Resenha #10: “Clube da Luta” de Chuck Palahniuk

A rotina mecânica e o consumismo do mundo moderno estão nos levando a um tédio perigoso e a uma perda total de sentido da vida, que pode provocar a destruição da civilização e um retorno à barbárie. Para mim, esta é uma das mensagens que o livro “Clube da Luta”, de Chuck Palahniuk, nos traz.

O romance é escrito em primeira pessoa, mas o narrador não diz o seu nome durante a história. Ele trabalha para uma empresa que avalia a necessidade (ou melhor, a vantagem financeira para a empresa) de se fazer recall de carros com defeito. Por isso, está sempre viajando de avião pelos Estados Unidos, desejando que um deles caia. Sua vida se resume a trabalhar e comprar coisas “legais” para seu apartamento.

O protagonista tem sofrido muito com insônia e procura um psiquiatra, que lhe recomenda frequentar grupos de apoio a pessoas com doenças terminais, caso ele quisesse encontrar um sentido para a vida. Ele faz isso e não é que o negócio dá certo? Em meio a tantas desgraças piores que a sua, o narrador consegue desabafar, chorar e dormir melhor.

Tudo ia muito bem até ele encontrar Marla Singer, que também passou a participar de vários grupos que o narrador ia. Assim como o protagonista, ela não está com uma doença terminal. Marla começa ser um empecilho para o narrador, que não consegue mais se concentrar durante os encontros, pois ela está ali para lembrá-lo de que ele é um farsante.

Os dois combinam de revezar os grupos de apoio para não se encontrarem. Entre uma viagem e outra, o narrador conhece Tyler Durden, um sujeito que é seu oposto, corajoso e descolado.

Certo dia, ao voltar de uma viagem, o narrador descobre que seu apartamento explodiu, provavelmente, por causa de um vazamento de gás. Só lhe sobraram as roupas que estavam na mala e as que ele vestia.

O protagonista, então, se muda para a casa de Tyler. Um dia, Tyler pede para o protagonista acertar uma porrada bem forte nele. A partir daí, os dois criam o Clube da Luta, onde caras como eles, pessoas com vidas e trabalhos triviais, podem lutar para extravasar todos seus instintos primitivos, reprimidos pelas facilidades do mundo contemporâneo.

Conforme o tempo passa, mais as ideias destrutivas de Tyler Durden vão tomando conta da mente do narrador.

INÍCIO ARREBATADOR

O início de “Clube da Luta” é um dos mais arrebatadores que já li. É uma antecipação do clímax da história. Tyler Durden coloca uma arma dentro da boca do narrador, em cima do prédio mais alto do mundo, que está prestes a desabar em um atentado terrorista.

Confesso que após esse início empolgante a narrativa chegou a me entediar um pouco por causa de seu tom extremamente pessimista, com personagens derrotistas, que pareciam fadados ao eterno fracasso. Porém, voltei a me empolgar depois que Tyler decide dar um passo adiante no Clube da Luta e cria o Projeto Desordem e Destruição.

Eu me lembro que quando assisti ao filme, lá pelos meus 20 e poucos anos, dizia: “é isso aí, Tyler! É preciso destruir tudo para reconstruir algo novo em cima de seus escombros”. (Gostava tanto do filme que eu tinha até uma camiseta do Tyler que brilhava no escuro).

Hoje, já com os meus quase 40 anos, lendo o livro, não tenho mais certeza de que penso assim. Ainda mais depois de ver a invasão do Capitólio e que, entre os manifestantes, estava um sujeito vestido como um bárbaro viking.

É até engraçado ver como o homem moderno sempre que se sente frustrado tem esse desejo de retornar ao estado de natureza (o mesmo que ele próprio destruiu), como diz o livro “TAZ Zona Autônoma Temporária”, de Hakim Bey, cuja leitura, aliás, eu recomendo muito.

Na verdade, eu acho que não precisamos jogar a água suja do banho com o bebê junto. O próprio narrador percebe que a coisa toda está fugindo do controle e que o Projeto Desordem e Destruição é uma receita para o desastre total. Mas pode ser que seja tarde demais para deter Tyler.

Por causa desse despertar do narrador, acredito que o Clube da Luta pode ser um alerta sobre o rumo que a nossa sociedade cada vez mais consumista está tomando, como escrevi no início desta resenha.

É claro que uma obra de arte pode ter “n” interpretações. Porém, não concordo, como muitos têm comentado ultimamente, que o autor tenha feito apologias ao fascismo, à homofobia e à misoginia. Ou que Palahniuk tenha escrito um livro doutrinário, para incentivar a criação de um Projeto Desordem e Destruição no mundo real. Os personagens de um romance não pensam necessariamente como o escritor, pelo amor de Deus!

ESTILO

O mergulho na mente do narrador é uma das seduções da escrita de Palahniuk. Existem muitas repetições de ideias no texto, o que costuma me incomodar um pouco. Mas neste caso  isso não ocorre por inexperiência ou pela insegurança de que o leitor não está entendendo do que se trata a história. Acredito que seja intencional, para nós sentirmos a mente doentia do protagonista.

Outra coisa que nos prende no estilo de Palahniuk é que o livro tem um pouco de skaz, uma técnica que emula o jeito como o personagem falaria, como se estivesse conversando informalmente com o leitor e este fosse um velho conhecido.

As frases e parágrafos curtos — às vezes com uma palavra só — aumentam a sensação de violência do texto, como se fossem socos. É uma narrativa crua, muitas vezes suja, carregada de niilismo e existencialismo, de uma maneira incômoda que eu só tinha sentido ao ler “Trainspotting” de Irvine Welsh.

“Clube da Luta” tem uma grande reviravolta no enredo, um pouco depois da metade do livro. Se você for um leitor atento, vai conseguir identificar as várias pistas que o autor vai deixando ao longo da história até o plot twist.

Enfim, “Clube da Luta” é um ótimo livro.

Já leu “Clube da Luta”? O que achou desta resenha? Deixe seu comentário e curta este post!

5 graphic novels emocionantes que você não pode deixar de ler

Quem nunca se emocionou assistindo a um filme, ouvindo uma música, apreciando um quadro ou qualquer outra forma de arte?

Mas é possível também chorar, rir, suspirar, ficar revoltado, lendo uma história em quadrinhos?

A resposta é: claro que sim! 

Trago nesta postagem uma lista de cinco graphic novels que me emocionaram muito e que você precisa ler um dia. 

Futuramente, pretendo fazer uma resenha sobre cada uma delas.

1 – “Retalhos” de Craig Thompson

Posso dizer com toda a segurança que existe um Ronaldo leitor de quadrinhos antes e depois de Retalhos. Gostei dessa HQ logo de cara, quando li uma matéria sobre ela em um jornal. É a história autobiográfica do autor sobre o seu primeiro amor, descobertas e frustrações da adolescência. Eu a classificaria como uma graphic novel de formação. Fiquei impressionado como a história de Craig Thompson, passada no frio do estado americano de Wisconsin, poderia se conectar tanto com a minha, na calorenta Birigui, no interior de São Paulo. 

2 – “Maus” de Art Spiegelman

Retratar o horror do holocausto em uma obra de arte é uma coisa complicada. Acredito que nunca conseguirão chegar perto do quão terrível foi esse momento da história. A tarefa pode ser mais difícil ainda em uma HQ com animais antropomorfizados. Porém, Art Spiegelman consegue superar esse desafio ao criar uma das mais emocionantes graphic novels de todos os tempos. Ela conta a história do pai do autor, um sobrevivente dos campos de concentração nazistas. É também uma narrativa sobre a relação quase sempre conturbada entre pais e filhos.  

3 – “Cicatrizes” de David Small

Em uma obra visceral, com alguns toques de fantasia, David Small narra a cirurgia pela qual passou quando criança, por conta de um câncer, que lhe deixou uma profunda cicatriz no pescoço e quase o fez perder a voz. Além disso, o autor fala do difícil relacionamento com sua mãe autoritária e a decisão de sair de casa aos 16 anos para viver de sua arte. Adoro as sequências silenciosas de quadros desta obra. 

4 – “Umbigo Sem Fundo” de Dash Shaw

A separação de qualquer casal já costuma ser algo triste. Mas uma separação  após 40 anos de casado, como é o caso dos personagens Maggie e David Loony, me pareceu mais melancólica ainda. Confesso que chorei um pouco com os últimos quadrinhos… Enfim, voltando ao enredo, o divórcio dos dois reúne novamente pais, filhos e netos. Nesse reencontro, muitas coisas sobre a família vem à tona. Muitas descobertas acontecem. Meu personagem favorito é o caçula Peter. Um solitário, incompreendido e aspirante a cineasta, que é retratado como um sapo. 

5 – “Fun Home” de Alison Bechdel

Nesta graphic novel, a autora nos conta a história da relação dela com seu pai, que supostamente se matou algum tempo depois de ela revelar para a família que era lésbica. O pai de Bechdel é envolto em mistérios. Ninguém sabe, na verdade, se foi suicídio ou um acidente que o matou. Provavelmente, ele também era homossexual, mas nunca assumiu isso. Ela também conta sobre sua infância, os primeiros contatos com livros e a arte e as lembranças que tem da funerária da família.

Quais foram as HQs mais emocionantes que vocês já leram? Escreva aqui nos comentários!