Resenha #16: “As águas-vivas não sabem de si” de Aline Valek

A humanidade está sempre buscando uma maneira de estabelecer contato com outras formas de vida conscientes de sua existência, para afastar a estranha sensação de que está sozinha no universo. Ao mesmo tempo, cada vez mais a comunicação entre nós, seres humanos, é rara e complicada.

O tema da comunicação — ou a falta dela — está presente em quase todas as páginas do livro “As águas-vivas não sabem de si”, da escritora Aline Valek. Eu já conhecia a autora por conta de sua newsletter “Uma Palavra”, a qual gosto muito, e ao encontrar esse romance, fiquei curioso para saber como ela se saía na ficção .

A protagonista da história, Corina, é uma mergulhadora profissional e está trabalhando em uma expedição liderada por Martin, um polêmico cientista estrangeiro, que em vez de buscar vida inteligente no espaço, como a maioria de seus colegas, a procura nas misteriosas e ainda pouco conhecidas profundezas do oceano.

O trabalho de Corina consiste em colocar sondas no fundo do mar junto com outro mergulhador, Arraia, que ela  já conhece dos tempos em que prestava serviços em uma empresa petrolífera. Martin usa essas sondas para enviar sinais pelas águas na esperança de que alguma criatura marinha os compreenda e mande uma mensagem sonora de volta. Ele quer saber se os animais do mar têm algo a dizer aos seres humanos.

Solidão

A missão só consegue chegar a profundidades tão grandes graças a um traje especial desenvolvido pela empresa que patrocina a pesquisa e que, por meio dela, pode testar seus novos equipamentos de mergulho.

A expedição fica sediada em uma estação no fundo do mar chamada Auris. Além de Corina, Martin e Arraia, vivem nela mais duas pessoas: Maurício, outro cientista que auxilia Martin; e Susana, uma engenheira naval que também faz o papel de enfermeira e médica às vezes, sem ter formação alguma nessas áreas. 

O lugar é pequeno e monitorado por câmeras. Apesar dessa proximidade física, não há muita conversa entre seus moradores. Isso aumenta a solidão que parece existir naturalmente nas profundezas do oceano, o que dá espaço para muitos pensamentos melancólicos.

Assim como o fundo do mar, os personagens guardam muitos segredos. Dramas e traumas que são apresentados ao leitor aos poucos. Todos eles parecem estar ali para tentar superá-los, provar algo para eles mesmos ou para a sociedade. Suas personalidades são bem definidas e coerentes com o passado de cada um.

O segredo de Corina é o mais complicado. Ele pode colocar a vida dela e a de seu colega Arraia em risco a qualquer momento e pôr fim à pesquisa. Mas a teimosia e perseverança de Corina são admiráveis para mim, mesmo que isso possa levá-la às piores consequências. Outro personagem que me chamou a atenção foi Martin, por causa de sua obsessão, que me fez lembrar de outros velhos lobos do mar da literatura, como o Capitão Ahab de “Moby Dick” (Herman Melville) e o Capitão Nemo de “Vinte Mil Léguas Submarinas” (Júlio Verne)

Tem uma cena no livro que gostei muito e que exemplifica bastante a solidão e incomunicabilidade pelas quais os integrantes da expedição optaram. Os tripulantes de Auris também recebem mensagens da superfície vindas de seus familiares e amigos. Corina recebeu uma de sua mãe. Apesar de ter ficado emocionada, ela decide não responder. Fiquei pensando o quanto era irônico tentar estabelecer uma conexão com um ser inteligente hipotético no fundo do mar, enviando sinais e ficar aguardando uma resposta, enquanto ignoramos as tentativas de diálogo com pessoas que nos são próximas.

A obra tem vários outros exemplos de ruídos de comunicação como esse, mas não seria possível colocar todos aqui numa pequena resenha. Convido você a ler o romance e encontrá-los.

Animais Marinhos

Alguns capítulos são narrados do ponto de vista de animais marinhos, o que dá um toque de fantasia e ficção científica ao livro. Alguns deles são conhecidos nossos como cachalotes e águas-vivas. Outros teriam sido extintos há muito tempo, que é o caso dos azúlis, criaturas conscientes e civilizadas. E uma espécie existente nos dias de hoje, no entanto, ainda desconhecida: os espectros. Até mesmo o oceano possui um capítulo no qual ele é o narrador.

Mas não pense que essas partes são apenas exercícios narrativos. Elas têm um propósito dentro do romance.

Aline Valek – Foto: Marcos Felipe

A prosa de Aline Valek é envolvente e poética. Embora ela trate de muitos temas densos, o leitor tem uma sensação prazerosa em degustar suas palavras. A leitura avança em um ritmo devagar, da mesma forma que as coisas parecem fluir no fundo do mar. Tudo nos leva à contemplação e reflexões.

A escritora realça como o oceano é um lugar estranho, não só por causa de suas criaturas esquisitas, mas também porque ele parece inadequado aos seres humanos, que apesar de conseguirem entrar em suas domínios, não têm uma estrutura corpórea para sobreviver por muito tempo naquele lugar.

Nos detalhes do fundo do oceano, porém, parece estar escrita a história do nosso planeta e da nossa espécie, à espera de alguém com coragem, inteligência e força, que consiga chegar até lá e decifrá-la. Alguém como Corina que ouve e aceita o convite incessante vindo desse perigoso abismo: mais fundo, mais fundo.


Você já conhecia esse livro da Aline Valek? Escreva aí nos comentários o que você achou desta resenha e não deixe de curtir se você gostou!

Resenha #15: “Fundação” de Isaac Asimov

“Conhecimento é poder”. Seja para objetivos nobres, como evitar que a civilização volte à barbárie, ou para fins questionáveis, tal qual detê-lo para subjugar outros povos. Esse velho ditado permeia o romance “Fundação”, do escritor Isaac Asimov, nascido na Rússia e naturalizado norte-americano. Chamado também pelos fãs de “Bom Doutor” e “Pai dos Robôs”.

Publicada pela editora Aleph, “Fundação” é o primeiro livro de uma trilogia escrita nos anos 1950. Mais tarde, na década de 1980, a série ainda ganharia outros quatro volumes. Os três primeiros livros foram eleitos em 1966 a melhor série de ficção científica e fantasia de todos os tempos, desbancando nada mais, nada menos, que “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien e “Barsoom” de Edgar Rice Burroughs.

A primeira obra foi publicada em partes na lendária revista pulp Astoundig Science Fiction. Para se ter uma ideia de sua importância, a trilogia inspirou outros clássicos da ficção científica, como Duna e Star Wars. Recentemente, a Apple TV+ adaptou o romance em uma série de sucesso que, infelizmente, ainda não assisti.

Psico-História

Hari Seldon por Michael Whelan

A história de “Fundação” se passa a milhares de anos no futuro, numa época em que a galáxia é governada por um Império composto por 25 milhões de planetas habitados. Somente em Trantor, planeta que é capital do Império Galáctico, vivem 40 bilhões de pessoas.

A humanidade se esqueceu até mesmo de onde veio. Os estudiosos supõem que os seres humanos surgiram em algum lugar perto de Sirius, Sol e Alpha Centauri. A expansão do Império Galáctico foi possível em muito por causa da tecnologia de viagens espaciais, chamada Salto, que pode levar uma pessoa de um ponto da galáxia a outro em pouco tempo.

Porém, após mais de 10 mil anos de soberania do Império Galáctico, um homem chamado Hari Seldon começa a apontar sua ruína. Para isso, ele utiliza um método que me deixou fascinado chamado Psico-História. A Psico-História é um ramo da matemática capaz de prever o futuro das civilizações, baseado nas probabilidades de reações de conglomerados humanos a estímulos sociais e econômicos, excluindo-se aí ações individuais.

Segundo Seldon, em 300 anos o Império cairá. A divulgação de suas ideias causa sérios problemas a ele, por serem consideradas perigosas. Seldon então é preso e levado a julgamento. No entanto, apesar da queda inevitável, ele afirma diante do tribunal que tem um plano para reduzir o período de barbárie subsequente de 30 mil anos para “apenas” um milênio. Em seguida, o Império deverá ser reerguido.

A ideia de Seldon é a criar uma Fundação, a qual será responsável pela elaboração de uma Enciclopédia Galáctica, contendo todo conhecimento produzido pela humanidade, a fim de que ele não se perca completamente e se torne um alicerce para a restauração do Império Galáctico.

Temendo que Seldon possa estar certo, as autoridades do Império decidem exilá-lo em um planeta pobre em recursos, nos limites da galáxia, chamado Terminus. Lá, longe de Trantor, ele e seu grupo de cientistas poderão desenvolver a tal da Fundação.

Mas Seldon sabia que isso poderia acontecer. Na verdade, isso fazia parte de seus planos. O fato é que a criação da Enciclopédia Galáctica foi só uma fachada para sua verdadeira estratégia para salvar a humanidade da destruição.

A queda do Império realmente começa quando os planetas da periferia da galáxia, praticamente esquecidos pelo Império, começam a se rebelar, se transformando em reinos independentes, porém, caracterizados pela falta de ciência e civilização.

‘Ain, vai falar de política?’

“Fundação” tem muitas tramas políticas e reviravoltas de bastidores. Muitos desses acontecimentos são revelados em vários diálogos entre os personagens, que deixam a leitura mais leve e fluente.

O tema do imperialismo está presente em suas páginas, principalmente, a ideia de que todo império, por mais poderoso e longevo que seja, um dia vai desmoronar, geralmente, provocando destruição, miséria e mortes. É. A História sempre se repete. Vale lembrar que Asimov se inspirou na obra “Declínio e Queda do Império Romano” de Edward Gibbon para criar a série Fundação.

O autor retrata as várias formas como o imperialismo age para conquistar suas colônias. No caso da Fundação, primeiro a dominação de outros planetas se dá por meio da religião, que detém o conhecimento científico. Para ser introduzida nos demais reinos, a Fundação transformou a ciência em uma seita religiosa. Depois, o controle dos outros povos ocorre através do poder tecnológico e econômico.

Concisão

Isaac Asimov

Embora Asimov seja um escritor de hard sci-fi, a leitura não é difícil. Seu estilo é claro e bastante conciso, sem parágrafos ou capítulos extensos. Em pouco mais de 200 páginas, são narrados mais de 150 anos desde o início da Fundação.

A sensação é de que tudo acontece muito rápido, até porque a leitura leve do romance nos faz querer devorá-lo o mais rápido possível. Por outro lado, não dá muito para se apegar aos personagens. Apesar de terem uma caracterização marcante e desejos bem definidos, que ficam bastante claros nos diálogos, eles vêm e vão depressa, o que me lembrou muito outro clássico da ficção científica “O Fim da Infância” de Arthur C. Clarke.

Aliás, a galeria de personagens é extensa. Além de Seldon, os destaques vão para o primeiro e o maior prefeito de Terminus, Salvor Hardin, e para o primeiro dos Príncipes Mercadores, Hober Mallow.

Como já havia dito, existem muitos diálogos, que achei naturais e nos dão informações sobre passado, presente e explicam conceitos. Há momentos de grande tensão, como o ataque iminente de Anacreon à Fundação e o julgamento de Hober Mallow.

As expectativas são realçadas também por trechos da Enciclopédia Galáctica antes de cada uma das cinco partes, que antecipam um pouco o que vai acontecer, e os cliffhangers no fim dos capítulos.

Gostei ainda da construção de mundo da Fundação: as características dos planetas, suas tecnologias e cultura.

Já estou ansioso para ler o segundo volume: “Fundação e Império”.

***

Já leu Fundação? O que você achou? Ainda não leu? Ficou interessado? Deixe seu comentário aqui embaixo e curta se você gostou da resenha.

Resenha #14: “Iluminações” de Alan Moore

Sou suspeito para falar sobre Alan Moore, pois eu o considero o maior roteirista de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Leio tudo o que encontro dele desde a primeira vez que li Watchmen, após muito tempo tentando evitá-lo por preconceitos religiosos, pelo fato de ele se autoproclamar mago.

Se arrependimento matasse… Enfim.

Porém, a antologia de contos Iluminações, publicada pela editora Aleph, é o meu primeiro contato com sua ficção em prosa. E o homem não me decepcionou. Sei que ele ainda tem outras duas obras nesse gênero “A Voz do Fogo” e “Jerusalém”, que desejo muito ler no futuro.

Nesta coletânea, o autor experimenta diversas formas de narrar, buscando todas as possibilidades que a ficção em prosa e o formato do conto podem oferecer, da mesma forma que ele já havia explorado as potencialidades que a linguagem das HQs possui. Por isso, cada conto é extremamente original.

As histórias abordam temas muito caros a Moore, como a questão do tempo e espaço, o sobrenatural, a literatura beat, histórias em quadrinhos, nostalgia e críticas sociais. Fiquei me perguntando como alguém tão recluso como ele, que nem mesmo assiste TV, pode saber tanto sobre a nossa sociedade contemporânea.

Os gêneros dos contos também são diversos. Temos horror cósmico, fantasia e bastante humor em suas páginas. Moore usa estilos de escrita diferentes. Ele vai de um texto mais complexo, cujo significado é mais difícil de penetrar, até uma escrita mais leve e informal.

Até mesmo nos agradecimentos, que tenho certeza que muita gente não lê, Moore consegue prender nossa atenção. Por meio deles, ele nos conta um pouco como surgiram os contos do livro. No final, ainda há uma entrevista muito boa que o escritor concedeu ao jornalista Ramon Vitral, em que ele fala sobre assuntos pertinentes aos tempos que vivemos.

A seguir, analiso um por um os contos de “Iluminações”:

Lagarto Hipotético

Som-Som é uma meretriz em um prostíbulo chamado Casa Sem Relógios. Ela foi deixada lá pela mãe quando ainda era criança. Seus clientes são feiticeiros e, para não contar seus segredos, Som-Som passou por um procedimento em que a liga que une os lados direito e esquerdo do cérebro foi cortada. Além disso, ela recebeu uma máscara de porcelana que deixou apenas a parte esquerda do seu rosto à mostra – uma imagem que me causou bastante estranheza a princípio. Dessa forma, as únicas coisas que Som-Som consegue expressar em palavras são memórias de antes do procedimento, por mais que tente falar outra coisa.

Ela é testemunha de um romance trágico entre dois moradores da Casa Sem Relógios: um ator muito talentoso chamado Foral Yatt e uma mulher trans, Rawara Chan, que deixa o lugar para seguir uma carreira bem-sucedida de atriz. Quando Rawara aparece novamente na Casa Sem Relógios para uma visita, Foral, que ficou muito magoado com sua partida, vai aos poucos roubando a identidade dela, de forma bastante abusiva.

Em seu retorno à Casa Sem Relógios, Rawara dá a Foral um presente que, para mim, é uma das melhores imagens do conto: o lagarto hipotético. Como ela explica, se trata de um brinquedo para o intelecto, que consiste em uma esfera que pode ter ou não um lagarto hibernando eternamente dentro dela. Pareceu-me ser uma metáfora para a condição de Som-Som, uma vez que, por ela não conseguir usar a linguagem, é impossível saber o que se passa em seu íntimo. Ou ainda uma metáfora para as intenções de Foral.

Neste conto, Alan Moore usa um estilo um pouco mais rebuscado do que os demais, mas nada que atrapalhe o entendimento da história. Há uma reviravolta no final, mas que, pelo menos para mim, já era previsível.

Nem Mesmo Lenda

Sem dúvida, o melhor conto da coletânea. O enredo é bem simples. O Cisan (Comitê para a Investigação Surrealista das Alegações dos Normais) está reunido para discutir os novos rumos da organização. Em vez de procurar vampiros e fantasmas, seu líder sugere buscar criaturas que nunca foram vistas, as quais ninguém sabe como são. Isso acaba chamando a atenção de uma comunidade de entidades invisíveis que decide intervir.

Porém, a estrutura que o autor usa para narrar a história a torna um grande exemplo de originalidade. O conto se desenrola em dois tempos intercalados, sendo um deles destacado em itálico, técnica muito semelhante a que Ernest Hemingway utiliza no conto “As Neves do Kilimanjaro”. Dessa forma, Alan Moore prepara o terreno para um plot twist de explodir a cabeça.

Local, Local, Local

Uma advogada chamada Angie é a última pessoa na Terra. Enquanto as previsões do Apocalipse se confirmam surrealmente acima de sua cabeça, ela está indo entregar uma propriedade – nada mais, nada menos do que o nosso mundo – ao seu novo dono, um sujeito muito gente boa chamado (sim, é ele mesmo).

Jê é um cara descolado. Veste uma camiseta onde está escrito “Posso estar velho, mas pelo menos vi todas as bandas que prestam…” (quero uma dessas!), usa mullets, gosta de séries e fuma cigarro eletrônico. De vez em quando fala uns palavrões também.

Os dois passeiam por onde um dia já foi o Jardim do Éden (que curiosamente fica na cidade inglesa de Bedford) no momento em que os anjos do Céu e as hordas de Lucífer se enfrentam. Mas, como Jê comenta, tudo é muito burocrático, apenas para cumprir um contrato. Como se fosse uma luta livre da WWE, sabemos quem é do bem e quem é do mal, e como a batalha vai terminar. Por isso, Jê não está nem aí para o que está acontecendo.

Durante a conversa, ele faz uma proposta para Angie que, talvez, possa chocar alguns leitores mais puritanos.

Narrada de uma forma leve e despojada, esta história me fez rir muito.

Leitura a Frio

Esta é uma história de terror e suspense, mas que também tem algumas pitadas de humor.

Rick Sullivan é um médium charlatão. No entanto, ele não se vê assim. Para Rick, seu trabalho é justificado pelo conforto que ele proporciona às pessoas que perderam seus entes queridos. Ele acredita que essa é a sua missão divina na Terra.

Tudo vai mudar quando um homem chamado David, cujo irmão gêmeo morreu, entra em contato com Rick. Apesar de não ter muita certeza de que seu irmão Dennis aprovaria o que estava fazendo, David marca um primeiro encontro com Rick.

Antes de conversar com o cliente em potencial, Rick vasculha as redes sociais de Dennis, a fim de conseguir material sobre como era a vida pessoal dele, para fingir que está recebendo mensagens do além.

Rick descobre que Dennis era uma pessoa extremamente cética. E, apesar de ter consciência de que nunca recebeu uma única mensagem do mundo espiritual, essa falta de fé o deixa bastante irritado.

Em um estilo de relato bem lovecraftiano, o conto é narrado em primeira pessoa, como se o protagonista estivesse conversando com o leitor informalmente. Há uma reviravolta surpreendente no final. Preste atenção nos detalhes!

O Estado Altamente Energético de Uma Complexidade Improvável

Durante um femtossegundo antes do Big Bang (que pode ter durado milhões de anos), surge uma espécie de cérebro consciente de sua existência. Com o tempo, ele foi criando extensões que lhe permitiram ter sensações e sentimentos, os quais foi catalogando como uma tabela periódica. Essa consciência se autonomeou Pamperrégio.

Em sua jornada de descobertas, Pamperrégio encontra outro cérebro. Ele desenvolve extensões nele e se apresenta como o criador do universo, onisciente e onipotente. Esse outro cérebro também tem consciência e Pamperrégio o chama de Glynne.

Glynne acredita em tudo o que Pamperrégio diz, inclusive na sua teoria “Ter-mais-dinâmica”, a qual consiste na crença de que o universo está sempre progredindo para o melhor.

Pamperrégio começa a desenvolver desejo por Glynne e os dois passam a ter um relacionamento amoroso. Mais para frente, eles encontram outros cérebros conscientes. Surgem os primeiros casos de preconceito e até mesmo uma universidade, onde Glynne vai ensinar a essas outras consciências as crenças de Pamperrégio.

Mas, vai chegar um momento em que Glynne não vai mais suportar o autoritarismo de Pamperrégio.

Esse foi o conto mais desafiador para mim. Não que eu não tenha gostado. Achei-o bom. Mas tive muita dificuldade na leitura por causa das abstrações e imagens surreais da origem do universo. Alan Moore também usa bastante adjetivos pomposos e advérbios, que deixaram a história mais complicada de imaginar.

Iluminações

Neste ótimo conto, Alan Moore critica a mania cada vez maior da nostalgia. De acordo com esta história, ao contrário do que ficamos devaneando, se o passado fosse revivido, as coisas não seriam melhores. Na verdade, o mundo se tornaria um pesadelo.

O protagonista é um homem de meia-idade que acabou de se separar da mulher. Seus filhos já são crescidos e seus pais estão mortos.

Após encontrar um velho álbum de família, ele decide ir até um lugar turístico onde se recorda ter passado momentos muito bons com seus pais na infância.

Porém, ao chegar lá, ele percebe que tudo está mudado. Até mesmo as coisas que se tornaram melhores o incomodam. Ainda assim, o personagem insiste em seu passeio, pois há resquícios do local da sua infância em meio a nova paisagem, que fazem parecer que ele ainda existe em algum lugar.

A princípio, pensei que este conto fosse o primeiro “realista” da coletânea. No entanto, conforme acompanhamos as andanças do protagonista, vamos sentindo um clima estranho, semelhante ao das ruínas da cidade do conto “A sombra de Innsmouth”, de H.P. Lovecraft. Aliás, a cidade onde se passa esta história tem o sugestivo nome de Welmouth.

Os parágrafos com lembranças do protagonista são intercalados pelas ações do presente. As duas linhas do tempo vão ficando cada vez mais confusas e a coisa só piora quando o personagem vai ao parque de diversões Pleasureland.

O que se pode saber a respeito do Homem-Trovão

Com quase 300 páginas, este conto está mais para uma novela. Nele encontramos outro alvo das críticas recorrentes de Alan Moore: a indústria de histórias em quadrinhos de super-heróis dos Estados Unidos.

Enquanto em Watchmen os super-heróis são usados pelo autor para construir uma sátira ao gênero, aqui Moore faz críticas violentas às pessoas que produzem as revistas.

Quem conhece pelo menos um pouco da história dos comics vai encontrar diversos paralelos com a realidade. De uma forma não linear, o conto cobre desde o surgimento dos super-heróis, com contrabandistas de bebidas durante a Lei Seca se tornando os grandes donos das editoras, até a febre dos filmes e séries dos dias atuais, passando por fatos históricos como a caça às bruxas do Macarthismo e a invasão do Capitólio.

Existem algumas referências a pessoas, editoras e personagens reais: Sam Blatz é o Stan Lee, Joe Gold é Jack Kirby, a American é a DC, a Massive é a Marvel, o Homem-Trovão é o Superman e o Rei Abelha é o Batman. É impossível não ficar tentando adivinhar quem é quem enquanto vamos lendo. Fiz até algumas pesquisas na internet para descobrir as referências.

Existem dois personagens que meio que protagonizam o conto. Worsley Porlock é o editor-chefe da American e Dan Wheems é um dos roteiristas da editora.

Porlock assume o cargo após a estranha morte de Brandon Chuff durante um jantar em um restaurante. Embora esteja chocado com a passagem do colega, ele não consegue esconder a empolgação de se tornar editor-chefe.

Enquanto Porlock cada vez mais se afunda nos vícios da indústria dos quadrinhos, Dan Wheems procura seguir um caminho diferente depois da morte de Chuff. Ele percebe que as HQs de supers não o prepararam para a perda de alguém, bem como para outras coisas da vida real. Então, assim como Alan Moore, Wheems decide tentar se esquecer dos comics e se aproximar da literatura.

Moore usa bastante experimentalismo neste conto. Algumas passagens são narradas em diferentes formatos, como roteiro de HQ, interrogatório, fórum de internet, sessão de psicanálise, crítica de cinema e entrevista “pingue-pongue”.

As críticas à indústria norte-americana de quadrinhos de super-heróis são inúmeras: exploração de artistas e roteiristas; roubo de propriedade intelectual; falta de criatividade; fãs sem talento transformados em profissionais do mercado; leitores mais preocupados com os personagens do que com a estrutura narrativa das histórias; infantilização de adultos; colecionismo; contribuição na ascensão de líderes políticos autoritários; e por aí vai.

Em alguns momentos, acho que Moore exagera, especialmente ao mostrar os fãs e profissionais como pessoas extremamente decadentes. Mas entendo que essa é a forma que ele encontrou para deixar suas críticas mais ácidas. Esse exagero torna alguns trechos estranhamente engraçados. A gente acaba rindo de situações que, se pararmos para pensar, não deveríamos achar graça nenhuma. Ainda mais que uma ou duas delas aconteceram mais ou menos daquela forma na vida real.

Por outro lado, acho que o autor também mostra algumas coisas boas que os quadrinhos podem proporcionar, como grandes amigos que podemos fazer por causa dos gibis, sejam à distância ou pessoalmente em uma convenção.

Foi impossível não me emocionar ao ver a forma como Porlock, em sua infância, lia os quadrinhos para se esquecer por um momento a separação de seus pais. Ou como sua primeira convenção o tirou da solidão, ao encontrar outros garotos desajustados socialmente, que compartilhavam da mesma paixão. E esse evento ainda lhe deu o sonho de trabalhar com algo que ele realmente amava.

Luz Americana: Uma avaliação

Por meio de um texto acadêmico, principalmente através de notas de rodapé, conhecemos a história de um escritor beat fictício chamado Harmon Belner. O estudo também é, obviamente, de uma autora inventada: C. F. Bird.

O texto de Belner analisado é sua obra-prima, o poema Luz Americana. Conforme vamos lendo seus versos, após uma introdução explicativa, sabemos das influências do autor, seu comportamento e relacionamentos conturbados. O principal deles é com outro escritor, Connor Davey, um grande admirador de seu trabalho.

Temos ainda um vislumbre da cena beat, principalmente, na cidade de San Francisco. Moore usa referências a autores clássicos do gênero, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, bem como as pessoas que os rodeavam – uns “santos marginais” – e acabavam virando inspirações para seus textos. E ainda os locais frequentados pelos beatniks na cidade.

Moore utilizou uma forma bastante diferente para escrever esse conto. Assim como a maioria das histórias do livro, há um plot twist no fim, e o escritor se vale da estrutura narrativa que está usando para armá-lo. 

E, Enfim, Só Para Dar Cabo do Silêncio

Dois condenados estão caminhando lado a lado. Um deles vai tagarelando sozinho até que o outro, chamado John Halper, acaba desistindo de ficar calado e começa a falar também. O principal assunto é descobrir quem o primeiro personagem é.

Este conto é totalmente narrado por meio de diálogos. Através deles, o leitor vai recebendo aos poucos as informações da história, como detalhes a respeito do caminho que os dois estão percorrendo (que, aliás, é bastante bizarro); o motivo pelo qual eles foram condenados; e a época em que se passa o conto (durante o reinado de Ricardo Coração de Leão, na Inglaterra).

Pode ter sido tudo culpa minha, mas demorei para entender a revelação deste conto. Precisei ler mais de uma vez. 

***

Você já leu “Iluminações”? O que achou? Se não, ficou interessado em ler? Escreva aí nos comentários e curta esse post se você gostou desta resenha.

Resenha #13: “O Fio da Navalha” de W. Somerset Maugham

Antes de iniciar a resenha de “O Fio da Navalha”, do escritor W. Somerset Maugham, gostaria de contar um pouco da minha jornada para chegar até ele.

A primeira vez que ouvi falar desse livro foi em 2013, há quase dez anos, portanto. Embalado na época pela leitura de “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, procurei outros romances com uma pegada mais filosófica. Porém, outros livros foram entrando na minha lista de interesses e “O Fio da Navalha” acabou indo parar no fim da fila.

Recentemente, após a perda de um amigo muito querido, voltei a me interressar nele. “Quem sabe esse romance me dê respostas para as perguntas que eu ando me fazendo”, pensei.

LARRY

O livro conta a história de Larry Darrel, um ex-aviador que lutou na França durante a Primeira Guerra Mundial. Ele sofre um grande trauma ao ver seu amigo morrer após este salvá-lo de um ataque de aviões inimigos. Um jovem que, até poucas horas atrás era uma pessoa tão animada, agora jazia no chão sem vida, como um velho fantoche abandonado por seu criador.

Depois de passar algum tempo nos Estados Unidos, Larry decide abandonar a vida confortável e próspera de seu país, inclusive sua noiva Isabel, para procurar respostas para suas dúvidas existenciais, entre elas: por qual motivo existe o mal no mundo?

Essa busca vai levá-lo novamente a França, depois Alemanha e Índia.

Um aspecto interessante da obra é como ela retrata a incompreensão da maioria das pessoas diante de alguém que prefere buscar sabedoria em vez de ganhar muito dinheiro, buscar prazeres, diversões e posses materiais.

Enquanto os demais personagens são atingidos por mudanças provocadas pela passagem do tempo, como crises econômicas, doenças, perda do prestígio social, mudanças de costumes e a morte de entes queridos, Larry parece sempre sereno, como se tivesse compreendido algo que explicasse tudo.

Até há um paradoxo engraçado: quanto mais ele fica desapegado de coisas materiais, mais ele parece ter o que precisa.

HISTÓRIA REAL

Maugham se inclui na história como um personagem. Aliás, ele diz que os acontecimentos de “O Fio da Navalha” foram reais. As pessoas que aparecem no livro apenas tiveram seus nomes trocados. Muito do que sabemos sobre elas é contado ao próprio escritor por outros personagens em longos diálogos.

Como eu vinha da leitura de dois livros cheios de ação, demorou um pouco para me acostumar com o ritmo da obra. Há um enredo, mas as coisas acontecem devagar. Aos poucos, porém, fui me afeiçoando aos personagens e seus dramas.

(De vez em quando, também gosto e preciso descansar nas páginas de um livro.)

Na verdade, o enredo nem é tão importante assim. O mais interessante neste livro são os temas tratados nele. Apesar de alguns deles serem mais densos e o autor ser contemporâneo dos modernistas, a escrita de Maugham é clara e flui bem.

ÍNDIA E HINDUÍSMO

O capítulo 6 me marcou bastante, por retratar a Índia e falar sobre o hinduísmo, uma religião que sempre me chamou a atenção, mas da qual conheço muito pouco. Durante sua leitura, fiz pesquisas sobre lugares e divindades, o que aumentou a minha vontade de visitar a Índia algum dia.

Nessa parte, ficamos sabendo como foi a peregrinação de Larry nesse país por meio de uma conversa entre ele e o escritor, que atravessa a madrugada em um café parisiense.

Uma das passagens mais legais acontece quando Larry se emociona diante de um busto de três cabeças com o qual ele se depara nas Grutas de Elefanta (trata-se da trindade conhecida como Trimúrti). Curiosamente, Larry reencontra lá um swami que havia conhecido em um navio e que lhe recomendou visitar o local. Ele explica que a imagem representa a Realidade Final, composta por Brama, o criador; Vichnu, o conservador; e Siva, o destruidor. Você pode até não se tornar um devoto dessa entidade, mas é preciso concordar que se trata de um belo simbolismo para a existência cíclica que envolve todas as coisas do universo.

“O Fio da Navalha” é um livro muito bom e pretendo voltar a ele no futuro. Confesso que não encontrei nele respostas conclusivas para as perguntas que me atormentam. Mas sinto que dei um passo a mais na minha busca.

Gostou desta resenha? Deixe sua curtida e comentário!

Resenha #12: “Hellraiser: Renascido do Inferno” de Clive Barker

O que você faria para ter o que deseja? Trairia? Venderia sua alma? Mataria alguém?

O livro “Hellraiser: Renascido do Inferno”, do escritor inglês Clive Barker, mostra que o ser humano, quando busca irracionalmente apenas satisfazer seus prazeres, pode se tornar um monstro e pagar um preço alto demais por isso.

PERSONAGENS

Frank Cotton é um niilista e após desfrutar várias depravações sexuais ficou entediado com a vida. Ele ouve falar da caixa de Lemarchand que daria acesso a uma dimensão de prazeres indescritíveis para quem conseguisse decifrar seu enigma.

Porém, após obtê-la, Frank descobre da pior forma possível que sua concepção de prazer é muito diferente das criaturas que vivem na Cisão, conhecidas como Cenobitas, as quais se deliciam com dor e sofrimento.

Rory é irmão de Frank e se muda com sua mulher, Julia, para a casa que herdou da avó, a mesma em que Frank fez o ritual para invocar os Cenobitas.

Julia está infeliz com seu casamento e descobrimos que ela teve um caso com Frank, quando ainda era noiva. Após Rory se ferir, Frank usa seu sangue caído no chão para entrar em contato com Julia e pede sua ajuda para sair da Cisão. Vislumbrando a possibilidade de estar com Frank novamente, ela fará tudo — tudo mesmo— para libertá-lo.

Kirsty é a melhor amiga de Rory. Ela é uma mulher triste e Julia a detesta.

DINÂMICO

A escrita de Barker é bastante dinâmica. O livro tem muita ação e, por ser curto, pode ser lido em um dia. Eu gosto muito de ler devagar, prestando atenção nos detalhes, e tive dificuldade para me conter, porque sempre ficava curioso para saber o que aconteceria em seguida.

A obra agrada tanto quem, assim como eu, gosta de terror sobrenatural com uma pegada de ocultismo, quanto os que curtem gore, por causa das cenas de violência extrema.

O autor não se preocupa muito em descrever fisicamente os personagens, dando maior importância às suas características internas. Já os Cenobitas são descritos como criaturas cheias de cicatrizes, presas pela carne por argolas e correntes, que possuem cheiro de baunilha para disfarçar seu fedor. Mas, infelizmente, terminei o livro querendo saber mais sobre eles.

Durante a narrativa, embora seja um livro narrado em terceira pessoa, o ponto de vista das cenas se alterna entre os personagens, com exceção de Rory, que é um tanto apagado na história. Kirsty também só terá relevância depois do meio da trama.

CLÁSSICO OBRIGATÓRIO

A edição da Darkside é muito bonita, com capa de couro que remete ao estilo sadomasoquista dos Cenobitas e uma ilustração dourada da caixa de Lermarchand.

“Hellraiser: Renascido do Inferno” é um clássico do terror com várias adaptações para o cinema e graphic novels, além de jogos. É leitura obrigatória para os fãs do gênero.

E aí, já leu Hellraiser? O que achou? Ficou com vontade de ler? Escreva nos comentários sua opinião!

Resenha #11: “Coração de Aço” de Brandon Sanderson

“Poderes corrompem. Superpoderes corrompem ainda mais”. Essa é a premissa do romance “Coração de Aço”, do escritor norte-americano Brandon Sanderson, o primeiro da série “Executores”.

Trata-se de uma história que busca desconstruir a ideia dos super-heróis, mostrando que uma pessoa pode ganhar poderes e não necessariamente usá-los para ajudar os indefesos.

Essa não é uma ideia nova. Desde os anos 1980 vários autores já imaginaram como seria o mundo real se pessoas tivessem superpoderes de verdade. Acredito que a obra-prima desse gênero seja a graphic novel Watchmen, de Alan Moore (roteiro) e Dave Gibbons (desenhos).

Mas Sanderson conta sua versão de uma realidade povoada por superseres sem ética de uma forma original. Até então eu ainda não tinha lido uma história em que o mundo é governado por super-heróis. Ou melhor, supervilões.

Foi exatamente por juntar dois gêneros que eu gosto muito — super-heróis e distopia — que me senti atraído a ler “Coração de Aço”.

CALAMIDADE

Após um evento ainda inexplicável chamado Calamidade surgir nos céus, como uma espécie de estrela ou cometa, várias pessoas ganharam superpoderes. Elas foram chamadas de Épicos.

Porém, os Épicos se tornaram vilões e começaram a dominar territórios (muitas vezes lutando entre eles) e a subjugar os demais seres humanos que não desenvolveram habilidades sobre-humanas.

Um dos Épicos mais poderosos do mundo se chama Coração de Aço. Ele transformou Chicago em aço durante um evento chamado “grande transversão”. A cidade então se tornou Nova Chicago. Em sua superfície, vivem Épicos e as pessoas que prestam serviços ao governo de Coração de Aço e que são de certa forma privilegiadas. Mas a maior parte da população vive uma vida miserável nas sub-ruas, que foram escavadas nos subterrâneos.

Coração de Aço tem dois grandes aliados: Tormenta de Fogo e Punho da Noite, este último mantém Nova Chicago em uma eterna noite. Além deles, existe Confluência, que doa seus poderes para garantir energia à cidade.

O romance é narrado em primeira pessoa pelo protagonista David, um jovem de 18 anos que junta o máximo de informações a respeito dos Épicos, para saber quais são os seus pontos fracos.

Quando ele tinha 8 anos, seu pai foi morto por Coração de Aço durante um assalto a banco, do qual ele foi o único sobrevivente. Nesse dia, ele viu Coração de Aço sangrar após ser atingido de raspão por um tiro disparado por seu pai, que, na verdade, queria matar outro Épico chamado Dedo da Morte.

A partir daí ele decidiu que iria ver Coração de Aço sangrar novamente e vingar a morte de seu pai.

Nesse mundo distópico existe um grupo de pessoas que são os verdadeiros heróis: os Executores. Pessoas normais que dedicam suas vidas a matar Épicos, usando estratégias parecidas com uma guerrilha urbana e alta tecnologia.

David se junta a um grupo de Executores para tentar concretizar sua vingança. Esse grupo é formado por Prof, o fundador dos Executores; Cody; Abraham; Thia e Megan, que também acabou de se tornar uma executora e será o interesse romântico de David.

O protagonista é um tanto imaturo, bobo e improvisa muitas ações arriscadas em momentos  em que aparentemente é melhor recuar. Muita gente pode achar David um mala por causa desses seus defeitos, mas isso é compreensível. Além de ele ser muito jovem, o trauma de ter visto seu pai morrer sem poder fazer nada o levou a nunca mais querer ser um “covarde”.

AÇÃO E SUSPENSE

“Coração de Aço” é o primeiro livro do Brandon Sanderson que li. Há muita ação e suspense em suas páginas, daquelas em que você prende a respiração. A história está sempre progredindo para chegar à conclusão. Cada capítulo termina em um “gancho” que te deixa curioso para ler o próximo, o que transforma a obra em um “vira-páginas” de primeira classe.

Existem também muitas reviravoltas no enredo. Apenas uma delas, envolvendo Prof, não me agradou muito. Mas não vou contar aqui para não estragar a surpresa. 

O mundo construído por Sanderson é cheio de detalhes, que são mostrados conforme a narrativa anda e não em extensos parágrafos descritivos, que costumam diminuir o ritmo da história e ser chatos.

A escrita de Sanderson não tem mistério: é clara, leve e fluída.

Embora a ação seja mais evidente, algumas questões interessantes são levantadas na obra: vale a pena viver em uma sociedade aparentemente ordenada, mas sem liberdade? Quais as consequências de se rebelar e destruir com violência um sistema autoritário? Como resistir à tentação de ser corrompido pelo poder?

CONCLUSÃO

Achei “Coração de Aço” um livro muito divertido. Ele deixa algumas pontas soltas, que acredito que serão esclarecidas nos outros dois volumes da série — “Tormenta de Fogo” e “Calamidade” — os quais pretendo ler futuramente. 

Apesar da premissa pessimista que citei no início desta resenha, existe uma mensagem positiva no livro: pessoas inteligentes e unidas, usando os recursos que possuem, podem derrubar tiranos por mais poderosos que eles sejam.

Como diz o pai de David: “Onde existirem vilões, existirão heróis. Aguarde. Eles virão”.

Resenha #10: “Clube da Luta” de Chuck Palahniuk

A rotina mecânica e o consumismo do mundo moderno estão nos levando a um tédio perigoso e a uma perda total de sentido da vida, que pode provocar a destruição da civilização e um retorno à barbárie. Para mim, esta é uma das mensagens que o livro “Clube da Luta”, de Chuck Palahniuk, nos traz.

O romance é escrito em primeira pessoa, mas o narrador não diz o seu nome durante a história. Ele trabalha para uma empresa que avalia a necessidade (ou melhor, a vantagem financeira para a empresa) de se fazer recall de carros com defeito. Por isso, está sempre viajando de avião pelos Estados Unidos, desejando que um deles caia. Sua vida se resume a trabalhar e comprar coisas “legais” para seu apartamento.

O protagonista tem sofrido muito com insônia e procura um psiquiatra, que lhe recomenda frequentar grupos de apoio a pessoas com doenças terminais, caso ele quisesse encontrar um sentido para a vida. Ele faz isso e não é que o negócio dá certo? Em meio a tantas desgraças piores que a sua, o narrador consegue desabafar, chorar e dormir melhor.

Tudo ia muito bem até ele encontrar Marla Singer, que também passou a participar de vários grupos que o narrador ia. Assim como o protagonista, ela não está com uma doença terminal. Marla começa ser um empecilho para o narrador, que não consegue mais se concentrar durante os encontros, pois ela está ali para lembrá-lo de que ele é um farsante.

Os dois combinam de revezar os grupos de apoio para não se encontrarem. Entre uma viagem e outra, o narrador conhece Tyler Durden, um sujeito que é seu oposto, corajoso e descolado.

Certo dia, ao voltar de uma viagem, o narrador descobre que seu apartamento explodiu, provavelmente, por causa de um vazamento de gás. Só lhe sobraram as roupas que estavam na mala e as que ele vestia.

O protagonista, então, se muda para a casa de Tyler. Um dia, Tyler pede para o protagonista acertar uma porrada bem forte nele. A partir daí, os dois criam o Clube da Luta, onde caras como eles, pessoas com vidas e trabalhos triviais, podem lutar para extravasar todos seus instintos primitivos, reprimidos pelas facilidades do mundo contemporâneo.

Conforme o tempo passa, mais as ideias destrutivas de Tyler Durden vão tomando conta da mente do narrador.

INÍCIO ARREBATADOR

O início de “Clube da Luta” é um dos mais arrebatadores que já li. É uma antecipação do clímax da história. Tyler Durden coloca uma arma dentro da boca do narrador, em cima do prédio mais alto do mundo, que está prestes a desabar em um atentado terrorista.

Confesso que após esse início empolgante a narrativa chegou a me entediar um pouco por causa de seu tom extremamente pessimista, com personagens derrotistas, que pareciam fadados ao eterno fracasso. Porém, voltei a me empolgar depois que Tyler decide dar um passo adiante no Clube da Luta e cria o Projeto Desordem e Destruição.

Eu me lembro que quando assisti ao filme, lá pelos meus 20 e poucos anos, dizia: “é isso aí, Tyler! É preciso destruir tudo para reconstruir algo novo em cima de seus escombros”. (Gostava tanto do filme que eu tinha até uma camiseta do Tyler que brilhava no escuro).

Hoje, já com os meus quase 40 anos, lendo o livro, não tenho mais certeza de que penso assim. Ainda mais depois de ver a invasão do Capitólio e que, entre os manifestantes, estava um sujeito vestido como um bárbaro viking.

É até engraçado ver como o homem moderno sempre que se sente frustrado tem esse desejo de retornar ao estado de natureza (o mesmo que ele próprio destruiu), como diz o livro “TAZ Zona Autônoma Temporária”, de Hakim Bey, cuja leitura, aliás, eu recomendo muito.

Na verdade, eu acho que não precisamos jogar a água suja do banho com o bebê junto. O próprio narrador percebe que a coisa toda está fugindo do controle e que o Projeto Desordem e Destruição é uma receita para o desastre total. Mas pode ser que seja tarde demais para deter Tyler.

Por causa desse despertar do narrador, acredito que o Clube da Luta pode ser um alerta sobre o rumo que a nossa sociedade cada vez mais consumista está tomando, como escrevi no início desta resenha.

É claro que uma obra de arte pode ter “n” interpretações. Porém, não concordo, como muitos têm comentado ultimamente, que o autor tenha feito apologias ao fascismo, à homofobia e à misoginia. Ou que Palahniuk tenha escrito um livro doutrinário, para incentivar a criação de um Projeto Desordem e Destruição no mundo real. Os personagens de um romance não pensam necessariamente como o escritor, pelo amor de Deus!

ESTILO

O mergulho na mente do narrador é uma das seduções da escrita de Palahniuk. Existem muitas repetições de ideias no texto, o que costuma me incomodar um pouco. Mas neste caso  isso não ocorre por inexperiência ou pela insegurança de que o leitor não está entendendo do que se trata a história. Acredito que seja intencional, para nós sentirmos a mente doentia do protagonista.

Outra coisa que nos prende no estilo de Palahniuk é que o livro tem um pouco de skaz, uma técnica que emula o jeito como o personagem falaria, como se estivesse conversando informalmente com o leitor e este fosse um velho conhecido.

As frases e parágrafos curtos — às vezes com uma palavra só — aumentam a sensação de violência do texto, como se fossem socos. É uma narrativa crua, muitas vezes suja, carregada de niilismo e existencialismo, de uma maneira incômoda que eu só tinha sentido ao ler “Trainspotting” de Irvine Welsh.

“Clube da Luta” tem uma grande reviravolta no enredo, um pouco depois da metade do livro. Se você for um leitor atento, vai conseguir identificar as várias pistas que o autor vai deixando ao longo da história até o plot twist.

Enfim, “Clube da Luta” é um ótimo livro.

Já leu “Clube da Luta”? O que achou desta resenha? Deixe seu comentário e curta este post!

Resenha #9: “Mitologia Nórdica” de Neil Gaiman

Assim como o escritor Neil Gaiman conta na apresentação deste livro, o pouco que eu conhecia sobre a mitologia nórdica vinha dos quadrinhos do Thor, da Marvel. Lembro-me também vagamente de falarem de Odin em uma das sagas dos Cavaleiros do Zodíaco.

Com um rico conhecimento sobre o assunto, Gaiman usa suas habilidades de grande contador de histórias para nos apresentar um panteão de deuses e lendas magníficas em contos que possuem elementos de vários gêneros literários, como humor, tragédia, romance e policial.

Da mesma forma como a Bíblia, a mitologia nórdica tem histórias sobre o princípio de tudo e o fim de todas as coisas (Ragnarök) — o que na verdade é um recomeço. Como os mitos costumam fazer, existem explicações sobre diversas coisas, como o motivo pelo qual temos terremotos e de onde vem a inspiração para poemas.

Ao contrário dos quadrinhos, os deuses nórdicos não são tão nobres e nem sempre gentis. Eles são mais parecidos com as divindades gregas, que têm relacionamentos complicados e defeitos, como nós humanos mortais.

Alguns contos são muito engraçados. Um deles, por exemplo, é sobre Thor se vestindo de noiva para ir recuperar seu martelo Mjölnir no mundo dos gigantes (Jötunheim). Por outro lado, “A Morte de Balder” é a história mais triste do livro.

LEITURA AGRADÁVEL

A leitura é muito fácil e agradável. Devorei “Mitologia Nórdica” em poucos dias. Gaiman é muito bom em nos enredar na narrativa, deixando sempre uma pergunta na cabeça do leitor sobre o que vai acontecer depois. Dessa forma, é impossível largar o livro.

A única coisa que me incomodou no início foi a repetição sobre quem são os personagens, o que aconteceu com eles, em alguns dos contos. Porém, isso é compreensível, pois o leitor pode ler o livro do começo ao fim, como foi o meu caso, ou escolher contos aleatoriamente. Assim, ele não ficará tão perdido se optar por esta última forma.

Nas três primeiras histórias, temos um estilo diferente do que estamos acostumados quando lemos as obras do Neil Gaiman. Ele mais conta do que mostra. Lembra até o Gênesis, se formos traçar mais um paralelo com a Bíblia. (Bem como o final me parece um tanto profético, tal qual o Apocalipse). Mas esses contos são necessários para contextualizar o mundo que iremos adentrar em breve.

“Mitologia Nórdica” é uma forma muito boa de se iniciar nesse universo e também de passar horas a fio se divertindo com ótimas histórias.

Gostou desta resenha? Então curta este post e deixe o seu comentário!

Resenha #8: “Os Inocentes” de Hermann Broch

As sinopses que se encontram na orelha e na contracapa da edição da Rocco (1988) do romance “Os Inocentes”, do escritor austríaco Hermann Broch, podem ser enganosas. Não quero dizer que o que está escrito ali esteja errado. Porém, o livro não se resume a um único enredo e a apenas uma ideia, como esses textos dão a entender. Pelo contrário. É possível fazer inúmeras reflexões a partir da leitura desta grande obra.

O romance é multiplot, ou seja, existem várias tramas envolvendo diversos personagens. Eles são apresentados em contos que, a princípio, parecem ser totalmente independentes, colocados aleatoriamente. No entanto, as histórias dessas pessoas vão acabar se cruzando ao longo da narrativa.

Aliás, todos os enredos são muito bem amarrados. Nada colocado em uma cena ou descrição é gratuito. Se o leitor for perspicaz e atento aos mínimos detalhes, será alegremente recompensado pelo autor. Sugiro que você faça anotações enquanto vai lendo o livro. Vale muito a pena, pois, ao voltar a elas, você irá perceber como tudo se encaixa.

PERSONAGENS

A. (ou Andreas) é um dos protagonistas do romance. Ele é uma pessoa que não gosta de tomar decisões e, consequentemente, ter responsabilidades. Prefere ser levado pelo destino e ter uma vida amena. Foi assim que conseguiu ganhar muito dinheiro como negociante de pedras preciosas na África do Sul.

Enquanto Hitler ascendia na Alemanha, A. ganhava dinheiro. Enquanto os bolcheviques chegavam ao poder na Rússia, A. ganhava dinheiro. Porém, por sua causa, algo terrível acontece a uma moça humilde e doce. Apesar de não ter intenção de fazer mal à garota e tentar não pensar mais no que houve, um dia, o tribunal de sua consciência irá cobrar um preço alto pela sua indiferença.

Outra personagem importante é Zerline, que é criada da baronesa W. e de sua filha bastarda Hildegard. Ela nutre um ódio mortal pelas duas. Invejosa e perversa, Zerline conhece muitos segredos sórdidos dessa família alemã tradicional. Sua raiva pela baronesa irá até as últimas consequências.

Já o professor titular Zacharias representa o espírito político da Alemanha no entre guerras. Embora pertença ao partido socialdemocrata, suas ideias estão sendo distorcidas por um nacionalismo e conservadorismo exagerados. Com seus filhos e alunos, Zacharias é muito autoritário. Mas o leitor vai descobrir logo que, pelo menos em sua casa, ele é o típico oprimido que deseja ser opressor.

MODERNISTA

Como um bom escritor modernista, Hermann Broch desafia a forma como o romance é escrito. O livro é dividido em três partes: Pré-Histórias, Histórias e Pós-Histórias. Cada uma dessas partes é iniciada por um poema de versos brancos e livres chamado Vozes.

Porém, não existe experimentalismos de vanguarda na linguagem da obra. O texto é bastante claro e muitas vezes poético, embora as frases e os parágrafos sejam grandes e exijam um certo fôlego do leitor.

Existem algumas digressões no meio da narrativa. Elas são curtas e estão de alguma forma ligadas ao personagem que conduz a cena. Porém, não são cansativas como as digressões costumam ser. A maioria são reflexões profundamente filosóficas a respeito de metafísica, sobre o tempo, o espaço e o ser, que nos retiram do senso comum e, em outras palavras, fazem nossa cabeça explodir.

IDEIAS

As ideias que são debatidas no romance após mais de 70 anos ainda são atuais. Uma delas é o problema que a indiferença ao autoritarismo pode causar. Todos os personagens do livro são “inocentes” no sentido de não terem envolvimento direto com o nazismo. Entretanto, essa postura “isentona” de muitos alemães na época permitiu os horrores praticados por Hitler e seus seguidores.

Outra ideia muito presente no livro é a capacidade do ser humano, mesmo após várias gerações, de praticar atrocidades contra o próximo. É possível também perceber o choque entre o passado – símbolo de orgulho para muitos – e a modernidade na cidadezinha alemã onde se passa a narrativa, bem como o clima do entre guerras, com paranoia e inflação crescentes.

Resenha #7: “O Último Desejo: A Saga do Bruxo Geralt de Rívia – Volume 1” de Andrzej Sapkowski

Uma das perguntas que me fiz ao terminar de ler “O Último Desejo”, o primeiro livro da saga The Witcher, do escritor polonês Andrzej Sapkowski, foi esta: quem são os verdadeiros monstros nesta história? As criaturas fantásticas ou os humanos?

O protagonista Geralt de Rívia é um bruxo, mas não se deve confundi-lo com um feiticeiro ou mago. Seu ofício por natureza é caçar monstros, sendo que não se pode dizer que ele é um humano normal, uma vez que foi forçado desde criança a se tornar um “mutante”.

Por conta disso, ele não é bem-vindo em praticamente nenhum lugar aonde vai, embora seu trabalho faça a vida das pessoas ser mais segura. Mesmo sofrendo preconceitos, Geralt acredita pacientemente nos homens e busca ser igual a eles, o que nem sempre é bom, já que o leva a cometer os erros humanos e se afastar das virtudes de um bruxo.

No mundo em que vive, os monstros estão ficando raros. O que mais Geralt encontra ou é contratado para eliminar são pessoas que foram amaldiçoadas e se tornaram criaturas horríveis. O bruxo de Rívia, porém, tem um código moral pessoal: não mata seres humanos sem qualquer motivo, mesmo transformados em monstros, nem criaturas racionais.

Uma passagem do livro que me chamou a atenção e me fez refletir um pouco foi um diálogo entre Geralt e o elfo Filavandrel, em uma circunstância complicada para o bruxo, no conto “Os Confins do Mundo”. O elfo diz que sua raça sempre tratou o que a natureza oferece como se fosse um tesouro. Já os homens buscam feri-la para obter seus benefícios.

Série X Livro

Eu não conhecia os livros de Sapkowski antes de assistir a série da Netflix, que achei muito boa por sinal. Para mim, a série tinha se inspirado nos jogos de videogame, que também fazem muito sucesso. “O Último Desejo” é formado por contos que não estão em ordem cronológica, assim como as histórias do Conan de Robert E. Howard, e que narram vários momentos importantes da vida de Geralt de Rívia. Os contos são intercalados por uma história em partes, chamada “A Voz da Razão”.

Alguns personagens da série de TV estão neste primeiro livro, como a feiticeira Yennefer e o trovador Jaskier. Aliás, Jaskier me garantiu algumas boas risadas durante a leitura. Ele e o bruxo parecem ser mais amigos nos contos do que na série. Geralt me pareceu mais bem humorado também. Quem já assistiu a série vai reparar que alguns episódios foram inspirados em histórias que estão neste volume.

A escrita de Sapkowski é leve e fácil. Existem muitos diálogos, o que faz o texto ser bastante arejado. Ao contrário do que já ouvi, os diálogos me pareceram bastante naturais, com muito uso do coloquialismo. As descrições são feitas com bastante imersão sensorial. Os personagens nos são apresentados fisicamente com algumas “pinceladas”, que vão, aos poucos, formando uma figura completa na imaginação do leitor.

Outra coisa legal é o uso de personagens do folclore eslavo e alusões aos contos de fada, como a Branca de Neve e os Sete Anões, Rapunzel, A Bela e a Fera, que são apresentados de uma forma mais semelhante com as histórias originais, que eram mais sombrias e menos romantizadas.

“Mal Menor”

Meu conto preferido foi “O Mal Menor”. No começo da história, Geralt acredita que existe apenas o mal. Mas, uma mulher chamada Renfri, que já foi princesa um dia, ensinará a ele, da forma mais dolorosa possível, que além de sempre existir um mal menor nas decisões que tomamos, existe um mal superior a todos os outros.

Gostei muito deste primeiro volume da saga e pretendo ler o segundo em breve.

Gostou desta resenha? Então curta, comente e compartilhe com seus amigos!