Chat(o)bots

Tenho um amigo que acredita que a maior parte das conversas que ocorrem no Whatsapp são entre robôs, desses que enviam respostas automáticas.

Outro dia, eu testemunhei uma delas. De um lado, o número de uma lanchonete que faz entregas. E do outro o contato de um serviço de atendimento ao consumidor de uma empresa de cartões de crédito.

— Boa noite! Hoje o x-salada está na promoção aqui no Kikão Lanches. Três por R$ 10,00. Bora fazer seu pedido?

— Oi, boa noite! Meu nome é Dri, sou assistente virtual da Agiotacred e vou realizar o seu atendimento. Digite de forma breve como eu posso ajudá-lo?

— Desculpe, acho que não entendi seu pedido. Gostaria de ver o nosso cardápio? Digite 1 para sim ou 2 para não.

— Desculpe, mas não consegui entender o que você precisa. Vamos tentar outra vez? Escreva de maneira sucinta o que você deseja. Por exemplo: fatura do cartão.

— Opção inválida. Se você quiser receber nosso cardápio digite 1. Caso contrário, digite 2 para sair.

— Desculpe, mas ainda não consegui entender o que você precisa. Gostaria de ser encaminhado para um de nossos atendentes? Digite sim ou não.

— Por falta de comunicação, vamos encerrar o  atendimento. De 0 a 5, como você avalia nosso serviço?

— Opção inválida. Por falta de comunicação, vamos encerrar o atendimento. Se quiser retomá-lo, basta nos enviar uma mensagem.

— Opção inválida. Agradecemos a atenção! Se precisar novamente da gente, mande qualquer mensagem para este número.

— Oi, boa noite! Meu nome é Dri, sou assistente virtual da Agiotacred e vou realizar o seu atendimento. Digite de forma breve como eu posso ajudá-lo?

— Boa noite! Hoje o x-salada está na promoção aqui no Kikão Lanches. Três por R$ 10,00. Bora fazer seu pedido?

Reza a lenda que esses dois estão conversando até hoje.


Você conhece a minha newsletter? Na última edição eu fiz um experimento com o ChatGPT que tem muito a ver com esta crônica. Fiz uma série de pegadinhas da 5ª série para verificar se ele era uma inteligência mesmo. O resultado você pode conferir neste link: https://marcenarialiteraria.substack.com/p/fazendo-piadas-da-5-serie-para-o

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Anjo da Guarda

Se eu contar talvez você não acredite ou pense que fiquei louco. Mas vou contar assim mesmo: eu converso com o meu anjo da guarda. 

“Como assim? Você não é um cético?” — alguém pode perguntar. Sim, acho que ainda sou. 

Vou tentar explicar antes que você diga que sou doido. Para começar eu não o vejo. Bom, até aí tudo bem, porque ninguém vê o seu anjo da guarda. 

Em segundo lugar, a gente não conversa por meio de palavras. Meu anjo da guarda, que batizei de André, aparece disfarçado de bom senso.

É um incômodo dentro de mim, indicando o que eu devo ou não fazer, e que só para quando eu o obedeço. 

E o bendito está sempre certo! Quando eu não dou ouvidos para ele, geralmente, me dou mal. Algumas vezes não acontece nada de ruim, mas, no fundo, sei que ele mexeu os pauzinhos no mundo metafísico para livrar a minha cara daquela vez. 

Hoje mesmo, ou melhor, no dia em que estou escrevendo esta crônica, fui abastecer minha moto. O caminho todo o meu anjo da guarda ficou buzinando na minha mente: não se esquece de encher os pneus. 

Eles estavam murchos há vários dias, o que prejudicava a estabilidade da moto. Porém, estava com muita pressa, queria voltar para casa logo. Mas o André continuou falando.

“Depois, quando o pneu estourar, você não vai culpar Deus, o universo, o destino”, senti ele dizer. 

— Tá bom, tá bom! — eu disse.

— O quê? — perguntou o frentista que me atendia. 

— Ah, desculpe, não foi nada não. Não ligue para mim, sou um cara esquisito. 

 Levei a moto até o calibrador e comecei a encher os pneus.

— Pronto! Está feliz agora? — perguntei ao anjo.

Porém, o incômodo tinha passado. O Anjo da Guarda estava satisfeito pelo dever cumprido. 

***

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A Modernidade Esfaqueada

Tela “As Mulatas” de Di Cavalcanti danificada por terroristas – Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

É muito provável que o idiota que deu seis facadas na obra “As Mulatas” de Di Cavalcanti no Palácio do Planalto, durante os ataques terroristas em Brasília no último 8 de janeiro de 2023, não fazia a menor ideia de quem era o autor ou da magnitude daquele quadro. Mas o ato não deixa de ser simbólico por várias razões.

Muitas pessoas apontaram que o esfaqueamento representava o ódio que os golpistas têm por mulheres, ainda mais por mulheres negras, que não têm medo de serem livres, belas e felizes. Também há o ódio pela cultura, pela arte, pelo que é belo, pela liberdade de se expressar e por tudo o que é brasileiro de verdade. Veja que ironia, logo eles que se julgam patriotas!

Concordo com essas interpretações. Mas o que pode ter passado despercebido para muitas pessoas e que me chamou muita a atenção foi como esse esfaqueamento simboliza também a ojeriza que a extrema-direita tem pela modernidade.

Di Cavalcanti foi um pintor modernista. Era amigo de Mário e Oswald de Andrade. Junto a eles e outros artistas ajudou a realizar a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo. Em suas pinceladas percebemos a influência das artes de vanguarda europeias, que fervilhavam naquela época, mas com um toque de brasilidade ao representar o nosso povo e a nossa cultura.

Os autoproclamados intelectuais da extrema-direita brasileira detestam o modernismo. Assim como os nazistas no passado, eles acham que a arte moderna e tudo que seguiu sua influência posteriormente representam a degeneração humana. Repetindo a erudição enciclopédica que ouviram de outros gurus extremistas, citam pintores clássicos como verdadeira expressão de arte, sem nem saber do que estão falando.

Vale lembrar que outra obra vandalizada pelos bolsonaristas raivosos foi a escultura “A Bailarina”, de Victor Brecheret, também artista do modernismo brasileiro.

Eu tenho minhas críticas à modernidade, por motivos totalmente opostos aos deles, porém, não posso negar a contribuição que ela trouxe para a humanidade.

E não pense você que a raiva dos golpistas tem a ver com uma busca por um mundo melhor. Não. Muito pelo contrário. A ideia de progresso é horrível para essas pessoas. Para elas, o ideal seria voltarmos à idade média. Uma das características do fascismo é justamente esse culto imbecil a um passado idílico que sequer existiu.

Os ideólogos da extrema-direita acreditam que estão em uma guerra cultural contra todo o tipo de arte que, na cabeça deles, representa o marxismo. E isso compreende desde uma novela da Globo até as poesias do Paulo Leminski. Por isso, querem uma “higienização” por meio da eliminação de tudo o que contraria seus padrões estéticos (o que para alguns deles se aplica a seres humanos também).

Nessa primeira batalha física, os fascistóides feriram gravemente nossa cultura, mas não conseguiram matá-la. O quadro “As Mulatas” está sendo restaurado. A nossa democracia precisa ser restaurada também.

***

E o que você pensa disso tudo? Escreva aí nos comentários. Sei que o tema é polêmico, por isso, só te peço que seja educado. E curta o post se você gostou desta crônica.

Tristezas Velhas, Novas Esperanças

Não me recordo exatamente como era o trecho, mas me lembro que o escritor Thomas Mann, em uma passagem de seu livro “A Montanha Mágica”, disse que a gente só sabe que é Ano Novo por causa dos sinos e fogos de artifício que o anunciam. A natureza em si continua impassível, sem dar sinal de mudança.

Nós vivemos em uma era muito racionalista, o que é bom. Por outro lado, sei que isso, quando levado ao extremo, tira muito da poesia do cotidiano.

Eu já odiei muito as festas de fim de ano. Costumava desejar aos meus amigos, em tom de deboche, que eles tivessem uma boa volta completa em torno do sol.

Realmente, os dias são como todos os outros depois de 1º de janeiro. Hoje é terça-feira, amanhã será quarta. Haverá um dia e uma noite. Nada de novo sob o sol. O dia de hoje poderia ser batizado como dia 32 de fevereiro que não sentiríamos a menor diferença.

Mas como a vida seria insuportável se não existissem coisas como o ano passado. A ideia de que algo doloroso aconteceu há um ano é confortadora. Se não houvesse esse ponto final no dia 31 de dezembro, o sofrimento seria contínuo. Com o passar do ano novo, a tristeza vai ficando velha e vamos superando-a.

O Ano Novo também traz esperança. Se algo não deu certo neste ano, bom, no próximo ano poderá dar certo.

Quando era criança e minha mãe trazia um calendário do próximo ano do supermercado — a famosa “folhinha” — eu ficava contemplando todos aqueles dias que estavam por vir, tentando imaginar o que aconteceria. Certa vez, contei isso para ela. “Xi! Só desgraça!”, minha mãe comentou.

Já passei por algumas coisas na vida que me permitem dizer que não existem anos completamente bons, mas que também não existem anos completamente ruins. Coisas boas e más acontecem alternadamente o ano inteiro.

Mas que se dane! Quero olhar para o calendário como aquele garotinho e pensar que tenho 365 novas oportunidades para realizar os meus sonhos.

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Precisamos Sonhar

Assistindo à série da Netflix “Sandman” um episódio me chamou muito a atenção. Nele, o vilão John Dee, desejando que todas as pessoas do mundo sejam “honestas” e vejam as coisas como elas realmente são, usa o rubi do Senhor dos Sonhos para controlar a mente dos clientes e funcionários de uma lanchonete, levando-os à loucura e à crueldade.

Quando o herói Sandman chega à lanchonete e se depara com aquele cenário macabro, John Dee diz a ele que aquilo mostrava o que a humanidade era de verdade. Mas Sandman o repreende. Aquelas pessoas seguiam suas vidas inspiradas por sonhos, ele diz. Quando isso foi tirado delas, após Dee acabar com suas aspirações, realmente, elas se destruíram. 

Aí o Sandman… Não. Chega de spoilers por hoje.

Para mim, esse episódio serve de metáfora para os nossos tempos pós-modernos, carregados de niilismo.

Ao destruirmos todos os nossos valores e propósitos, não nos resta nada sólido para se agarrar. Quando os tempos difíceis chegam, somos arrastados pelos eventos, como uma frágil sacola plástica de supermercado em um temporal.

Os amores líquidos, a repetição diária de trabalhos serializados, o consumismo que apenas sacia os prazeres imediatos, entre outras coisas, fazem muitas pessoas acreditarem que a vida não tem sentido. Que não vale mais a pena se levantar de manhã e encarar um novo dia. Diante dessa angústia existencial, elas se rendem ao desespero.

Mas o psiquiatra Viktor Frankl, pai da logoterapia, dizia que não somos nós que perguntamos à vida qual é o seu sentido. É a vida que nos pergunta a todo instante qual é o seu sentido. Cada momento, cada situação, exige de nós alguma coisa.

Sobrevivente de um campo de concentração nazista, ele afirmava que aqueles que tinham um propósito, mesmo que fosse rever uma pessoa amada, que já poderia estar morta àquela altura, resistiam melhor aos sofrimentos do que os que haviam perdido totalmente a esperança.

Em seu livro “Em busca de sentido”, Frankl conta que, quando percebia que um prisioneiro não queria mais guardar cigarros para trocar por uma comida melhor, por exemplo, e os fumava somente para sentir um prazer momentâneo, sabia que ele havia entregado os pontos. E que dias depois esse prisioneiro iria ou morrer por alguma doença, ou tirar a própria vida.

Como naquela música do Tim Maia, mesmo quem sofre precisa procurar uma razão para viver, ver na vida algum motivo para sonhar. E ter um sonho todo azul. Azul da cor do mar.

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Ser Adulto

Quando eu era criança, tinha uma ideia bem clara do que era ser adulto: ir a um bar na rua Conselheiro Antônio Prado, no Centro de Birigui, sentar em um dos banquinhos ao redor do balcão; pedir um cigarro e uma cerveja. E, depois, conversar com os outros adultos que estavam lá sobre as coisas mais importantes da vida, como política e os problemas do País.

Naquela época, não tinha a menor vontade de ser adulto. Enquanto meus amigos queriam completar 18 anos logo, para terem uma carteira de motorista, eu queria que o tempo passasse o mais lentamente possível. “Você quer ficar pequeno para sempre?”, perguntava minha mãe. Sim, eu queria. Não era à toa que eu gostava tanto do Peter Pan, o personagem de histórias infantis que se recusava a crescer. 

Mas, como não é possível parar o fluxo da mudança ao qual nosso mundo está condenado, logo eu estava em uma “terra de gigantes”, como diz aquela música do Engenheiros do Hawaii. 

A “idade da razão” chegou para destruir o conceito claro que eu tinha sobre ser adulto. Hoje, pergunto-me se alguns dos hábitos que ainda tenho são infantis e se tenho responsabilidades suficientes para me considerar um homem maduro. 

Um dia, perto de completar 32 anos, fui a um bar, bem pequeno, na rua Conselheiro Antônio Prado. Sentei-me em um dos banquinhos ao redor do balcão. Olhei para a prateleira com vários cigarros de embalagens bonitas. Não comprei nenhum, pois não fumo. Pedi um refrigerante, porque estava de moto e, por isso, não podia beber nada que tivesse álcool.

Havia alguns homens mais velhos sentados em uma mesa do lado de fora. Porém, por ser tímido, não entrei na roda de conversas. Um deles falava de uma dor terrível que sentia e que perturbava seu sono à noite. A dor é realmente uma coisa de adulto. Nunca senti tantas dores como sinto hoje: doem-me os pés, a cabeça, a coluna. 

Fui embora sentindo que tinha completado um rito de passagem. Mas, fora a certeza de que viver sentindo dor é um sintoma de ser adulto, as dúvidas ainda me perseguem. Talvez ser adulto seja isso: nunca ter a ingênua certeza sobre nada. 

Distância (versão do século 21)

Em uma crônica chamada “Distância”, o meu grande mestre Rubem Braga recomendou aos seus leitores que evitassem o amor à distância. 

Na época em que o nosso maior cronista escreveu o texto, o meio mais comum de as pessoas se comunicarem ainda era através de cartas. Como o próprio Braga explicou na época, uma ligação telefônica era muito cara. 

Porém, levando-se em consideração que uma carta demorava dias para chegar, poderia ocorrer que o sentimento apaixonado que a/o remetente tinha quando a escreveu já não existisse mais quando a missiva encontrasse as mãos do(a) destinatário(a).

Por isso, o Braga terminou a crônica com a severa recomendação: “Não ameis à distância, não ameis, não ameis!”. 

Mas, atualmente, o mundo é muito diferente do que era em 1955. A tecnologia encurtou demais as distâncias. Todos têm celulares, redes sociais e aplicativos para falar e trocar mensagens instantaneamente, seja por texto, áudio ou vídeo. Quase ninguém escreve cartas hoje. Com tanta facilidade assim, os namoros à distância se tornaram comuns em nossa época. E muitos se transformaram em casamento. 

Parece algo até meio clichê para um cara meio tímido, meio nerd, como eu, ter encontrado sua esposa pela internet. 

Não sei se posso dizer exatamente que conheci a Jéssica pela internet. Realmente, o primeiro contato que tive com ela foi pelo Facebook. Mas não foi da forma tradicional como esses tipos de relacionamentos começam, em chats ou aplicativos e sites para encontrar uma pessoa perfeita.

Eu já conhecia o irmão dela pessoalmente. Ele era de Manaus e estava morando em Birigui. Éramos fãs de quadrinhos e, por isso, acabamos nos aproximando. Um dia ele disse que tinha uma irmã. Procurei o nome dela na rede social do Mark Zuckerberg e começamos a conversar. Passamos alguns anos nos falando apenas pelo celular. Namorando à distância.

Até que um dia eu desembarquei no aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus. Lembro-me de como fiquei ansioso ao perceber, enquanto subia as escadas, que em poucos segundos finalmente me encontraria face a face com alguém que parecia que já conhecia pessoalmente a vida inteira. 

Quinze dias depois ela voltou comigo para Birigui. “Namoramos pessoalmente” por dois anos e no próximo mês de julho completaremos quatro anos casados. 

O Braga lá do Céu que me perdoe, mas meu severo conselho para vocês neste Dia dos Namorados é: ameis de qualquer forma, ameis, ameis!