Resenha #15: “Fundação” de Isaac Asimov

“Conhecimento é poder”. Seja para objetivos nobres, como evitar que a civilização volte à barbárie, ou para fins questionáveis, tal qual detê-lo para subjugar outros povos. Esse velho ditado permeia o romance “Fundação”, do escritor Isaac Asimov, nascido na Rússia e naturalizado norte-americano. Chamado também pelos fãs de “Bom Doutor” e “Pai dos Robôs”.

Publicada pela editora Aleph, “Fundação” é o primeiro livro de uma trilogia escrita nos anos 1950. Mais tarde, na década de 1980, a série ainda ganharia outros quatro volumes. Os três primeiros livros foram eleitos em 1966 a melhor série de ficção científica e fantasia de todos os tempos, desbancando nada mais, nada menos, que “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien e “Barsoom” de Edgar Rice Burroughs.

A primeira obra foi publicada em partes na lendária revista pulp Astoundig Science Fiction. Para se ter uma ideia de sua importância, a trilogia inspirou outros clássicos da ficção científica, como Duna e Star Wars. Recentemente, a Apple TV+ adaptou o romance em uma série de sucesso que, infelizmente, ainda não assisti.

Psico-História

Hari Seldon por Michael Whelan

A história de “Fundação” se passa a milhares de anos no futuro, numa época em que a galáxia é governada por um Império composto por 25 milhões de planetas habitados. Somente em Trantor, planeta que é capital do Império Galáctico, vivem 40 bilhões de pessoas.

A humanidade se esqueceu até mesmo de onde veio. Os estudiosos supõem que os seres humanos surgiram em algum lugar perto de Sirius, Sol e Alpha Centauri. A expansão do Império Galáctico foi possível em muito por causa da tecnologia de viagens espaciais, chamada Salto, que pode levar uma pessoa de um ponto da galáxia a outro em pouco tempo.

Porém, após mais de 10 mil anos de soberania do Império Galáctico, um homem chamado Hari Seldon começa a apontar sua ruína. Para isso, ele utiliza um método que me deixou fascinado chamado Psico-História. A Psico-História é um ramo da matemática capaz de prever o futuro das civilizações, baseado nas probabilidades de reações de conglomerados humanos a estímulos sociais e econômicos, excluindo-se aí ações individuais.

Segundo Seldon, em 300 anos o Império cairá. A divulgação de suas ideias causa sérios problemas a ele, por serem consideradas perigosas. Seldon então é preso e levado a julgamento. No entanto, apesar da queda inevitável, ele afirma diante do tribunal que tem um plano para reduzir o período de barbárie subsequente de 30 mil anos para “apenas” um milênio. Em seguida, o Império deverá ser reerguido.

A ideia de Seldon é a criar uma Fundação, a qual será responsável pela elaboração de uma Enciclopédia Galáctica, contendo todo conhecimento produzido pela humanidade, a fim de que ele não se perca completamente e se torne um alicerce para a restauração do Império Galáctico.

Temendo que Seldon possa estar certo, as autoridades do Império decidem exilá-lo em um planeta pobre em recursos, nos limites da galáxia, chamado Terminus. Lá, longe de Trantor, ele e seu grupo de cientistas poderão desenvolver a tal da Fundação.

Mas Seldon sabia que isso poderia acontecer. Na verdade, isso fazia parte de seus planos. O fato é que a criação da Enciclopédia Galáctica foi só uma fachada para sua verdadeira estratégia para salvar a humanidade da destruição.

A queda do Império realmente começa quando os planetas da periferia da galáxia, praticamente esquecidos pelo Império, começam a se rebelar, se transformando em reinos independentes, porém, caracterizados pela falta de ciência e civilização.

‘Ain, vai falar de política?’

“Fundação” tem muitas tramas políticas e reviravoltas de bastidores. Muitos desses acontecimentos são revelados em vários diálogos entre os personagens, que deixam a leitura mais leve e fluente.

O tema do imperialismo está presente em suas páginas, principalmente, a ideia de que todo império, por mais poderoso e longevo que seja, um dia vai desmoronar, geralmente, provocando destruição, miséria e mortes. É. A História sempre se repete. Vale lembrar que Asimov se inspirou na obra “Declínio e Queda do Império Romano” de Edward Gibbon para criar a série Fundação.

O autor retrata as várias formas como o imperialismo age para conquistar suas colônias. No caso da Fundação, primeiro a dominação de outros planetas se dá por meio da religião, que detém o conhecimento científico. Para ser introduzida nos demais reinos, a Fundação transformou a ciência em uma seita religiosa. Depois, o controle dos outros povos ocorre através do poder tecnológico e econômico.

Concisão

Isaac Asimov

Embora Asimov seja um escritor de hard sci-fi, a leitura não é difícil. Seu estilo é claro e bastante conciso, sem parágrafos ou capítulos extensos. Em pouco mais de 200 páginas, são narrados mais de 150 anos desde o início da Fundação.

A sensação é de que tudo acontece muito rápido, até porque a leitura leve do romance nos faz querer devorá-lo o mais rápido possível. Por outro lado, não dá muito para se apegar aos personagens. Apesar de terem uma caracterização marcante e desejos bem definidos, que ficam bastante claros nos diálogos, eles vêm e vão depressa, o que me lembrou muito outro clássico da ficção científica “O Fim da Infância” de Arthur C. Clarke.

Aliás, a galeria de personagens é extensa. Além de Seldon, os destaques vão para o primeiro e o maior prefeito de Terminus, Salvor Hardin, e para o primeiro dos Príncipes Mercadores, Hober Mallow.

Como já havia dito, existem muitos diálogos, que achei naturais e nos dão informações sobre passado, presente e explicam conceitos. Há momentos de grande tensão, como o ataque iminente de Anacreon à Fundação e o julgamento de Hober Mallow.

As expectativas são realçadas também por trechos da Enciclopédia Galáctica antes de cada uma das cinco partes, que antecipam um pouco o que vai acontecer, e os cliffhangers no fim dos capítulos.

Gostei ainda da construção de mundo da Fundação: as características dos planetas, suas tecnologias e cultura.

Já estou ansioso para ler o segundo volume: “Fundação e Império”.

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Já leu Fundação? O que você achou? Ainda não leu? Ficou interessado? Deixe seu comentário aqui embaixo e curta se você gostou da resenha.

Resenha #14: “Iluminações” de Alan Moore

Sou suspeito para falar sobre Alan Moore, pois eu o considero o maior roteirista de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Leio tudo o que encontro dele desde a primeira vez que li Watchmen, após muito tempo tentando evitá-lo por preconceitos religiosos, pelo fato de ele se autoproclamar mago.

Se arrependimento matasse… Enfim.

Porém, a antologia de contos Iluminações, publicada pela editora Aleph, é o meu primeiro contato com sua ficção em prosa. E o homem não me decepcionou. Sei que ele ainda tem outras duas obras nesse gênero “A Voz do Fogo” e “Jerusalém”, que desejo muito ler no futuro.

Nesta coletânea, o autor experimenta diversas formas de narrar, buscando todas as possibilidades que a ficção em prosa e o formato do conto podem oferecer, da mesma forma que ele já havia explorado as potencialidades que a linguagem das HQs possui. Por isso, cada conto é extremamente original.

As histórias abordam temas muito caros a Moore, como a questão do tempo e espaço, o sobrenatural, a literatura beat, histórias em quadrinhos, nostalgia e críticas sociais. Fiquei me perguntando como alguém tão recluso como ele, que nem mesmo assiste TV, pode saber tanto sobre a nossa sociedade contemporânea.

Os gêneros dos contos também são diversos. Temos horror cósmico, fantasia e bastante humor em suas páginas. Moore usa estilos de escrita diferentes. Ele vai de um texto mais complexo, cujo significado é mais difícil de penetrar, até uma escrita mais leve e informal.

Até mesmo nos agradecimentos, que tenho certeza que muita gente não lê, Moore consegue prender nossa atenção. Por meio deles, ele nos conta um pouco como surgiram os contos do livro. No final, ainda há uma entrevista muito boa que o escritor concedeu ao jornalista Ramon Vitral, em que ele fala sobre assuntos pertinentes aos tempos que vivemos.

A seguir, analiso um por um os contos de “Iluminações”:

Lagarto Hipotético

Som-Som é uma meretriz em um prostíbulo chamado Casa Sem Relógios. Ela foi deixada lá pela mãe quando ainda era criança. Seus clientes são feiticeiros e, para não contar seus segredos, Som-Som passou por um procedimento em que a liga que une os lados direito e esquerdo do cérebro foi cortada. Além disso, ela recebeu uma máscara de porcelana que deixou apenas a parte esquerda do seu rosto à mostra – uma imagem que me causou bastante estranheza a princípio. Dessa forma, as únicas coisas que Som-Som consegue expressar em palavras são memórias de antes do procedimento, por mais que tente falar outra coisa.

Ela é testemunha de um romance trágico entre dois moradores da Casa Sem Relógios: um ator muito talentoso chamado Foral Yatt e uma mulher trans, Rawara Chan, que deixa o lugar para seguir uma carreira bem-sucedida de atriz. Quando Rawara aparece novamente na Casa Sem Relógios para uma visita, Foral, que ficou muito magoado com sua partida, vai aos poucos roubando a identidade dela, de forma bastante abusiva.

Em seu retorno à Casa Sem Relógios, Rawara dá a Foral um presente que, para mim, é uma das melhores imagens do conto: o lagarto hipotético. Como ela explica, se trata de um brinquedo para o intelecto, que consiste em uma esfera que pode ter ou não um lagarto hibernando eternamente dentro dela. Pareceu-me ser uma metáfora para a condição de Som-Som, uma vez que, por ela não conseguir usar a linguagem, é impossível saber o que se passa em seu íntimo. Ou ainda uma metáfora para as intenções de Foral.

Neste conto, Alan Moore usa um estilo um pouco mais rebuscado do que os demais, mas nada que atrapalhe o entendimento da história. Há uma reviravolta no final, mas que, pelo menos para mim, já era previsível.

Nem Mesmo Lenda

Sem dúvida, o melhor conto da coletânea. O enredo é bem simples. O Cisan (Comitê para a Investigação Surrealista das Alegações dos Normais) está reunido para discutir os novos rumos da organização. Em vez de procurar vampiros e fantasmas, seu líder sugere buscar criaturas que nunca foram vistas, as quais ninguém sabe como são. Isso acaba chamando a atenção de uma comunidade de entidades invisíveis que decide intervir.

Porém, a estrutura que o autor usa para narrar a história a torna um grande exemplo de originalidade. O conto se desenrola em dois tempos intercalados, sendo um deles destacado em itálico, técnica muito semelhante a que Ernest Hemingway utiliza no conto “As Neves do Kilimanjaro”. Dessa forma, Alan Moore prepara o terreno para um plot twist de explodir a cabeça.

Local, Local, Local

Uma advogada chamada Angie é a última pessoa na Terra. Enquanto as previsões do Apocalipse se confirmam surrealmente acima de sua cabeça, ela está indo entregar uma propriedade – nada mais, nada menos do que o nosso mundo – ao seu novo dono, um sujeito muito gente boa chamado (sim, é ele mesmo).

Jê é um cara descolado. Veste uma camiseta onde está escrito “Posso estar velho, mas pelo menos vi todas as bandas que prestam…” (quero uma dessas!), usa mullets, gosta de séries e fuma cigarro eletrônico. De vez em quando fala uns palavrões também.

Os dois passeiam por onde um dia já foi o Jardim do Éden (que curiosamente fica na cidade inglesa de Bedford) no momento em que os anjos do Céu e as hordas de Lucífer se enfrentam. Mas, como Jê comenta, tudo é muito burocrático, apenas para cumprir um contrato. Como se fosse uma luta livre da WWE, sabemos quem é do bem e quem é do mal, e como a batalha vai terminar. Por isso, Jê não está nem aí para o que está acontecendo.

Durante a conversa, ele faz uma proposta para Angie que, talvez, possa chocar alguns leitores mais puritanos.

Narrada de uma forma leve e despojada, esta história me fez rir muito.

Leitura a Frio

Esta é uma história de terror e suspense, mas que também tem algumas pitadas de humor.

Rick Sullivan é um médium charlatão. No entanto, ele não se vê assim. Para Rick, seu trabalho é justificado pelo conforto que ele proporciona às pessoas que perderam seus entes queridos. Ele acredita que essa é a sua missão divina na Terra.

Tudo vai mudar quando um homem chamado David, cujo irmão gêmeo morreu, entra em contato com Rick. Apesar de não ter muita certeza de que seu irmão Dennis aprovaria o que estava fazendo, David marca um primeiro encontro com Rick.

Antes de conversar com o cliente em potencial, Rick vasculha as redes sociais de Dennis, a fim de conseguir material sobre como era a vida pessoal dele, para fingir que está recebendo mensagens do além.

Rick descobre que Dennis era uma pessoa extremamente cética. E, apesar de ter consciência de que nunca recebeu uma única mensagem do mundo espiritual, essa falta de fé o deixa bastante irritado.

Em um estilo de relato bem lovecraftiano, o conto é narrado em primeira pessoa, como se o protagonista estivesse conversando com o leitor informalmente. Há uma reviravolta surpreendente no final. Preste atenção nos detalhes!

O Estado Altamente Energético de Uma Complexidade Improvável

Durante um femtossegundo antes do Big Bang (que pode ter durado milhões de anos), surge uma espécie de cérebro consciente de sua existência. Com o tempo, ele foi criando extensões que lhe permitiram ter sensações e sentimentos, os quais foi catalogando como uma tabela periódica. Essa consciência se autonomeou Pamperrégio.

Em sua jornada de descobertas, Pamperrégio encontra outro cérebro. Ele desenvolve extensões nele e se apresenta como o criador do universo, onisciente e onipotente. Esse outro cérebro também tem consciência e Pamperrégio o chama de Glynne.

Glynne acredita em tudo o que Pamperrégio diz, inclusive na sua teoria “Ter-mais-dinâmica”, a qual consiste na crença de que o universo está sempre progredindo para o melhor.

Pamperrégio começa a desenvolver desejo por Glynne e os dois passam a ter um relacionamento amoroso. Mais para frente, eles encontram outros cérebros conscientes. Surgem os primeiros casos de preconceito e até mesmo uma universidade, onde Glynne vai ensinar a essas outras consciências as crenças de Pamperrégio.

Mas, vai chegar um momento em que Glynne não vai mais suportar o autoritarismo de Pamperrégio.

Esse foi o conto mais desafiador para mim. Não que eu não tenha gostado. Achei-o bom. Mas tive muita dificuldade na leitura por causa das abstrações e imagens surreais da origem do universo. Alan Moore também usa bastante adjetivos pomposos e advérbios, que deixaram a história mais complicada de imaginar.

Iluminações

Neste ótimo conto, Alan Moore critica a mania cada vez maior da nostalgia. De acordo com esta história, ao contrário do que ficamos devaneando, se o passado fosse revivido, as coisas não seriam melhores. Na verdade, o mundo se tornaria um pesadelo.

O protagonista é um homem de meia-idade que acabou de se separar da mulher. Seus filhos já são crescidos e seus pais estão mortos.

Após encontrar um velho álbum de família, ele decide ir até um lugar turístico onde se recorda ter passado momentos muito bons com seus pais na infância.

Porém, ao chegar lá, ele percebe que tudo está mudado. Até mesmo as coisas que se tornaram melhores o incomodam. Ainda assim, o personagem insiste em seu passeio, pois há resquícios do local da sua infância em meio a nova paisagem, que fazem parecer que ele ainda existe em algum lugar.

A princípio, pensei que este conto fosse o primeiro “realista” da coletânea. No entanto, conforme acompanhamos as andanças do protagonista, vamos sentindo um clima estranho, semelhante ao das ruínas da cidade do conto “A sombra de Innsmouth”, de H.P. Lovecraft. Aliás, a cidade onde se passa esta história tem o sugestivo nome de Welmouth.

Os parágrafos com lembranças do protagonista são intercalados pelas ações do presente. As duas linhas do tempo vão ficando cada vez mais confusas e a coisa só piora quando o personagem vai ao parque de diversões Pleasureland.

O que se pode saber a respeito do Homem-Trovão

Com quase 300 páginas, este conto está mais para uma novela. Nele encontramos outro alvo das críticas recorrentes de Alan Moore: a indústria de histórias em quadrinhos de super-heróis dos Estados Unidos.

Enquanto em Watchmen os super-heróis são usados pelo autor para construir uma sátira ao gênero, aqui Moore faz críticas violentas às pessoas que produzem as revistas.

Quem conhece pelo menos um pouco da história dos comics vai encontrar diversos paralelos com a realidade. De uma forma não linear, o conto cobre desde o surgimento dos super-heróis, com contrabandistas de bebidas durante a Lei Seca se tornando os grandes donos das editoras, até a febre dos filmes e séries dos dias atuais, passando por fatos históricos como a caça às bruxas do Macarthismo e a invasão do Capitólio.

Existem algumas referências a pessoas, editoras e personagens reais: Sam Blatz é o Stan Lee, Joe Gold é Jack Kirby, a American é a DC, a Massive é a Marvel, o Homem-Trovão é o Superman e o Rei Abelha é o Batman. É impossível não ficar tentando adivinhar quem é quem enquanto vamos lendo. Fiz até algumas pesquisas na internet para descobrir as referências.

Existem dois personagens que meio que protagonizam o conto. Worsley Porlock é o editor-chefe da American e Dan Wheems é um dos roteiristas da editora.

Porlock assume o cargo após a estranha morte de Brandon Chuff durante um jantar em um restaurante. Embora esteja chocado com a passagem do colega, ele não consegue esconder a empolgação de se tornar editor-chefe.

Enquanto Porlock cada vez mais se afunda nos vícios da indústria dos quadrinhos, Dan Wheems procura seguir um caminho diferente depois da morte de Chuff. Ele percebe que as HQs de supers não o prepararam para a perda de alguém, bem como para outras coisas da vida real. Então, assim como Alan Moore, Wheems decide tentar se esquecer dos comics e se aproximar da literatura.

Moore usa bastante experimentalismo neste conto. Algumas passagens são narradas em diferentes formatos, como roteiro de HQ, interrogatório, fórum de internet, sessão de psicanálise, crítica de cinema e entrevista “pingue-pongue”.

As críticas à indústria norte-americana de quadrinhos de super-heróis são inúmeras: exploração de artistas e roteiristas; roubo de propriedade intelectual; falta de criatividade; fãs sem talento transformados em profissionais do mercado; leitores mais preocupados com os personagens do que com a estrutura narrativa das histórias; infantilização de adultos; colecionismo; contribuição na ascensão de líderes políticos autoritários; e por aí vai.

Em alguns momentos, acho que Moore exagera, especialmente ao mostrar os fãs e profissionais como pessoas extremamente decadentes. Mas entendo que essa é a forma que ele encontrou para deixar suas críticas mais ácidas. Esse exagero torna alguns trechos estranhamente engraçados. A gente acaba rindo de situações que, se pararmos para pensar, não deveríamos achar graça nenhuma. Ainda mais que uma ou duas delas aconteceram mais ou menos daquela forma na vida real.

Por outro lado, acho que o autor também mostra algumas coisas boas que os quadrinhos podem proporcionar, como grandes amigos que podemos fazer por causa dos gibis, sejam à distância ou pessoalmente em uma convenção.

Foi impossível não me emocionar ao ver a forma como Porlock, em sua infância, lia os quadrinhos para se esquecer por um momento a separação de seus pais. Ou como sua primeira convenção o tirou da solidão, ao encontrar outros garotos desajustados socialmente, que compartilhavam da mesma paixão. E esse evento ainda lhe deu o sonho de trabalhar com algo que ele realmente amava.

Luz Americana: Uma avaliação

Por meio de um texto acadêmico, principalmente através de notas de rodapé, conhecemos a história de um escritor beat fictício chamado Harmon Belner. O estudo também é, obviamente, de uma autora inventada: C. F. Bird.

O texto de Belner analisado é sua obra-prima, o poema Luz Americana. Conforme vamos lendo seus versos, após uma introdução explicativa, sabemos das influências do autor, seu comportamento e relacionamentos conturbados. O principal deles é com outro escritor, Connor Davey, um grande admirador de seu trabalho.

Temos ainda um vislumbre da cena beat, principalmente, na cidade de San Francisco. Moore usa referências a autores clássicos do gênero, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, bem como as pessoas que os rodeavam – uns “santos marginais” – e acabavam virando inspirações para seus textos. E ainda os locais frequentados pelos beatniks na cidade.

Moore utilizou uma forma bastante diferente para escrever esse conto. Assim como a maioria das histórias do livro, há um plot twist no fim, e o escritor se vale da estrutura narrativa que está usando para armá-lo. 

E, Enfim, Só Para Dar Cabo do Silêncio

Dois condenados estão caminhando lado a lado. Um deles vai tagarelando sozinho até que o outro, chamado John Halper, acaba desistindo de ficar calado e começa a falar também. O principal assunto é descobrir quem o primeiro personagem é.

Este conto é totalmente narrado por meio de diálogos. Através deles, o leitor vai recebendo aos poucos as informações da história, como detalhes a respeito do caminho que os dois estão percorrendo (que, aliás, é bastante bizarro); o motivo pelo qual eles foram condenados; e a época em que se passa o conto (durante o reinado de Ricardo Coração de Leão, na Inglaterra).

Pode ter sido tudo culpa minha, mas demorei para entender a revelação deste conto. Precisei ler mais de uma vez. 

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Você já leu “Iluminações”? O que achou? Se não, ficou interessado em ler? Escreva aí nos comentários e curta esse post se você gostou desta resenha.

Resenha #6: “Androides sonham com ovelhas elétricas?” de Philip K. Dick

Eu até que tentei, mas a comparação entre o livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick, com sua adaptação cinematográfica “Blade Runner”, de Ridley Scott, é inevitável.

Apesar de algumas semelhanças, acredito que as diferenças entre livro e filme são maiores. A começar pelos títulos. O nome “Blade Runner” foi tirado de uma obra do escritor beat William S. Burroughs que, convenhamos, tem muito mais apelo comercial do que o título original, embora este seja extremamente brilhante.

Outro contraste está no protagonista, Rick Deckard. No livro de PKD, Deckard me parece mais com o estereótipo daqueles policiais americanos acima do peso, prestes a se aposentar e amantes de donuts. Muito diferente do Harrison Ford em seu auge.

Para mim, tanto o filme, quanto o livro, são obras-primas. Mas vou me ater um pouco mais ao livro nesta resenha.

CAÇADOR DE RECOMPENSAS

A Terra foi praticamente devastada após a Guerra Mundial Terminus. Quem sobreviveu e resolveu ficar precisa conviver com uma poeira radiotiva. O governo incentiva as pessoas a irem para as colônias em Marte e até oferece um androide como mão de obra escrava para quem aceitar partir.

No entanto, os modelos de androides estão tão sofisticados que já se tornou difícil saber quem é humano ou não. Os Nexus-6 são tão semelhantes que alguns deles, liderados pelo messiânico Roy Baty, fugiram para a Terra e estão se passando por humanos.

Rick Deckard é um caçador de recompensas e recebe a missão de aposentar, ou seja, de destruir seis Nexus-6, após estes ferirem gravemente outro caçador.

Deckard aceita o trabalho, que vai lhe render dinheiro suficiente para comprar um animal de verdade. A vida na Terra é tão rara após a Guerra Mundial Terminus que ter um animal de verdade é sinal de status. Serve para fazer inveja aos vizinhos.

Assim como muita gente, para manter as aparências, Deckard tem uma ovelha elétrica – um animal artificial, mas muito semelhante a um genuíno.

Porém, após se relacionar com uma androide chamada Rachael Rosen, o que é ilegal, Deckard começa a se questionar sobre seu ganha-pão.

O QUE É REAL?

Um dos temas de “Androides sonham com ovelhas elétricas?” é a pergunta filosófica: o que é real?

Essa dúvida permeia todo o livro: o animal do vizinho é de verdade ou é elétrico? Fulano de tal é um androide ou não? Até as emoções são artificiais. As pessoas no mundo criado por PKD se conectam a sintetizadores de ânimos para terem sentimentos (alguém mais pensou em antidepressivos?).

A empatia é uma forma de confirmar se alguém suspeito é um androide ou não. Existe um teste para isso, chamado Voight-Kampff, que é utilizado por caçadores de recompensa como Deckard.

Mas dá mesmo para dizer que os seres humanos do livro de PKD têm empatia? Para terem empatia, eles precisam se conectar a uma espécie de guru chamado Wilbur Mercer, meio Buda, meio Jesus Cristo, através de uma caixa de empatia.

Além disso, existem algumas pessoas que foram drasticamente afetadas pela poeira e se tornaram especiais, conhecidos também pejorativamente como “cerébros de galinha”.

Em um momento da narrativa, até eu mesmo comecei a desconfiar que todos os personagens que apareciam eram androides. Até o próprio Deckard. E se em uma de suas missões Deckard matou um humano por engano? Afinal, o teste Voight-Kampff é um dos vários testes de empatia e sua eficácia está sendo questionada.

O que nos leva a outra pergunta: qual é essência do ser humano? No universo de “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, os humanos parecem ter perdido o interesse em viver, enquanto os androides buscam ser iguais aos humanos.

ESCRITA

Gostei da forma como PKD me fez imergir no livro com suas palavras. O mundo criado por ele é tão vívido, que tive a sensação de poder tocá-lo. Senti-me no apartamento de Isidore, um “cérebro de galinha” muito importante na narrativa.

Sei que a Terra mostrada na obra é horrível, mas achei a escrita do autor muito agradável, a ponto de querer morar no livro e passar os dias assistindo aos eternos programas do Buster Gente Fina.

Acredito que nos identificamos com os personagens e com o universo criados por PKD, pois ele mistura elementos futuristas com coisas semelhantes com o nosso cotidiano, como acordar para ir trabalhar, e com reflexões que costumamos fazer frequentemente.

Ao contrário do que muitos me disseram, não achei a leitura difícil. Pelo contrário. Achei muito fácil de ler e com muitas informações sobre a realidade em que os personagens vivem.

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