
Tenho um amigo militante dos direitos LGBTQIA+ que sempre me ajuda corrigindo quando escrevo errado a forma de tratamento de pessoas trans. É o Pablo Vittar ou a Pablo Vittar? Essa questão é muito debatida nos dias de hoje. Mas penso que em 1928, quando Virginia Woof publicou “Orlando – Uma Biografia”, o assunto ainda deveria ser tabu na sociedade.
Acredito que não deve ser spoiler para ninguém: a grande reviravolta do romance é Orlando acordar transformado em uma mulher, após passar vários dias dormindo. Até então ele era um rapazinho aristocrático, que vivia solitário em uma enorme mansão, ora contemplando a natureza, ora escrevendo poemas. Ou ainda recluso, mergulhado em imensa tristeza por uma paixão frustrada.
A autora não explica os motivos que levaram a essa mudança fantástica, enquanto ele atuava como embaixador em Constantinopla. O interessante é que, a partir daí, Orlando passa a ser chamado de a Orlando. Virginia Woolf poderia trocar o nome por outro feminino ou até mesmo o tradutor poderia ter optado por Orlanda, o que seria ridículo, convenhamos. Penso que isso tem a ver com a forma que a escritora tratou a questão dos gêneros no livro.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção é que a governanta da mansão da casa avaliou como boa a transformação de Orlando, pois ela gosta da ideia de ter mais uma mulher na casa, para ajudar nos trabalhos domésticos. Por outro lado, o capelão, talvez por um questão religiosa, não gosta muito da mudança. Os cães, porém, reconhecem Orlando imediatamente, sem se preocupar com seu gênero. Seja homem ou mulher, é Orlando em essência que está ali.
A narrativa nos mostra que a questão de gênero está mais ligada a comportamentos esperados pela sociedade, como o uso de determinadas roupas ou certas atitudes que são consideradas femininas ou masculinas, como chorar (é coisa mais aceitável em uma mulher, por exemplo). Ou seja: o gênero não tem uma relação intrínseca com o sexo biológico da pessoa, mas, sim, com uma construção social, algo que a filósofa e escritora Simone de Beauvoir também iria discutir mais tarde em sua obra.
TEMPO
Outro tema discutido na obra que merece destaque é o tempo. Nós acompanhamos a vida de Orlando desde a sua vida na corte nos anos de 1500 até os agitados anos 1920.
Sim. Orlando vive mais de 300 anos. Além dele, o escritor (detestável) Nick Greene também continua vivo pelo mesmo período, além do carvalho, onde a/o protagonista vai sempre para admirar a paisagem ao seu redor. A árvore está presente em seu poema “O Carvalho”, o qual carrega consigo durante toda a vida.
Por meio dos olhos de Orlando nós vemos a transformação do mundo através da passagem do tempo. Em uma das digressões da autora, ela comenta que o tempo está acontecendo em várias camadas ao mesmo tempo e que existem vários “eus”, de várias épocas, convivendo simultaneamente dentro do/a protagonista, sendo apenas comandados pelo “eu” do presente. Muitas vezes, esses “eus” antigos dão as caras na vida de Orlando.
Como uma boa modernista, Virgina Woolf usa bastante metalinguagem no livro. Os mais de 300 anos de Orlando mesmo só são possíveis por estarmos em uma narrativa ficção.
A narradora se intromete várias vezes no texto, para fazer comentários e o livro mais nos conta do que mostra. Poderíamos até “acordar do sonho ficcional” por conta disso, mas o subtítulo “Uma Biografia” acaba nos mantendo presos ao mundo inventado pela escritora. Esse detalhe faz parecer que a história aconteceu de verdade e que está sendo narrada como a biografia de uma pessoa real. A biografia costuma ter intervenções do autor, como acontece no romance. E aqui temos outra característica cara aos modernos: a experimentação.
O estilo biográfico, no entanto, não atrapalha em nada o livro, nem o torna enfadonho. Pelo contrário. A narradora nos descreve de forma exuberante a natureza, com muitas imagens, cores e sensações.
“Orlando – Uma Biografia” é uma leitura saborosa e importante, ainda mais nos tempos de hoje de tanta intolerância, misoginia e homofobia.