Resenha #15: “Fundação” de Isaac Asimov

“Conhecimento é poder”. Seja para objetivos nobres, como evitar que a civilização volte à barbárie, ou para fins questionáveis, tal qual detê-lo para subjugar outros povos. Esse velho ditado permeia o romance “Fundação”, do escritor Isaac Asimov, nascido na Rússia e naturalizado norte-americano. Chamado também pelos fãs de “Bom Doutor” e “Pai dos Robôs”.

Publicada pela editora Aleph, “Fundação” é o primeiro livro de uma trilogia escrita nos anos 1950. Mais tarde, na década de 1980, a série ainda ganharia outros quatro volumes. Os três primeiros livros foram eleitos em 1966 a melhor série de ficção científica e fantasia de todos os tempos, desbancando nada mais, nada menos, que “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien e “Barsoom” de Edgar Rice Burroughs.

A primeira obra foi publicada em partes na lendária revista pulp Astoundig Science Fiction. Para se ter uma ideia de sua importância, a trilogia inspirou outros clássicos da ficção científica, como Duna e Star Wars. Recentemente, a Apple TV+ adaptou o romance em uma série de sucesso que, infelizmente, ainda não assisti.

Psico-História

Hari Seldon por Michael Whelan

A história de “Fundação” se passa a milhares de anos no futuro, numa época em que a galáxia é governada por um Império composto por 25 milhões de planetas habitados. Somente em Trantor, planeta que é capital do Império Galáctico, vivem 40 bilhões de pessoas.

A humanidade se esqueceu até mesmo de onde veio. Os estudiosos supõem que os seres humanos surgiram em algum lugar perto de Sirius, Sol e Alpha Centauri. A expansão do Império Galáctico foi possível em muito por causa da tecnologia de viagens espaciais, chamada Salto, que pode levar uma pessoa de um ponto da galáxia a outro em pouco tempo.

Porém, após mais de 10 mil anos de soberania do Império Galáctico, um homem chamado Hari Seldon começa a apontar sua ruína. Para isso, ele utiliza um método que me deixou fascinado chamado Psico-História. A Psico-História é um ramo da matemática capaz de prever o futuro das civilizações, baseado nas probabilidades de reações de conglomerados humanos a estímulos sociais e econômicos, excluindo-se aí ações individuais.

Segundo Seldon, em 300 anos o Império cairá. A divulgação de suas ideias causa sérios problemas a ele, por serem consideradas perigosas. Seldon então é preso e levado a julgamento. No entanto, apesar da queda inevitável, ele afirma diante do tribunal que tem um plano para reduzir o período de barbárie subsequente de 30 mil anos para “apenas” um milênio. Em seguida, o Império deverá ser reerguido.

A ideia de Seldon é a criar uma Fundação, a qual será responsável pela elaboração de uma Enciclopédia Galáctica, contendo todo conhecimento produzido pela humanidade, a fim de que ele não se perca completamente e se torne um alicerce para a restauração do Império Galáctico.

Temendo que Seldon possa estar certo, as autoridades do Império decidem exilá-lo em um planeta pobre em recursos, nos limites da galáxia, chamado Terminus. Lá, longe de Trantor, ele e seu grupo de cientistas poderão desenvolver a tal da Fundação.

Mas Seldon sabia que isso poderia acontecer. Na verdade, isso fazia parte de seus planos. O fato é que a criação da Enciclopédia Galáctica foi só uma fachada para sua verdadeira estratégia para salvar a humanidade da destruição.

A queda do Império realmente começa quando os planetas da periferia da galáxia, praticamente esquecidos pelo Império, começam a se rebelar, se transformando em reinos independentes, porém, caracterizados pela falta de ciência e civilização.

‘Ain, vai falar de política?’

“Fundação” tem muitas tramas políticas e reviravoltas de bastidores. Muitos desses acontecimentos são revelados em vários diálogos entre os personagens, que deixam a leitura mais leve e fluente.

O tema do imperialismo está presente em suas páginas, principalmente, a ideia de que todo império, por mais poderoso e longevo que seja, um dia vai desmoronar, geralmente, provocando destruição, miséria e mortes. É. A História sempre se repete. Vale lembrar que Asimov se inspirou na obra “Declínio e Queda do Império Romano” de Edward Gibbon para criar a série Fundação.

O autor retrata as várias formas como o imperialismo age para conquistar suas colônias. No caso da Fundação, primeiro a dominação de outros planetas se dá por meio da religião, que detém o conhecimento científico. Para ser introduzida nos demais reinos, a Fundação transformou a ciência em uma seita religiosa. Depois, o controle dos outros povos ocorre através do poder tecnológico e econômico.

Concisão

Isaac Asimov

Embora Asimov seja um escritor de hard sci-fi, a leitura não é difícil. Seu estilo é claro e bastante conciso, sem parágrafos ou capítulos extensos. Em pouco mais de 200 páginas, são narrados mais de 150 anos desde o início da Fundação.

A sensação é de que tudo acontece muito rápido, até porque a leitura leve do romance nos faz querer devorá-lo o mais rápido possível. Por outro lado, não dá muito para se apegar aos personagens. Apesar de terem uma caracterização marcante e desejos bem definidos, que ficam bastante claros nos diálogos, eles vêm e vão depressa, o que me lembrou muito outro clássico da ficção científica “O Fim da Infância” de Arthur C. Clarke.

Aliás, a galeria de personagens é extensa. Além de Seldon, os destaques vão para o primeiro e o maior prefeito de Terminus, Salvor Hardin, e para o primeiro dos Príncipes Mercadores, Hober Mallow.

Como já havia dito, existem muitos diálogos, que achei naturais e nos dão informações sobre passado, presente e explicam conceitos. Há momentos de grande tensão, como o ataque iminente de Anacreon à Fundação e o julgamento de Hober Mallow.

As expectativas são realçadas também por trechos da Enciclopédia Galáctica antes de cada uma das cinco partes, que antecipam um pouco o que vai acontecer, e os cliffhangers no fim dos capítulos.

Gostei ainda da construção de mundo da Fundação: as características dos planetas, suas tecnologias e cultura.

Já estou ansioso para ler o segundo volume: “Fundação e Império”.

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Resenha #6: “Androides sonham com ovelhas elétricas?” de Philip K. Dick

Eu até que tentei, mas a comparação entre o livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick, com sua adaptação cinematográfica “Blade Runner”, de Ridley Scott, é inevitável.

Apesar de algumas semelhanças, acredito que as diferenças entre livro e filme são maiores. A começar pelos títulos. O nome “Blade Runner” foi tirado de uma obra do escritor beat William S. Burroughs que, convenhamos, tem muito mais apelo comercial do que o título original, embora este seja extremamente brilhante.

Outro contraste está no protagonista, Rick Deckard. No livro de PKD, Deckard me parece mais com o estereótipo daqueles policiais americanos acima do peso, prestes a se aposentar e amantes de donuts. Muito diferente do Harrison Ford em seu auge.

Para mim, tanto o filme, quanto o livro, são obras-primas. Mas vou me ater um pouco mais ao livro nesta resenha.

CAÇADOR DE RECOMPENSAS

A Terra foi praticamente devastada após a Guerra Mundial Terminus. Quem sobreviveu e resolveu ficar precisa conviver com uma poeira radiotiva. O governo incentiva as pessoas a irem para as colônias em Marte e até oferece um androide como mão de obra escrava para quem aceitar partir.

No entanto, os modelos de androides estão tão sofisticados que já se tornou difícil saber quem é humano ou não. Os Nexus-6 são tão semelhantes que alguns deles, liderados pelo messiânico Roy Baty, fugiram para a Terra e estão se passando por humanos.

Rick Deckard é um caçador de recompensas e recebe a missão de aposentar, ou seja, de destruir seis Nexus-6, após estes ferirem gravemente outro caçador.

Deckard aceita o trabalho, que vai lhe render dinheiro suficiente para comprar um animal de verdade. A vida na Terra é tão rara após a Guerra Mundial Terminus que ter um animal de verdade é sinal de status. Serve para fazer inveja aos vizinhos.

Assim como muita gente, para manter as aparências, Deckard tem uma ovelha elétrica – um animal artificial, mas muito semelhante a um genuíno.

Porém, após se relacionar com uma androide chamada Rachael Rosen, o que é ilegal, Deckard começa a se questionar sobre seu ganha-pão.

O QUE É REAL?

Um dos temas de “Androides sonham com ovelhas elétricas?” é a pergunta filosófica: o que é real?

Essa dúvida permeia todo o livro: o animal do vizinho é de verdade ou é elétrico? Fulano de tal é um androide ou não? Até as emoções são artificiais. As pessoas no mundo criado por PKD se conectam a sintetizadores de ânimos para terem sentimentos (alguém mais pensou em antidepressivos?).

A empatia é uma forma de confirmar se alguém suspeito é um androide ou não. Existe um teste para isso, chamado Voight-Kampff, que é utilizado por caçadores de recompensa como Deckard.

Mas dá mesmo para dizer que os seres humanos do livro de PKD têm empatia? Para terem empatia, eles precisam se conectar a uma espécie de guru chamado Wilbur Mercer, meio Buda, meio Jesus Cristo, através de uma caixa de empatia.

Além disso, existem algumas pessoas que foram drasticamente afetadas pela poeira e se tornaram especiais, conhecidos também pejorativamente como “cerébros de galinha”.

Em um momento da narrativa, até eu mesmo comecei a desconfiar que todos os personagens que apareciam eram androides. Até o próprio Deckard. E se em uma de suas missões Deckard matou um humano por engano? Afinal, o teste Voight-Kampff é um dos vários testes de empatia e sua eficácia está sendo questionada.

O que nos leva a outra pergunta: qual é essência do ser humano? No universo de “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, os humanos parecem ter perdido o interesse em viver, enquanto os androides buscam ser iguais aos humanos.

ESCRITA

Gostei da forma como PKD me fez imergir no livro com suas palavras. O mundo criado por ele é tão vívido, que tive a sensação de poder tocá-lo. Senti-me no apartamento de Isidore, um “cérebro de galinha” muito importante na narrativa.

Sei que a Terra mostrada na obra é horrível, mas achei a escrita do autor muito agradável, a ponto de querer morar no livro e passar os dias assistindo aos eternos programas do Buster Gente Fina.

Acredito que nos identificamos com os personagens e com o universo criados por PKD, pois ele mistura elementos futuristas com coisas semelhantes com o nosso cotidiano, como acordar para ir trabalhar, e com reflexões que costumamos fazer frequentemente.

Ao contrário do que muitos me disseram, não achei a leitura difícil. Pelo contrário. Achei muito fácil de ler e com muitas informações sobre a realidade em que os personagens vivem.

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