
É muito provável que o idiota que deu seis facadas na obra “As Mulatas” de Di Cavalcanti no Palácio do Planalto, durante os ataques terroristas em Brasília no último 8 de janeiro de 2023, não fazia a menor ideia de quem era o autor ou da magnitude daquele quadro. Mas o ato não deixa de ser simbólico por várias razões.
Muitas pessoas apontaram que o esfaqueamento representava o ódio que os golpistas têm por mulheres, ainda mais por mulheres negras, que não têm medo de serem livres, belas e felizes. Também há o ódio pela cultura, pela arte, pelo que é belo, pela liberdade de se expressar e por tudo o que é brasileiro de verdade. Veja que ironia, logo eles que se julgam patriotas!
Concordo com essas interpretações. Mas o que pode ter passado despercebido para muitas pessoas e que me chamou muita a atenção foi como esse esfaqueamento simboliza também a ojeriza que a extrema-direita tem pela modernidade.
Di Cavalcanti foi um pintor modernista. Era amigo de Mário e Oswald de Andrade. Junto a eles e outros artistas ajudou a realizar a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo. Em suas pinceladas percebemos a influência das artes de vanguarda europeias, que fervilhavam naquela época, mas com um toque de brasilidade ao representar o nosso povo e a nossa cultura.
Os autoproclamados intelectuais da extrema-direita brasileira detestam o modernismo. Assim como os nazistas no passado, eles acham que a arte moderna e tudo que seguiu sua influência posteriormente representam a degeneração humana. Repetindo a erudição enciclopédica que ouviram de outros gurus extremistas, citam pintores clássicos como verdadeira expressão de arte, sem nem saber do que estão falando.
Vale lembrar que outra obra vandalizada pelos bolsonaristas raivosos foi a escultura “A Bailarina”, de Victor Brecheret, também artista do modernismo brasileiro.
Eu tenho minhas críticas à modernidade, por motivos totalmente opostos aos deles, porém, não posso negar a contribuição que ela trouxe para a humanidade.
E não pense você que a raiva dos golpistas tem a ver com uma busca por um mundo melhor. Não. Muito pelo contrário. A ideia de progresso é horrível para essas pessoas. Para elas, o ideal seria voltarmos à idade média. Uma das características do fascismo é justamente esse culto imbecil a um passado idílico que sequer existiu.
Os ideólogos da extrema-direita acreditam que estão em uma guerra cultural contra todo o tipo de arte que, na cabeça deles, representa o marxismo. E isso compreende desde uma novela da Globo até as poesias do Paulo Leminski. Por isso, querem uma “higienização” por meio da eliminação de tudo o que contraria seus padrões estéticos (o que para alguns deles se aplica a seres humanos também).
Nessa primeira batalha física, os fascistóides feriram gravemente nossa cultura, mas não conseguiram matá-la. O quadro “As Mulatas” está sendo restaurado. A nossa democracia precisa ser restaurada também.
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E o que você pensa disso tudo? Escreva aí nos comentários. Sei que o tema é polêmico, por isso, só te peço que seja educado. E curta o post se você gostou desta crônica.