O Jantar

Jamais imaginei que iria reencontrá-lo. Ainda mais na imensa São Paulo, tão longe da nossa cidadezinha natal no interior do Estado.

Minha esposa havia combinado um jantar no apartamento de uma moça que tinha começado a trabalhar com ela. Eu não gosto de sair, muito menos visitar os outros, mas aceitei ir só para não chateá-la. 

Quando ele abriu a porta do apartamento, mal pude acreditar. Acho que ele sentiu a mesma coisa, no entanto, não demonstrou qualquer reação. Eu também me esforcei para agir com naturalidade. Nem em meus sonhos mais absurdos poderia imaginar que o marido da colega de trabalho da minha esposa fosse ele

Qual era a possibilidade de rever alguém com quem eu cortei relações há mais de dez anos? “Sabia que deveria ter ficado em casa”, pensei.

Quando apertei sua mão, aquela noite veio como um relâmpago na minha memória.

O ano era 2003. Depois de voltarmos do baile de formatura do ensino médio, nós dois pegamos um dos carros do pai dele, um fusca restaurado. O coroa dele era colecionador de veículos antigos. 

Estávamos muito bêbados. Queríamos curtir aquela noite o máximo possível. Afinal, depois daquele dia, cada um iria para o seu canto começar uma nova vida. Éramos amigos desde a primeira série e precisávamos nos despedir com classe.

Ele e eu tínhamos várias coisas em comum, em especial, o amor pelo time do São Paulo. E tínhamos também um cumprimento sacana. Ao apertar as mãos, às vezes ele, às vezes eu, enfiava o dedo do meio na palma da mão do outro. Quando ele fazia isso comigo, sempre o empurrava e dizia: “Para com isso, seu veado”.

O cheiro da costela assada, colocada na mesa pela mulher dele, interrompeu os meus pensamentos. Ela era uma bela morena. Usava um par de óculos que lhe dava uma aparência de intelectual. Tinha tido sorte o filho da puta. Seu menino também era bonito, cabelos negros, cortados no formato de tigela.

Será que ele não pensava na mulher e nos filhos daquele homem quando olhava para sua família? Pensei em como ele era insensível. Já no meu caso, não tinha um maldito dia em que não me lembrava daquele homem.

Enquanto ele falava como era seu trabalho de arquiteto, recordei-me que, naquela noite, era ele quem dirigia. Ouvíamos uma música do Slipknot no volume máximo. A gente gritava junto com a banda.

Ao descer uma ladeira, vimos algo reluzir na rua sem iluminação. Eram faixas refletoras coladas no uniforme de um lixeiro. Ele subia a rua. Acredito que estava voltando para casa. Toda vez que me lembro daquela noite penso em como aquele homem deveria estar cansado.

— Vamos dar um susto nesse sujeito? — ele me perguntou rindo. 

Como eu estava chapado, também ri da ideia e concordei. O som distorcido das guitarras e a bateria frenética do Slipknot davam mais emoção ao que iríamos fazer. “Vamos filho da puta! Todo mundo tem que morrer!”, era o que dizia um dos versos da música.

Ele girou o volante para a esquerda e avançou na direção do homem. Não sei se foi por causa do álcool ou por não ter experiência como motorista, mas ele não conseguiu desviar a tempo e atropelou o cara.

Anos depois, ele bebia devagar uma taça de vinho no conforto da sala de jantar de seu apartamento, com pinturas de paisagens nas paredes e cheiro de desodorizador de ambiente. O cretino perguntou se eu aceitava uma bebida. Respondi que não. Na verdade, queria lhe dizer que, desde aquela noite, nunca mais coloquei uma gota de álcool na boca.

Naquela noite, descemos do carro e vimos o lixeiro inconsciente, caído no asfalto. O sangue dele escorria até a sarjeta. Porém, percebi que ainda respirava. Li no bolso de seu uniforme o nome: “José”.

Não havia ninguém na rua e nenhuma casa construída por perto, pois estávamos em um lote novo de um conjunto habitacional. 

O vocalista do Slipknot continuava gritando no alto-falante que todo mundo tinha que morrer No entanto, nós dois não achávamos mais aquilo engraçado. 

Aquele homem tinha um nome. José. “As pessoas não são um merda, como aquela maldita música dizia”, pensei. 

José. 

Esse nome ecoa na minha mente todos os dias.

Após todos comerem, a mulher dele nos serviu um mousse de morango de sobremesa. Ela e minha esposa, então, passaram a contar fofocas sobre seus colegas de trabalho. Ele prestava atenção nas duas, enquanto eu o encarava. Porém, ele não olhou nos meus olhos nenhuma vez.

— Vamos embora – ele disse.

— Não! Precisamos chamar o socorro.

O desespero nos tornou sóbrios. Foi como se tivéssemos despertado de um sonho.

— Você está louco? O meu pai vai me matar se descobrir isso. Vou perder minha permissão para dirigir.

— Mas ele está precisando de ajuda.

— É o seguinte: eu vou cair fora. Se você quiser ficar aí e ser preso, o problema é seu.

Olhei uma última vez para José inconsciente no chão e entrei no carro. Ele desligou o som e voltamos para nossas casas, sem trocar uma palavra.

Antes de dormir, rezei muito para que alguém encontrasse aquele homem que se chamava José e o socorresse. Pedi a Deus para que a pancada não tivesse sido forte o suficiente para matá-lo. 

No outro dia, porém, ouvi no rádio que José havia sido encontrado morto, já em estado de rigidez cadavérica. A polícia ainda não sabia quais tinham sido as causas da morte, apesar de suspeitar de atropelamento. 

Liguei para ele, que me contou que seu pai estava furioso por causa do amassado no carro e que tinha inventado uma história de que bateu em uma árvore como desculpa. Disse a ele que estava pensando em me entregar à polícia.

— Não, cara! Esquece isso! Ninguém viu nada, sacou? Nunca vão descobrir que foi a gente, a não ser que você abra o bico. Se você fizer isso, acabo com você.

Não falei nada para ninguém e, realmente, nunca fomos descobertos. Dias depois eu me mudei. Fui estudar publicidade em outra cidade, também no interior de São Paulo. Ele foi estudar arquitetura em outro estado. Antes de partir, liguei para ele novamente para me despedir. Só que para sempre, pois não queria mais voltar a falar com ele novamente.

Mas o acaso quis nos reunir outra vez. O assunto na mesa agora era a corrupção na política. A mulher dele passou a falar sobre como era inacreditável a ladroagem no país.

— Eu não sei como um cara desses consegue colocar a cabeça no travesseiro e dormir – ele disse.

Aquilo foi demais para mim. Senti vontade de enfiar um soco na cara daquele imbecil. Pedi licença e me levantei. Fui até a sacada do apartamento e acendi um cigarro. “Como ele tinha a cara de pau de falar aquilo?”.

Enquanto olhava as luzes das janelas dos outros apartamentos, lembrando de que a maior construção da cidade de onde vim era a caixa d’água, ele entrou na sacada. Reparei que ele não tinha mudado muito, apenas engordou um pouco. Eu, por outro lado, já tinha vários fios de cabelos brancos. Ele perguntou se eu tinha fogo. Acendi o cigarro dele com a ponta do meu.

— Sabe… – ele fez uma pausa enquanto tragava.

Ele iria falar sobre aquela noite! Finalmente, poderia despejar na cara dele tudo o que havia guardado há mais de uma década. E se ele quisesse engrossar iria quebrar a cara dele ali mesmo. Não me importava que nossas mulheres e seu filho assistissem a tudo. 

— …eu acho que o São Paulo não vai ser rebaixado neste ano – ele concluiu.

Filho da puta!

— Pois eu não acho – eu disse. Tenho certeza de que vai ser rebaixado. 

Joguei a bituca do cigarro no chão da sacada e a esmaguei.

Retornei à sala e disse para a minha esposa que já estava na hora de voltarmos para casa. Ela e a mulher dele reclamaram que era cedo. Porém, eu disse que estava passando mal. 

Dei um beijo no rosto da mulher dele e baguncei o cabelo do garoto. Ele se ofereceu para nos levar à porta. 

Para manter as aparências, antes de sair, voltei-me para cumprimentá-lo. Ele enfiou o dedo do meio na palma da minha mão.

Olhei para ele e sorri. 

Tive vontade de o empurrar e dizer: “Para com isso, seu veado”.