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Resenha #13: “O Fio da Navalha” de W. Somerset Maugham

Antes de iniciar a resenha de “O Fio da Navalha”, do escritor W. Somerset Maugham, gostaria de contar um pouco da minha jornada para chegar até ele.

A primeira vez que ouvi falar desse livro foi em 2013, há quase dez anos, portanto. Embalado na época pela leitura de “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, procurei outros romances com uma pegada mais filosófica. Porém, outros livros foram entrando na minha lista de interesses e “O Fio da Navalha” acabou indo parar no fim da fila.

Recentemente, após a perda de um amigo muito querido, voltei a me interressar nele. “Quem sabe esse romance me dê respostas para as perguntas que eu ando me fazendo”, pensei.

LARRY

O livro conta a história de Larry Darrel, um ex-aviador que lutou na França durante a Primeira Guerra Mundial. Ele sofre um grande trauma ao ver seu amigo morrer após este salvá-lo de um ataque de aviões inimigos. Um jovem que, até poucas horas atrás era uma pessoa tão animada, agora jazia no chão sem vida, como um velho fantoche abandonado por seu criador.

Depois de passar algum tempo nos Estados Unidos, Larry decide abandonar a vida confortável e próspera de seu país, inclusive sua noiva Isabel, para procurar respostas para suas dúvidas existenciais, entre elas: por qual motivo existe o mal no mundo?

Essa busca vai levá-lo novamente a França, depois Alemanha e Índia.

Um aspecto interessante da obra é como ela retrata a incompreensão da maioria das pessoas diante de alguém que prefere buscar sabedoria em vez de ganhar muito dinheiro, buscar prazeres, diversões e posses materiais.

Enquanto os demais personagens são atingidos por mudanças provocadas pela passagem do tempo, como crises econômicas, doenças, perda do prestígio social, mudanças de costumes e a morte de entes queridos, Larry parece sempre sereno, como se tivesse compreendido algo que explicasse tudo.

Até há um paradoxo engraçado: quanto mais ele fica desapegado de coisas materiais, mais ele parece ter o que precisa.

HISTÓRIA REAL

Maugham se inclui na história como um personagem. Aliás, ele diz que os acontecimentos de “O Fio da Navalha” foram reais. As pessoas que aparecem no livro apenas tiveram seus nomes trocados. Muito do que sabemos sobre elas é contado ao próprio escritor por outros personagens em longos diálogos.

Como eu vinha da leitura de dois livros cheios de ação, demorou um pouco para me acostumar com o ritmo da obra. Há um enredo, mas as coisas acontecem devagar. Aos poucos, porém, fui me afeiçoando aos personagens e seus dramas.

(De vez em quando, também gosto e preciso descansar nas páginas de um livro.)

Na verdade, o enredo nem é tão importante assim. O mais interessante neste livro são os temas tratados nele. Apesar de alguns deles serem mais densos e o autor ser contemporâneo dos modernistas, a escrita de Maugham é clara e flui bem.

ÍNDIA E HINDUÍSMO

O capítulo 6 me marcou bastante, por retratar a Índia e falar sobre o hinduísmo, uma religião que sempre me chamou a atenção, mas da qual conheço muito pouco. Durante sua leitura, fiz pesquisas sobre lugares e divindades, o que aumentou a minha vontade de visitar a Índia algum dia.

Nessa parte, ficamos sabendo como foi a peregrinação de Larry nesse país por meio de uma conversa entre ele e o escritor, que atravessa a madrugada em um café parisiense.

Uma das passagens mais legais acontece quando Larry se emociona diante de um busto de três cabeças com o qual ele se depara nas Grutas de Elefanta (trata-se da trindade conhecida como Trimúrti). Curiosamente, Larry reencontra lá um swami que havia conhecido em um navio e que lhe recomendou visitar o local. Ele explica que a imagem representa a Realidade Final, composta por Brama, o criador; Vichnu, o conservador; e Siva, o destruidor. Você pode até não se tornar um devoto dessa entidade, mas é preciso concordar que se trata de um belo simbolismo para a existência cíclica que envolve todas as coisas do universo.

“O Fio da Navalha” é um livro muito bom e pretendo voltar a ele no futuro. Confesso que não encontrei nele respostas conclusivas para as perguntas que me atormentam. Mas sinto que dei um passo a mais na minha busca.

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Precisamos Sonhar

Assistindo à série da Netflix “Sandman” um episódio me chamou muito a atenção. Nele, o vilão John Dee, desejando que todas as pessoas do mundo sejam “honestas” e vejam as coisas como elas realmente são, usa o rubi do Senhor dos Sonhos para controlar a mente dos clientes e funcionários de uma lanchonete, levando-os à loucura e à crueldade.

Quando o herói Sandman chega à lanchonete e se depara com aquele cenário macabro, John Dee diz a ele que aquilo mostrava o que a humanidade era de verdade. Mas Sandman o repreende. Aquelas pessoas seguiam suas vidas inspiradas por sonhos, ele diz. Quando isso foi tirado delas, após Dee acabar com suas aspirações, realmente, elas se destruíram. 

Aí o Sandman… Não. Chega de spoilers por hoje.

Para mim, esse episódio serve de metáfora para os nossos tempos pós-modernos, carregados de niilismo.

Ao destruirmos todos os nossos valores e propósitos, não nos resta nada sólido para se agarrar. Quando os tempos difíceis chegam, somos arrastados pelos eventos, como uma frágil sacola plástica de supermercado em um temporal.

Os amores líquidos, a repetição diária de trabalhos serializados, o consumismo que apenas sacia os prazeres imediatos, entre outras coisas, fazem muitas pessoas acreditarem que a vida não tem sentido. Que não vale mais a pena se levantar de manhã e encarar um novo dia. Diante dessa angústia existencial, elas se rendem ao desespero.

Mas o psiquiatra Viktor Frankl, pai da logoterapia, dizia que não somos nós que perguntamos à vida qual é o seu sentido. É a vida que nos pergunta a todo instante qual é o seu sentido. Cada momento, cada situação, exige de nós alguma coisa.

Sobrevivente de um campo de concentração nazista, ele afirmava que aqueles que tinham um propósito, mesmo que fosse rever uma pessoa amada, que já poderia estar morta àquela altura, resistiam melhor aos sofrimentos do que os que haviam perdido totalmente a esperança.

Em seu livro “Em busca de sentido”, Frankl conta que, quando percebia que um prisioneiro não queria mais guardar cigarros para trocar por uma comida melhor, por exemplo, e os fumava somente para sentir um prazer momentâneo, sabia que ele havia entregado os pontos. E que dias depois esse prisioneiro iria ou morrer por alguma doença, ou tirar a própria vida.

Como naquela música do Tim Maia, mesmo quem sofre precisa procurar uma razão para viver, ver na vida algum motivo para sonhar. E ter um sonho todo azul. Azul da cor do mar.

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Resenha #12: “Hellraiser: Renascido do Inferno” de Clive Barker

O que você faria para ter o que deseja? Trairia? Venderia sua alma? Mataria alguém?

O livro “Hellraiser: Renascido do Inferno”, do escritor inglês Clive Barker, mostra que o ser humano, quando busca irracionalmente apenas satisfazer seus prazeres, pode se tornar um monstro e pagar um preço alto demais por isso.

PERSONAGENS

Frank Cotton é um niilista e após desfrutar várias depravações sexuais ficou entediado com a vida. Ele ouve falar da caixa de Lemarchand que daria acesso a uma dimensão de prazeres indescritíveis para quem conseguisse decifrar seu enigma.

Porém, após obtê-la, Frank descobre da pior forma possível que sua concepção de prazer é muito diferente das criaturas que vivem na Cisão, conhecidas como Cenobitas, as quais se deliciam com dor e sofrimento.

Rory é irmão de Frank e se muda com sua mulher, Julia, para a casa que herdou da avó, a mesma em que Frank fez o ritual para invocar os Cenobitas.

Julia está infeliz com seu casamento e descobrimos que ela teve um caso com Frank, quando ainda era noiva. Após Rory se ferir, Frank usa seu sangue caído no chão para entrar em contato com Julia e pede sua ajuda para sair da Cisão. Vislumbrando a possibilidade de estar com Frank novamente, ela fará tudo — tudo mesmo— para libertá-lo.

Kirsty é a melhor amiga de Rory. Ela é uma mulher triste e Julia a detesta.

DINÂMICO

A escrita de Barker é bastante dinâmica. O livro tem muita ação e, por ser curto, pode ser lido em um dia. Eu gosto muito de ler devagar, prestando atenção nos detalhes, e tive dificuldade para me conter, porque sempre ficava curioso para saber o que aconteceria em seguida.

A obra agrada tanto quem, assim como eu, gosta de terror sobrenatural com uma pegada de ocultismo, quanto os que curtem gore, por causa das cenas de violência extrema.

O autor não se preocupa muito em descrever fisicamente os personagens, dando maior importância às suas características internas. Já os Cenobitas são descritos como criaturas cheias de cicatrizes, presas pela carne por argolas e correntes, que possuem cheiro de baunilha para disfarçar seu fedor. Mas, infelizmente, terminei o livro querendo saber mais sobre eles.

Durante a narrativa, embora seja um livro narrado em terceira pessoa, o ponto de vista das cenas se alterna entre os personagens, com exceção de Rory, que é um tanto apagado na história. Kirsty também só terá relevância depois do meio da trama.

CLÁSSICO OBRIGATÓRIO

A edição da Darkside é muito bonita, com capa de couro que remete ao estilo sadomasoquista dos Cenobitas e uma ilustração dourada da caixa de Lermarchand.

“Hellraiser: Renascido do Inferno” é um clássico do terror com várias adaptações para o cinema e graphic novels, além de jogos. É leitura obrigatória para os fãs do gênero.

E aí, já leu Hellraiser? O que achou? Ficou com vontade de ler? Escreva nos comentários sua opinião!

Resenha #11: “Coração de Aço” de Brandon Sanderson

“Poderes corrompem. Superpoderes corrompem ainda mais”. Essa é a premissa do romance “Coração de Aço”, do escritor norte-americano Brandon Sanderson, o primeiro da série “Executores”.

Trata-se de uma história que busca desconstruir a ideia dos super-heróis, mostrando que uma pessoa pode ganhar poderes e não necessariamente usá-los para ajudar os indefesos.

Essa não é uma ideia nova. Desde os anos 1980 vários autores já imaginaram como seria o mundo real se pessoas tivessem superpoderes de verdade. Acredito que a obra-prima desse gênero seja a graphic novel Watchmen, de Alan Moore (roteiro) e Dave Gibbons (desenhos).

Mas Sanderson conta sua versão de uma realidade povoada por superseres sem ética de uma forma original. Até então eu ainda não tinha lido uma história em que o mundo é governado por super-heróis. Ou melhor, supervilões.

Foi exatamente por juntar dois gêneros que eu gosto muito — super-heróis e distopia — que me senti atraído a ler “Coração de Aço”.

CALAMIDADE

Após um evento ainda inexplicável chamado Calamidade surgir nos céus, como uma espécie de estrela ou cometa, várias pessoas ganharam superpoderes. Elas foram chamadas de Épicos.

Porém, os Épicos se tornaram vilões e começaram a dominar territórios (muitas vezes lutando entre eles) e a subjugar os demais seres humanos que não desenvolveram habilidades sobre-humanas.

Um dos Épicos mais poderosos do mundo se chama Coração de Aço. Ele transformou Chicago em aço durante um evento chamado “grande transversão”. A cidade então se tornou Nova Chicago. Em sua superfície, vivem Épicos e as pessoas que prestam serviços ao governo de Coração de Aço e que são de certa forma privilegiadas. Mas a maior parte da população vive uma vida miserável nas sub-ruas, que foram escavadas nos subterrâneos.

Coração de Aço tem dois grandes aliados: Tormenta de Fogo e Punho da Noite, este último mantém Nova Chicago em uma eterna noite. Além deles, existe Confluência, que doa seus poderes para garantir energia à cidade.

O romance é narrado em primeira pessoa pelo protagonista David, um jovem de 18 anos que junta o máximo de informações a respeito dos Épicos, para saber quais são os seus pontos fracos.

Quando ele tinha 8 anos, seu pai foi morto por Coração de Aço durante um assalto a banco, do qual ele foi o único sobrevivente. Nesse dia, ele viu Coração de Aço sangrar após ser atingido de raspão por um tiro disparado por seu pai, que, na verdade, queria matar outro Épico chamado Dedo da Morte.

A partir daí ele decidiu que iria ver Coração de Aço sangrar novamente e vingar a morte de seu pai.

Nesse mundo distópico existe um grupo de pessoas que são os verdadeiros heróis: os Executores. Pessoas normais que dedicam suas vidas a matar Épicos, usando estratégias parecidas com uma guerrilha urbana e alta tecnologia.

David se junta a um grupo de Executores para tentar concretizar sua vingança. Esse grupo é formado por Prof, o fundador dos Executores; Cody; Abraham; Thia e Megan, que também acabou de se tornar uma executora e será o interesse romântico de David.

O protagonista é um tanto imaturo, bobo e improvisa muitas ações arriscadas em momentos  em que aparentemente é melhor recuar. Muita gente pode achar David um mala por causa desses seus defeitos, mas isso é compreensível. Além de ele ser muito jovem, o trauma de ter visto seu pai morrer sem poder fazer nada o levou a nunca mais querer ser um “covarde”.

AÇÃO E SUSPENSE

“Coração de Aço” é o primeiro livro do Brandon Sanderson que li. Há muita ação e suspense em suas páginas, daquelas em que você prende a respiração. A história está sempre progredindo para chegar à conclusão. Cada capítulo termina em um “gancho” que te deixa curioso para ler o próximo, o que transforma a obra em um “vira-páginas” de primeira classe.

Existem também muitas reviravoltas no enredo. Apenas uma delas, envolvendo Prof, não me agradou muito. Mas não vou contar aqui para não estragar a surpresa. 

O mundo construído por Sanderson é cheio de detalhes, que são mostrados conforme a narrativa anda e não em extensos parágrafos descritivos, que costumam diminuir o ritmo da história e ser chatos.

A escrita de Sanderson não tem mistério: é clara, leve e fluída.

Embora a ação seja mais evidente, algumas questões interessantes são levantadas na obra: vale a pena viver em uma sociedade aparentemente ordenada, mas sem liberdade? Quais as consequências de se rebelar e destruir com violência um sistema autoritário? Como resistir à tentação de ser corrompido pelo poder?

CONCLUSÃO

Achei “Coração de Aço” um livro muito divertido. Ele deixa algumas pontas soltas, que acredito que serão esclarecidas nos outros dois volumes da série — “Tormenta de Fogo” e “Calamidade” — os quais pretendo ler futuramente. 

Apesar da premissa pessimista que citei no início desta resenha, existe uma mensagem positiva no livro: pessoas inteligentes e unidas, usando os recursos que possuem, podem derrubar tiranos por mais poderosos que eles sejam.

Como diz o pai de David: “Onde existirem vilões, existirão heróis. Aguarde. Eles virão”.

Resenha #10: “Clube da Luta” de Chuck Palahniuk

A rotina mecânica e o consumismo do mundo moderno estão nos levando a um tédio perigoso e a uma perda total de sentido da vida, que pode provocar a destruição da civilização e um retorno à barbárie. Para mim, esta é uma das mensagens que o livro “Clube da Luta”, de Chuck Palahniuk, nos traz.

O romance é escrito em primeira pessoa, mas o narrador não diz o seu nome durante a história. Ele trabalha para uma empresa que avalia a necessidade (ou melhor, a vantagem financeira para a empresa) de se fazer recall de carros com defeito. Por isso, está sempre viajando de avião pelos Estados Unidos, desejando que um deles caia. Sua vida se resume a trabalhar e comprar coisas “legais” para seu apartamento.

O protagonista tem sofrido muito com insônia e procura um psiquiatra, que lhe recomenda frequentar grupos de apoio a pessoas com doenças terminais, caso ele quisesse encontrar um sentido para a vida. Ele faz isso e não é que o negócio dá certo? Em meio a tantas desgraças piores que a sua, o narrador consegue desabafar, chorar e dormir melhor.

Tudo ia muito bem até ele encontrar Marla Singer, que também passou a participar de vários grupos que o narrador ia. Assim como o protagonista, ela não está com uma doença terminal. Marla começa ser um empecilho para o narrador, que não consegue mais se concentrar durante os encontros, pois ela está ali para lembrá-lo de que ele é um farsante.

Os dois combinam de revezar os grupos de apoio para não se encontrarem. Entre uma viagem e outra, o narrador conhece Tyler Durden, um sujeito que é seu oposto, corajoso e descolado.

Certo dia, ao voltar de uma viagem, o narrador descobre que seu apartamento explodiu, provavelmente, por causa de um vazamento de gás. Só lhe sobraram as roupas que estavam na mala e as que ele vestia.

O protagonista, então, se muda para a casa de Tyler. Um dia, Tyler pede para o protagonista acertar uma porrada bem forte nele. A partir daí, os dois criam o Clube da Luta, onde caras como eles, pessoas com vidas e trabalhos triviais, podem lutar para extravasar todos seus instintos primitivos, reprimidos pelas facilidades do mundo contemporâneo.

Conforme o tempo passa, mais as ideias destrutivas de Tyler Durden vão tomando conta da mente do narrador.

INÍCIO ARREBATADOR

O início de “Clube da Luta” é um dos mais arrebatadores que já li. É uma antecipação do clímax da história. Tyler Durden coloca uma arma dentro da boca do narrador, em cima do prédio mais alto do mundo, que está prestes a desabar em um atentado terrorista.

Confesso que após esse início empolgante a narrativa chegou a me entediar um pouco por causa de seu tom extremamente pessimista, com personagens derrotistas, que pareciam fadados ao eterno fracasso. Porém, voltei a me empolgar depois que Tyler decide dar um passo adiante no Clube da Luta e cria o Projeto Desordem e Destruição.

Eu me lembro que quando assisti ao filme, lá pelos meus 20 e poucos anos, dizia: “é isso aí, Tyler! É preciso destruir tudo para reconstruir algo novo em cima de seus escombros”. (Gostava tanto do filme que eu tinha até uma camiseta do Tyler que brilhava no escuro).

Hoje, já com os meus quase 40 anos, lendo o livro, não tenho mais certeza de que penso assim. Ainda mais depois de ver a invasão do Capitólio e que, entre os manifestantes, estava um sujeito vestido como um bárbaro viking.

É até engraçado ver como o homem moderno sempre que se sente frustrado tem esse desejo de retornar ao estado de natureza (o mesmo que ele próprio destruiu), como diz o livro “TAZ Zona Autônoma Temporária”, de Hakim Bey, cuja leitura, aliás, eu recomendo muito.

Na verdade, eu acho que não precisamos jogar a água suja do banho com o bebê junto. O próprio narrador percebe que a coisa toda está fugindo do controle e que o Projeto Desordem e Destruição é uma receita para o desastre total. Mas pode ser que seja tarde demais para deter Tyler.

Por causa desse despertar do narrador, acredito que o Clube da Luta pode ser um alerta sobre o rumo que a nossa sociedade cada vez mais consumista está tomando, como escrevi no início desta resenha.

É claro que uma obra de arte pode ter “n” interpretações. Porém, não concordo, como muitos têm comentado ultimamente, que o autor tenha feito apologias ao fascismo, à homofobia e à misoginia. Ou que Palahniuk tenha escrito um livro doutrinário, para incentivar a criação de um Projeto Desordem e Destruição no mundo real. Os personagens de um romance não pensam necessariamente como o escritor, pelo amor de Deus!

ESTILO

O mergulho na mente do narrador é uma das seduções da escrita de Palahniuk. Existem muitas repetições de ideias no texto, o que costuma me incomodar um pouco. Mas neste caso  isso não ocorre por inexperiência ou pela insegurança de que o leitor não está entendendo do que se trata a história. Acredito que seja intencional, para nós sentirmos a mente doentia do protagonista.

Outra coisa que nos prende no estilo de Palahniuk é que o livro tem um pouco de skaz, uma técnica que emula o jeito como o personagem falaria, como se estivesse conversando informalmente com o leitor e este fosse um velho conhecido.

As frases e parágrafos curtos — às vezes com uma palavra só — aumentam a sensação de violência do texto, como se fossem socos. É uma narrativa crua, muitas vezes suja, carregada de niilismo e existencialismo, de uma maneira incômoda que eu só tinha sentido ao ler “Trainspotting” de Irvine Welsh.

“Clube da Luta” tem uma grande reviravolta no enredo, um pouco depois da metade do livro. Se você for um leitor atento, vai conseguir identificar as várias pistas que o autor vai deixando ao longo da história até o plot twist.

Enfim, “Clube da Luta” é um ótimo livro.

Já leu “Clube da Luta”? O que achou desta resenha? Deixe seu comentário e curta este post!

Resenha #9: “Mitologia Nórdica” de Neil Gaiman

Assim como o escritor Neil Gaiman conta na apresentação deste livro, o pouco que eu conhecia sobre a mitologia nórdica vinha dos quadrinhos do Thor, da Marvel. Lembro-me também vagamente de falarem de Odin em uma das sagas dos Cavaleiros do Zodíaco.

Com um rico conhecimento sobre o assunto, Gaiman usa suas habilidades de grande contador de histórias para nos apresentar um panteão de deuses e lendas magníficas em contos que possuem elementos de vários gêneros literários, como humor, tragédia, romance e policial.

Da mesma forma como a Bíblia, a mitologia nórdica tem histórias sobre o princípio de tudo e o fim de todas as coisas (Ragnarök) — o que na verdade é um recomeço. Como os mitos costumam fazer, existem explicações sobre diversas coisas, como o motivo pelo qual temos terremotos e de onde vem a inspiração para poemas.

Ao contrário dos quadrinhos, os deuses nórdicos não são tão nobres e nem sempre gentis. Eles são mais parecidos com as divindades gregas, que têm relacionamentos complicados e defeitos, como nós humanos mortais.

Alguns contos são muito engraçados. Um deles, por exemplo, é sobre Thor se vestindo de noiva para ir recuperar seu martelo Mjölnir no mundo dos gigantes (Jötunheim). Por outro lado, “A Morte de Balder” é a história mais triste do livro.

LEITURA AGRADÁVEL

A leitura é muito fácil e agradável. Devorei “Mitologia Nórdica” em poucos dias. Gaiman é muito bom em nos enredar na narrativa, deixando sempre uma pergunta na cabeça do leitor sobre o que vai acontecer depois. Dessa forma, é impossível largar o livro.

A única coisa que me incomodou no início foi a repetição sobre quem são os personagens, o que aconteceu com eles, em alguns dos contos. Porém, isso é compreensível, pois o leitor pode ler o livro do começo ao fim, como foi o meu caso, ou escolher contos aleatoriamente. Assim, ele não ficará tão perdido se optar por esta última forma.

Nas três primeiras histórias, temos um estilo diferente do que estamos acostumados quando lemos as obras do Neil Gaiman. Ele mais conta do que mostra. Lembra até o Gênesis, se formos traçar mais um paralelo com a Bíblia. (Bem como o final me parece um tanto profético, tal qual o Apocalipse). Mas esses contos são necessários para contextualizar o mundo que iremos adentrar em breve.

“Mitologia Nórdica” é uma forma muito boa de se iniciar nesse universo e também de passar horas a fio se divertindo com ótimas histórias.

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Resenha #8: “Os Inocentes” de Hermann Broch

As sinopses que se encontram na orelha e na contracapa da edição da Rocco (1988) do romance “Os Inocentes”, do escritor austríaco Hermann Broch, podem ser enganosas. Não quero dizer que o que está escrito ali esteja errado. Porém, o livro não se resume a um único enredo e a apenas uma ideia, como esses textos dão a entender. Pelo contrário. É possível fazer inúmeras reflexões a partir da leitura desta grande obra.

O romance é multiplot, ou seja, existem várias tramas envolvendo diversos personagens. Eles são apresentados em contos que, a princípio, parecem ser totalmente independentes, colocados aleatoriamente. No entanto, as histórias dessas pessoas vão acabar se cruzando ao longo da narrativa.

Aliás, todos os enredos são muito bem amarrados. Nada colocado em uma cena ou descrição é gratuito. Se o leitor for perspicaz e atento aos mínimos detalhes, será alegremente recompensado pelo autor. Sugiro que você faça anotações enquanto vai lendo o livro. Vale muito a pena, pois, ao voltar a elas, você irá perceber como tudo se encaixa.

PERSONAGENS

A. (ou Andreas) é um dos protagonistas do romance. Ele é uma pessoa que não gosta de tomar decisões e, consequentemente, ter responsabilidades. Prefere ser levado pelo destino e ter uma vida amena. Foi assim que conseguiu ganhar muito dinheiro como negociante de pedras preciosas na África do Sul.

Enquanto Hitler ascendia na Alemanha, A. ganhava dinheiro. Enquanto os bolcheviques chegavam ao poder na Rússia, A. ganhava dinheiro. Porém, por sua causa, algo terrível acontece a uma moça humilde e doce. Apesar de não ter intenção de fazer mal à garota e tentar não pensar mais no que houve, um dia, o tribunal de sua consciência irá cobrar um preço alto pela sua indiferença.

Outra personagem importante é Zerline, que é criada da baronesa W. e de sua filha bastarda Hildegard. Ela nutre um ódio mortal pelas duas. Invejosa e perversa, Zerline conhece muitos segredos sórdidos dessa família alemã tradicional. Sua raiva pela baronesa irá até as últimas consequências.

Já o professor titular Zacharias representa o espírito político da Alemanha no entre guerras. Embora pertença ao partido socialdemocrata, suas ideias estão sendo distorcidas por um nacionalismo e conservadorismo exagerados. Com seus filhos e alunos, Zacharias é muito autoritário. Mas o leitor vai descobrir logo que, pelo menos em sua casa, ele é o típico oprimido que deseja ser opressor.

MODERNISTA

Como um bom escritor modernista, Hermann Broch desafia a forma como o romance é escrito. O livro é dividido em três partes: Pré-Histórias, Histórias e Pós-Histórias. Cada uma dessas partes é iniciada por um poema de versos brancos e livres chamado Vozes.

Porém, não existe experimentalismos de vanguarda na linguagem da obra. O texto é bastante claro e muitas vezes poético, embora as frases e os parágrafos sejam grandes e exijam um certo fôlego do leitor.

Existem algumas digressões no meio da narrativa. Elas são curtas e estão de alguma forma ligadas ao personagem que conduz a cena. Porém, não são cansativas como as digressões costumam ser. A maioria são reflexões profundamente filosóficas a respeito de metafísica, sobre o tempo, o espaço e o ser, que nos retiram do senso comum e, em outras palavras, fazem nossa cabeça explodir.

IDEIAS

As ideias que são debatidas no romance após mais de 70 anos ainda são atuais. Uma delas é o problema que a indiferença ao autoritarismo pode causar. Todos os personagens do livro são “inocentes” no sentido de não terem envolvimento direto com o nazismo. Entretanto, essa postura “isentona” de muitos alemães na época permitiu os horrores praticados por Hitler e seus seguidores.

Outra ideia muito presente no livro é a capacidade do ser humano, mesmo após várias gerações, de praticar atrocidades contra o próximo. É possível também perceber o choque entre o passado – símbolo de orgulho para muitos – e a modernidade na cidadezinha alemã onde se passa a narrativa, bem como o clima do entre guerras, com paranoia e inflação crescentes.

Resenha #7: “O Último Desejo: A Saga do Bruxo Geralt de Rívia – Volume 1” de Andrzej Sapkowski

Uma das perguntas que me fiz ao terminar de ler “O Último Desejo”, o primeiro livro da saga The Witcher, do escritor polonês Andrzej Sapkowski, foi esta: quem são os verdadeiros monstros nesta história? As criaturas fantásticas ou os humanos?

O protagonista Geralt de Rívia é um bruxo, mas não se deve confundi-lo com um feiticeiro ou mago. Seu ofício por natureza é caçar monstros, sendo que não se pode dizer que ele é um humano normal, uma vez que foi forçado desde criança a se tornar um “mutante”.

Por conta disso, ele não é bem-vindo em praticamente nenhum lugar aonde vai, embora seu trabalho faça a vida das pessoas ser mais segura. Mesmo sofrendo preconceitos, Geralt acredita pacientemente nos homens e busca ser igual a eles, o que nem sempre é bom, já que o leva a cometer os erros humanos e se afastar das virtudes de um bruxo.

No mundo em que vive, os monstros estão ficando raros. O que mais Geralt encontra ou é contratado para eliminar são pessoas que foram amaldiçoadas e se tornaram criaturas horríveis. O bruxo de Rívia, porém, tem um código moral pessoal: não mata seres humanos sem qualquer motivo, mesmo transformados em monstros, nem criaturas racionais.

Uma passagem do livro que me chamou a atenção e me fez refletir um pouco foi um diálogo entre Geralt e o elfo Filavandrel, em uma circunstância complicada para o bruxo, no conto “Os Confins do Mundo”. O elfo diz que sua raça sempre tratou o que a natureza oferece como se fosse um tesouro. Já os homens buscam feri-la para obter seus benefícios.

Série X Livro

Eu não conhecia os livros de Sapkowski antes de assistir a série da Netflix, que achei muito boa por sinal. Para mim, a série tinha se inspirado nos jogos de videogame, que também fazem muito sucesso. “O Último Desejo” é formado por contos que não estão em ordem cronológica, assim como as histórias do Conan de Robert E. Howard, e que narram vários momentos importantes da vida de Geralt de Rívia. Os contos são intercalados por uma história em partes, chamada “A Voz da Razão”.

Alguns personagens da série de TV estão neste primeiro livro, como a feiticeira Yennefer e o trovador Jaskier. Aliás, Jaskier me garantiu algumas boas risadas durante a leitura. Ele e o bruxo parecem ser mais amigos nos contos do que na série. Geralt me pareceu mais bem humorado também. Quem já assistiu a série vai reparar que alguns episódios foram inspirados em histórias que estão neste volume.

A escrita de Sapkowski é leve e fácil. Existem muitos diálogos, o que faz o texto ser bastante arejado. Ao contrário do que já ouvi, os diálogos me pareceram bastante naturais, com muito uso do coloquialismo. As descrições são feitas com bastante imersão sensorial. Os personagens nos são apresentados fisicamente com algumas “pinceladas”, que vão, aos poucos, formando uma figura completa na imaginação do leitor.

Outra coisa legal é o uso de personagens do folclore eslavo e alusões aos contos de fada, como a Branca de Neve e os Sete Anões, Rapunzel, A Bela e a Fera, que são apresentados de uma forma mais semelhante com as histórias originais, que eram mais sombrias e menos romantizadas.

“Mal Menor”

Meu conto preferido foi “O Mal Menor”. No começo da história, Geralt acredita que existe apenas o mal. Mas, uma mulher chamada Renfri, que já foi princesa um dia, ensinará a ele, da forma mais dolorosa possível, que além de sempre existir um mal menor nas decisões que tomamos, existe um mal superior a todos os outros.

Gostei muito deste primeiro volume da saga e pretendo ler o segundo em breve.

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Resenha #6: “Androides sonham com ovelhas elétricas?” de Philip K. Dick

Eu até que tentei, mas a comparação entre o livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick, com sua adaptação cinematográfica “Blade Runner”, de Ridley Scott, é inevitável.

Apesar de algumas semelhanças, acredito que as diferenças entre livro e filme são maiores. A começar pelos títulos. O nome “Blade Runner” foi tirado de uma obra do escritor beat William S. Burroughs que, convenhamos, tem muito mais apelo comercial do que o título original, embora este seja extremamente brilhante.

Outro contraste está no protagonista, Rick Deckard. No livro de PKD, Deckard me parece mais com o estereótipo daqueles policiais americanos acima do peso, prestes a se aposentar e amantes de donuts. Muito diferente do Harrison Ford em seu auge.

Para mim, tanto o filme, quanto o livro, são obras-primas. Mas vou me ater um pouco mais ao livro nesta resenha.

CAÇADOR DE RECOMPENSAS

A Terra foi praticamente devastada após a Guerra Mundial Terminus. Quem sobreviveu e resolveu ficar precisa conviver com uma poeira radiotiva. O governo incentiva as pessoas a irem para as colônias em Marte e até oferece um androide como mão de obra escrava para quem aceitar partir.

No entanto, os modelos de androides estão tão sofisticados que já se tornou difícil saber quem é humano ou não. Os Nexus-6 são tão semelhantes que alguns deles, liderados pelo messiânico Roy Baty, fugiram para a Terra e estão se passando por humanos.

Rick Deckard é um caçador de recompensas e recebe a missão de aposentar, ou seja, de destruir seis Nexus-6, após estes ferirem gravemente outro caçador.

Deckard aceita o trabalho, que vai lhe render dinheiro suficiente para comprar um animal de verdade. A vida na Terra é tão rara após a Guerra Mundial Terminus que ter um animal de verdade é sinal de status. Serve para fazer inveja aos vizinhos.

Assim como muita gente, para manter as aparências, Deckard tem uma ovelha elétrica – um animal artificial, mas muito semelhante a um genuíno.

Porém, após se relacionar com uma androide chamada Rachael Rosen, o que é ilegal, Deckard começa a se questionar sobre seu ganha-pão.

O QUE É REAL?

Um dos temas de “Androides sonham com ovelhas elétricas?” é a pergunta filosófica: o que é real?

Essa dúvida permeia todo o livro: o animal do vizinho é de verdade ou é elétrico? Fulano de tal é um androide ou não? Até as emoções são artificiais. As pessoas no mundo criado por PKD se conectam a sintetizadores de ânimos para terem sentimentos (alguém mais pensou em antidepressivos?).

A empatia é uma forma de confirmar se alguém suspeito é um androide ou não. Existe um teste para isso, chamado Voight-Kampff, que é utilizado por caçadores de recompensa como Deckard.

Mas dá mesmo para dizer que os seres humanos do livro de PKD têm empatia? Para terem empatia, eles precisam se conectar a uma espécie de guru chamado Wilbur Mercer, meio Buda, meio Jesus Cristo, através de uma caixa de empatia.

Além disso, existem algumas pessoas que foram drasticamente afetadas pela poeira e se tornaram especiais, conhecidos também pejorativamente como “cerébros de galinha”.

Em um momento da narrativa, até eu mesmo comecei a desconfiar que todos os personagens que apareciam eram androides. Até o próprio Deckard. E se em uma de suas missões Deckard matou um humano por engano? Afinal, o teste Voight-Kampff é um dos vários testes de empatia e sua eficácia está sendo questionada.

O que nos leva a outra pergunta: qual é essência do ser humano? No universo de “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, os humanos parecem ter perdido o interesse em viver, enquanto os androides buscam ser iguais aos humanos.

ESCRITA

Gostei da forma como PKD me fez imergir no livro com suas palavras. O mundo criado por ele é tão vívido, que tive a sensação de poder tocá-lo. Senti-me no apartamento de Isidore, um “cérebro de galinha” muito importante na narrativa.

Sei que a Terra mostrada na obra é horrível, mas achei a escrita do autor muito agradável, a ponto de querer morar no livro e passar os dias assistindo aos eternos programas do Buster Gente Fina.

Acredito que nos identificamos com os personagens e com o universo criados por PKD, pois ele mistura elementos futuristas com coisas semelhantes com o nosso cotidiano, como acordar para ir trabalhar, e com reflexões que costumamos fazer frequentemente.

Ao contrário do que muitos me disseram, não achei a leitura difícil. Pelo contrário. Achei muito fácil de ler e com muitas informações sobre a realidade em que os personagens vivem.

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Resenha #5: “Os 300 de Esparta” de Frank Miller e Lynn Varley

Resenha #5: "Os 300 de Esparta" de de Frank Miller e Lynn Varley

A graphic novel “Os 300 de Esparta” de Frank Miller e Lynn Varley é, principalmente, uma história sobre resistência.

A HQ retrata a Batalha das Termópilas, ocorrida em 480 a.C. e que foi registrada pelo historiador grego Heródoto, quando 300 guerreiros espartanos, comandados pelo rei Leônidas, tentam impedir o avanço do imperador persa Xerxes sobre o território grego.

Mas não pense que a graphic novel é baseada fielmente em fatos históricos, até porque é muito difícil afirmar com toda a certeza o que aconteceu realmente nesse episódio.

Frank Miller faz uma adaptação do evento, um pouco romantizada até, transformando-o em um verdadeiro épico de coragem e determinação de um povo que não aceita se curvar. 

Espartanos X Persas

A Grécia é apresentada por Miller como o único lugar do mundo, na época, governado pelos princípios de Justiça, Razão e Liberdade. Mas ao contrário dos demais gregos, além desses valores, os espartanos têm a guerra como ofício. O exército de Esparta só admite os melhores e o treinamento deles é rigoroso. Fraqueza, piedade e medo não são sentimentos aceitos. 

Seu líder é o rei Leônidas, o protagonista da HQ. Criado desde cedo para ser um guerreiro, Leônidas é um rei austero. Porém, como todo grego de seu tempo, tinha muito apreço pela moderação e não admitia excessos. Por isso, ele é mostrado como um homem muito justo. 

Por outro lado, o inimigo de Esparta, o Império Persa é tirânico e selvagem. O imperador Xerxes acredita ser um deus e deseja expandir seu território, que já possui mais de cem nações. 

Xerxes quer que Esparta e toda a Grécia se curvem a ele. Entretanto, apesar de estarem em número menor, Esparta não aceita fazer parte do Império Persa. 

O exército espartano, então, com apenas 300 homens, enfrenta sem recuar os milhares de guerreiros persas, provocando-os sempre e derrotando-os humilhantemente. 

"Os 300 de Esparta"

Melhor fase de Miller

Acredito que Miller está na sua melhor fase como roteirista e desenhista nesta HQ. Sou muito fã de seu traço original, de seus enquadramentos, que, aliás, se transformaram em verdadeiras obras de arte com a pintura de Varley. Para mim, o formato widescreen e a narrativa de “300” continuaa inovadores ainda nos dias de hoje. 

A HQ foi publicada pela primeira vez em 1998 pela Dark Horse. Tanta qualidade lhe valeu um prêmio Eisner de melhor minissérie no ano seguinte. No Brasil, a Editora Abril a publicou em cinco edições e, depois, a Devir a reeditou em volume único. Em 2007, “Os 300 de Esparta” foi adaptado para o cinema pelas mãos Zack Snyder.

Quem ama quadrinhos de verdade não pode deixar de ler esta obra-prima sobre um povo que nega ter sua liberdade esmagada por um império poderoso e autoritário, nem que isso lhe custe preciosas vidas. 

"Os 300 de Esparta"

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