa”, pensei.

Quando apertei sua mão, aquela noite veio como um relâmpago na minha memória.

O ano era 2003. Depois de voltarmos do baile de formatura do ensino médio, nós dois pegamos um dos carros do pai dele, um fusca restaurado. O coroa dele era colecionador de veículos antigos. 

Estávamos muito bêbados. Queríamos curtir aquela noite o máximo possível. Afinal, depois daquele dia, cada um iria para o seu canto começar uma nova vida. Éramos amigos desde a primeira série e precisávamos nos despedir com classe.

Ele e eu tínhamos várias coisas em comum, em especial, o amor pelo time do São Paulo. E tínhamos também um cumprimento sacana. Ao apertar as mãos, às vezes ele, às vezes eu, enfiava o dedo do meio na palma da mão do outro. Quando ele fazia isso comigo, sempre o empurrava e dizia: “Para com isso, seu veado”.

O cheiro da costela assada, colocada na mesa pela mulher dele, interrompeu os meus pensamentos. Ela era uma bela morena. Usava um par de óculos que lhe dava uma aparência de intelectual. Tinha tido sorte o filho da puta. Seu menino também era bonito, cabelos negros, cortados no formato de tigela.

Será que ele não pensava na mulher e nos filhos daquele homem quando olhava para sua família? Pensei em como ele era insensível. Já no meu caso, não tinha um maldito dia em que não me lembrava daquele homem.

Enquanto ele falava como era seu trabalho de arquiteto, recordei-me que, naquela noite, era ele quem dirigia. Ouvíamos uma música do Slipknot no volume máximo. A gente gritava junto com a banda.

Ao descer uma ladeira, vimos algo reluzir na rua sem iluminação. Eram faixas refletoras coladas no uniforme de um lixeiro. Ele subia a rua. Acredito que estava voltando para casa. Toda vez que me lembro daquela noite penso em como aquele homem deveria estar cansado.

— Vamos dar um susto nesse sujeito? — ele me perguntou rindo. 

Como eu estava chapado, também ri da ideia e concordei. O som distorcido das guitarras e a bateria frenética do Slipknot davam mais emoção ao que iríamos fazer. “Vamos filho da puta! Todo mundo tem que morrer!”, era o que dizia um dos versos da música.

Ele girou o volante para a esquerda e avançou na direção do homem. Não sei se foi por causa do álcool ou por não ter experiência como motorista, mas ele não conseguiu desviar a tempo e atropelou o cara.

Anos depois, ele bebia devagar uma taça de vinho no conforto da sala de jantar de seu apartamento, com pinturas de paisagens nas paredes e cheiro de desodorizador de ambiente. O cretino perguntou se eu aceitava uma bebida. Respondi que não. Na verdade, queria lhe dizer que, desde aquela noite, nunca mais coloquei uma gota de álcool na boca.

Naquela noite, descemos do carro e vimos o lixeiro inconsciente, caído no asfalto. O sangue dele escorria até a sarjeta. Porém, percebi que ainda respirava. Li no bolso de seu uniforme o nome: “José”.

Não havia ninguém na rua e nenhuma casa construída por perto, pois estávamos em um lote novo de um conjunto habitacional. 

O vocalista do Slipknot continuava gritando no alto-falante que todo mundo tinha que morrer No entanto, nós dois não achávamos mais aquilo engraçado. 

Aquele homem tinha um nome. José. “As pessoas não são um merda, como aquela maldita música dizia”, pensei. 

José. 

Esse nome ecoa na minha mente todos os dias.

Após todos comerem, a mulher dele nos serviu um mousse de morango de sobremesa. Ela e minha esposa, então, passaram a contar fofocas sobre seus colegas de trabalho. Ele prestava atenção nas duas, enquanto eu o encarava. Porém, ele não olhou nos meus olhos nenhuma vez.

— Vamos embora – ele disse.

— Não! Precisamos chamar o socorro.

O desespero nos tornou sóbrios. Foi como se tivéssemos despertado de um sonho.

— Você está louco? O meu pai vai me matar se descobrir isso. Vou perder minha permissão para dirigir.

— Mas ele está precisando de ajuda.

— É o seguinte: eu vou cair fora. Se você quiser ficar aí e ser preso, o problema é seu.

Olhei uma última vez para José inconsciente no chão e entrei no carro. Ele desligou o som e voltamos para nossas casas, sem trocar uma palavra.

Antes de dormir, rezei muito para que alguém encontrasse aquele homem que se chamava José e o socorresse. Pedi a Deus para que a pancada não tivesse sido forte o suficiente para matá-lo. 

No outro dia, porém, ouvi no rádio que José havia sido encontrado morto, já em estado de rigidez cadavérica. A polícia ainda não sabia quais tinham sido as causas da morte, apesar de suspeitar de atropelamento. 

Liguei para ele, que me contou que seu pai estava furioso por causa do amassado no carro e que tinha inventado uma história de que bateu em uma árvore como desculpa. Disse a ele que estava pensando em me entregar à polícia.

— Não, cara! Esquece isso! Ninguém viu nada, sacou? Nunca vão descobrir que foi a gente, a não ser que você abra o bico. Se você fizer isso, acabo com você.

Não falei nada para ninguém e, realmente, nunca fomos descobertos. Dias depois eu me mudei. Fui estudar publicidade em outra cidade, também no interior de São Paulo. Ele foi estudar arquitetura em outro estado. Antes de partir, liguei para ele novamente para me despedir. Só que para sempre, pois não queria mais voltar a falar com ele novamente.

Mas o acaso quis nos reunir outra vez. O assunto na mesa agora era a corrupção na política. A mulher dele passou a falar sobre como era inacreditável a ladroagem no país.

— Eu não sei como um cara desses consegue colocar a cabeça no travesseiro e dormir – ele disse.

Aquilo foi demais para mim. Senti vontade de enfiar um soco na cara daquele imbecil. Pedi licença e me levantei. Fui até a sacada do apartamento e acendi um cigarro. “Como ele tinha a cara de pau de falar aquilo?”.

Enquanto olhava as luzes das janelas dos outros apartamentos, lembrando de que a maior construção da cidade de onde vim era a caixa d’água, ele entrou na sacada. Reparei que ele não tinha mudado muito, apenas engordou um pouco. Eu, por outro lado, já tinha vários fios de cabelos brancos. Ele perguntou se eu tinha fogo. Acendi o cigarro dele com a ponta do meu.

— Sabe… – ele fez uma pausa enquanto tragava.

Ele iria falar sobre aquela noite! Finalmente, poderia despejar na cara dele tudo o que havia guardado há mais de uma década. E se ele quisesse engrossar iria quebrar a cara dele ali mesmo. Não me importava que nossas mulheres e seu filho assistissem a tudo. 

— …eu acho que o São Paulo não vai ser rebaixado neste ano – ele concluiu.

Filho da puta!

— Pois eu não acho – eu disse. Tenho certeza de que vai ser rebaixado. 

Joguei a bituca do cigarro no chão da sacada e a esmaguei.

Retornei à sala e disse para a minha esposa que já estava na hora de voltarmos para casa. Ela e a mulher dele reclamaram que era cedo. Porém, eu disse que estava passando mal. 

Dei um beijo no rosto da mulher dele e baguncei o cabelo do garoto. Ele se ofereceu para nos levar à porta. 

Para manter as aparências, antes de sair, voltei-me para cumprimentá-lo. Ele enfiou o dedo do meio na palma da minha mão.

Olhei para ele e sorri. 

Tive vontade de o empurrar e dizer: “Para com isso, seu veado”.