
— Esses garçons robôs estão piores a cada dia que passa, você não acha? — perguntou Flávio.
— Como você sabe que ele é um garçom robô? — questionou Raquel.
— Há uma certa frieza nos gestos dele.
— Não reparei. Os novos modelos são tão reais que a gente já não consegue mais saber quem é humano.
— Pelo jeito, a inteligência artificial deles já desenvolveu a preguiça humana.
— Para mim, quando o robô não é eficaz, tem que ser mandado para um ferro-velho e virar sucata.
— Assim como você fez com seus óculos escapistas? — questionou Flávio, rindo.
— Sim. Se deu defeito, joga fora e compra outro. São só objetos, não pessoas.
Depois de uma hora, o garçom foi até o casal, equilibrando a travessa nas pontas dos dedos de uma das mãos. A fumaça quente espalhou o cheiro de queijo derretido assim que ele colocou a pizza sobre a mesa. Em seguida, o garçom destampou uma garrafa de vinho e encheu as duas taças. Em meio a uma leve música de violino, vozes, risadas e o tilintar de talheres das outras mesas se misturavam no ambiente.
— O pizzaiolo deve ser um robô também — afirmou Flávio, de boca cheia. Que pizza sem graça! Vou detonar esse lugar na holonet.
— Não está tão sem graça assim. O recheio da… o recheio da… o recheio da… o recheio da…
A mão de Raquel, segurando o garfo com uma fatia de pizza, ficou parada próximo da boca, enquanto ela repetia dezenas de vezes a mesma frase.
— Ah, não! Não é possível que isso foi acontecer logo agora!
Flávio retirou o garfo das mãos de Raquel e apertou o dispositivo que a desligava. A cabeça e os braços dela tombaram imediatamente.
Ele ficou com muita raiva. Faziam só três meses que havia comprado sua Amor Elétrico e ela já apresentava defeito. Ainda bem que estava na garantia.
O garçom o ajudou a carregá-la pela passarela suspensa até o aircar. Ele comentou rapidamente com Flávio que não se produziam mais robôs como antigamente. Os modelos mais velhos eram feios, mas eficazes, disse ele.
Ao chegar ao seu microapartamento, Flávio colocou Raquel na cama e a despiu. Tirou a roupa também e decidiu ligá-la, para verificar se ela tinha voltado ao normal.
— O recheio da… o recheio da… o recheio da…
Teria mesmo que levá-la ao conserto ou pedir uma troca.
Flávio quis arremessar a robô contra uma das quatro paredes do microapartamento e vê-la quebrar em mil pedaços, assim como fazia com outros produtos eletrônicos que davam defeito. Porém, alguma coisa nela o impedia de fazer aquilo. Não sabia bem o quê.
Lembrou-se de como se sentia solitário antes de comprar Raquel. A correria do trabalho não o deixava sair, fazer amigos ou arranjar uma namorada. Seu tempo livre era para a holonet e compras virtuais.
O anúncio que viu dizia que a Amor Elétrico iria resolver todos os seus problemas sentimentais. Era uma febre entre os homens solteiros como ele. Porém, estava insatisfeito com o produto. Iria fazer uma reclamação ao serviço de atendimento ao consumidor da fábrica Eletric Flowers e classificá-la com apenas uma estrela na holonet.
Ele se afundou na maciez do colchão. Ao seu lado, estava Raquel desligada, como uma morta.
***
Raquel acordou sentindo muito frio. Virou para o lado e, ao tentar puxar o cobertor, percebeu que não estava em sua cama, mas sim, em cima de uma dura mesa de alumínio O brilho intenso da lâmpada ofuscou sua visão. Escutou o bater de ferramentas e se levantou assustada.
Ao olhar para o lado, viu um homem de frente para um balcão, todo vestido de branco. Ele parecia manipular algum objeto. “Será que sofri um acidente?”, ela se perguntou. Porém, o cheiro do lugar era mais parecido com o de um aparelho de holonet queimado do que com o aroma esterilizado de um hospital.
— O senhor poderia me dizer onde estou? — perguntou Raquel ao desconhecido.
O homem se virou rapidamente.
— Droga! Ela reiniciou sozinha! — disse.
O homem largou a chave de rosca que usava sobre o balcão e correu em direção à Raquel, que pulou para trás da mesa.
— Peraí, o que você quer fazer comigo? — Pode me explicar o que está acontecendo, pelo amor de Deus?
— Você não sabe, não é mesmo? A maioria não sabe — ele falou, se aproximando mais devagar.
— Saber o quê?
— Você é uma robô. Uma Amor Elétrico, para ser mais preciso. Você está em uma assistência técnica autorizada da Eletric Flowers.
Raquel começou a rir.
— Ok, acabou a palhaçada! Muito engraçada a pegadinha. Cadê o Flávio?
— O seu proprietário…
— Proprietário o cacete! Ele é meu marido!
— Ele a deixou aqui para o conserto faz mais de vinte dias e ainda não veio te buscar. Talvez não tenha dinheiro para…
— Para com essa droga, cara! Cadê o meu marido? Eu vou matar ele por essa brincadeira. E você também!
— Calma! Eu não estou mentindo.
O homem abriu seu holonet e mostrou um mapa que indicava que estavam em uma oficina.
— Olhe ao seu redor. Como você iria parar naquela mesa se não fosse um robô?
Raquel sentiu um frio na barriga e teve uma desesperada vontade de chorar.
— Você está mentindo! Eu lembro dos meus pais. Tenho recordações do meu pai me ensinando a andar de bicicleta, da minha mãe tentando me ensinar a costurar.
— Qual foi a última vez que você os viu?
— Eles já morreram faz tempo, mas eu lembro do velório e do enterro, o quanto chorei…
— Tudo que você acha que viveu foi programado pela Eletric Flowers. A tecnologia deles é tão avançada, que é capaz de te fazer lembrar de cheiros, gostos e sons. Nada disso aconteceu. Seus pais não existem.
— E o primeiro encontro com o meu marido? Eu me lembro bem até hoje.
— O homem que aparece nas suas lembranças é só um boneco 3D com o rosto do seu marido, que foi escaneado nos mínimos detalhes, assim como todo o corpo dele.
— Então toda a minha vida é uma grande mentira? — Ela já não resistia mais ao choro.
— Mas isso foi só um mal entendido — disse o funcionário da oficina, se aproximando de Raquel. Eu vou apertar o dispositivo que está embaixo da pele do seu pulso direito e você será desligada. Juro que vou destruir a memória do que aconteceu aqui e você poderá ser feliz novamente com o seu propr… marido.
— Não! Sai de perto de mim — gritou Raquel.
A mulher correu para a porta, só que estava trancada e só a leitura da mão de alguém autorizado poderia abri-la. O funcionário quase a agarrou, porém, Raquel conseguiu escapar. Não havia mais saída na oficina. Ela foi se afastando devagar até encostar no balcão. Ao olhar para o lado, viu uma chave de rosca sobre a bancada. Pegou-a e acertou a testa do homem, que caiu desacordado.
Raquel estremeceu.
— Ai, meu Deus, o que eu fiz?
Ela não tinha tempo para pensar nisso. Aproximou-se do homem e viu que ele estava respirando. Em seguida, o arrastou pelos braços até a porta. Apesar de ser magro, puxá-lo não foi uma tarefa fácil. Com muita dificuldade, Raquel conseguiu sentá-lo e colocar a palma da mão dele no leitor da porta.
Ela seguiu por um corredor e entrou no primeiro turbo elevador que encontrou.
Na oficina, o homem acordou. O sangue percorria seu rosto do ferimento até o queixo. Ele mandou um aviso pela holonet com uma foto de Raquel, dando conta da fuga de uma robô da Eletric Flowers.
Entretanto, já era tarde. Raquel tinha conseguido fugir do megaedifício há muitas horas.
***
A brisa da noite tocou sua pele. “Como pode um robô sentir o vento?”, Raquel perguntou a si mesma, caminhando até a aeroestação.
Lá, pegou um airtrain para a região da cidade onde ficava o megaedifício em que morava. Com certeza, ao chegar em casa, Flávio diria que foi tudo um grande engano e as coisas iriam voltar ao normal. Depois, ela procuraria um bom advogado para ver as medidas cabíveis contra a Eletric Flowers.
Enquanto o airtrain passava entre as estações, Raquel pensou sobre sua existência. Aquela experiência a fez refletir sobre si mesma pela primeira vez em muito tempo. Sempre viveu no automático, apenas reagindo ao que acontecia. Agora, queria saber quem ela realmente era, seu papel no mundo e o que poderia fazer melhor dali para frente.
O apartamento número 3.436.220 era o seu. O leitor da fechadura escaneou a mão de Raquel e destrancou a porta. Ao abri-la, ela viu Flávio com outra mulher na cama.
— Raquel! — disse Flávio. O que você está fazendo aqui?
— Aqui é a minha casa. O que ela está fazendo aí com você?
— Quem é essa mulher, Flávio? — disse a garota na cama, cobrindo os seios com o edredom.
— É que… não era para você estar aqui…
— Por que não era para eu estar aqui?
Flávio tentou responder, mas se engasgou com as palavras.
— É por que eu sou uma robô, não é? Uma Amor Elétrico?
— O quê? — perguntou a outra garota, já se vestindo. Você é desses pervertidos que transam com bonecas?
— Não… espere… eu…
— Cala a boca, seu otário — disse a garota saindo do microapartamento, esbarrando seu ombro no de Raquel ao passar pela porta.
— Raquel… eu posso explicar… Essa garota… não é nada para mim. Eu conheci ela em uma sala de encontros da holonet.
Flávio se levantou, enrolado na coberta, e caminhou na direção de Raquel.
— Não me olhe assim — disse ele.
Ao tentar pegar o braço dela pelo pulso direito, Raquel se esquivou.
— Tira a mão de mim, seu escroto!
Raquel bateu a porta na cara de Flávio, apesar dos protestos dele para ela esperar.
***
Esperou o airtrain passar para ir até o parapeito da ponte do Viaduto do Chá. Lembrou-se de que seu avô lhe contou que se recordava de quando a ponte era sustentada por concreto e aço e não suspensa no ar, como era agora. Sua altura também era menor, ele dizia.
Mas seu avô nunca existiu. Será que os rostos e corpos usados como modelos para suas memórias programadas eram reais? Ela poderia encontrar os donos dos rostos de seus pais por aí? Ou era tudo criado a partir de retalhos de características de várias pessoas de verdade?
Olhou para baixo e se lembrou do pai que criaram para ela. Ele lhe disse, uma vez, que se matar era errado e punido por Deus. Será que Deus também ouvia as preces de um robô? Havia um lugar para os robôs no céu ou no inferno após serem desligados definitivamente?
O desamparo e a possibilidade de um eterno nada a angustiaram, mas ela preferia isso a viver como um eletrodoméstico. Quando se esborrachasse no chão, iria se tornar apenas um monte de peças quebradas, impossíveis de serem consertadas. Durante a queda, apertaria seu pulso para se desligar e não sentir o fim.
Ela subiu no parapeito. O vento zumbindo soprou seus cabelos. Inspirou o cheiro podre do rio Tietê, que contaminava toda a cidade e olhou para baixo novamente. Sob uma luz amarelada, carros de modelos antigos com quatro rodas e pessoas marginalizadas se movimentavam como em um formigueiro. Ela abriu os braços e fechou os olhos.
— Cuidado, moça, você pode cair — gritou um rapaz que passava pelo local.
Raquel olhou para ele sobre o ombro. Era um jovem de cabelos pretos vestindo uma jaqueta marrom, segurando a alça de uma mochila com uma mão. A outra estava estendida para ela.
— Cair? É isso mesmo que eu quero. Quero cair e morrer!
— Não sei qual o motivo, mas seja lá qual for, não vale a pena, moça.
— Eu não sou uma moça. Sou um robô.
— Eu também…
Raquel olhou para ele, espantada.
— Meu nome é Roberto — ele continuou. Eu trabalho em um serviço de atendimento ao consumidor aqui perto. Fiz milhares de perguntas quando descobri que era robô. Pensei em me matar, assim como você.
— E o que te fez mudar de ideia? A gente não é real.
— Claro que somos reais! Nós sentimos, pensamos e refletimos. Não importa qual foi sua origem, estar vivo é uma dádiva. Olhe só para esse céu.
Raquel observou as estrelas.
— Poder ver esse céu é um privilégio. É um dos poucos prazeres desse mundo que não precisamos pagar para ter.
— Como você consegue seguir em frente?
— No começo foi difícil. Tive que trocar de nome, endereço, trabalho, me passar por humano, mas valeu o esforço. Se a vida parece não ter sentido, cabe a nós darmos sentido a ela. Procuro a cada dia um novo propósito.
— Mas um robô será sempre inferior a um humano.
— Claro que não! Em muitas coisas, a gente é até melhor. Somos muitos e existem vários de nós que fugiram de seus proprietários e tentam ter uma vida normal. Acho que somos a evolução e um dia ainda estaremos no topo do mundo.
Raquel riu com os olhos cheios de lágrimas.
— Vamos, desça daí!
Ela deu a mão para Roberto e pulou do parapeito.
— Eu não tenho para onde ir.
— Você pode ficar no meu microapartamento por enquanto, se você quiser, é claro. Se você vier, posso te apresentar alguns de nós para te ajudar a recomeçar.
Raquel pensou um pouco e percebeu que não tinha nada a perder seguindo aquele rapaz.
Conto originalmente publicado na edição 6 da revista Literomancia














