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Amor Elétrico

— Esses garçons robôs estão piores a cada dia que passa, você não acha? — perguntou Flávio.

— Como você sabe que ele é um garçom robô? — questionou Raquel.

— Há uma certa frieza nos gestos dele.

— Não reparei. Os novos modelos são tão reais que a gente já não consegue mais saber quem é humano.

— Pelo jeito, a inteligência artificial deles já desenvolveu a preguiça humana.

— Para mim, quando o robô não é eficaz, tem que ser mandado para um ferro-velho e virar sucata.

— Assim como você fez com seus óculos escapistas? — questionou Flávio, rindo.

— Sim. Se deu defeito, joga fora e compra outro. São só objetos, não pessoas.

Depois de uma hora, o garçom foi até o casal, equilibrando a travessa nas pontas dos dedos de uma das mãos. A fumaça quente espalhou o cheiro de queijo derretido assim que ele colocou a pizza sobre a mesa.  Em seguida, o garçom destampou uma garrafa de vinho e encheu as duas taças. Em meio a uma leve música de violino, vozes, risadas e o tilintar de talheres das outras mesas se misturavam no ambiente.

— O pizzaiolo deve ser um robô também — afirmou Flávio, de boca cheia. Que pizza sem graça! Vou detonar esse lugar na holonet.

— Não está tão sem graça assim. O recheio da… o recheio da… o recheio da… o recheio da…

A mão de Raquel, segurando o garfo com uma fatia de pizza, ficou parada próximo da boca, enquanto ela repetia dezenas de vezes a mesma frase.

— Ah, não! Não é possível que isso foi acontecer logo agora!

Flávio retirou o garfo das mãos de Raquel e apertou o dispositivo que a desligava. A cabeça e os braços dela tombaram imediatamente.

Ele ficou com muita raiva. Faziam só três meses que havia comprado sua Amor Elétrico e ela já apresentava defeito. Ainda bem que estava na garantia.

O garçom o ajudou a carregá-la pela passarela suspensa até o aircar. Ele comentou rapidamente com Flávio que não se produziam mais robôs como antigamente. Os modelos mais velhos eram feios, mas eficazes, disse ele.

Ao chegar ao seu microapartamento, Flávio colocou Raquel na cama e a despiu. Tirou a roupa também e decidiu ligá-la, para verificar se ela tinha voltado ao normal.

— O recheio da… o recheio da… o recheio da…

Teria mesmo que levá-la ao conserto ou pedir uma troca.

Flávio quis arremessar a robô contra uma das quatro paredes do microapartamento e vê-la quebrar em mil pedaços, assim como fazia com outros produtos eletrônicos que davam defeito. Porém, alguma coisa nela o impedia de fazer aquilo. Não sabia bem o quê.

Lembrou-se de como se sentia solitário antes de comprar Raquel. A correria do trabalho não o deixava sair, fazer amigos ou arranjar uma namorada. Seu tempo livre era para a holonet e compras virtuais.

O anúncio que viu dizia que a Amor Elétrico iria resolver todos os seus problemas sentimentais. Era uma febre entre os homens solteiros como ele. Porém, estava insatisfeito com o produto. Iria fazer uma reclamação ao serviço de atendimento ao consumidor da fábrica Eletric Flowers e classificá-la com apenas uma estrela na holonet.

Ele se afundou na maciez do colchão. Ao seu lado, estava Raquel desligada, como uma morta. 

***

Raquel acordou sentindo muito frio. Virou para o lado e, ao tentar puxar o cobertor, percebeu que não estava em sua cama, mas sim, em cima de uma dura mesa de alumínio  O brilho intenso da lâmpada ofuscou sua visão. Escutou o bater de ferramentas e se levantou assustada.

Ao olhar para o lado, viu um homem de frente para um balcão, todo vestido de branco. Ele parecia manipular algum objeto. “Será que sofri um acidente?”, ela se perguntou. Porém, o cheiro do lugar era mais parecido com o de um aparelho de holonet queimado do que com o aroma esterilizado de um hospital.

— O senhor poderia me dizer onde estou? — perguntou Raquel ao desconhecido.

O homem se virou rapidamente.

— Droga! Ela reiniciou sozinha! — disse.

O homem largou a chave de rosca que usava sobre o balcão e correu em direção à Raquel, que pulou para trás da mesa.

— Peraí, o que você quer fazer comigo? — Pode me explicar o que está acontecendo, pelo amor de Deus?

— Você não sabe, não é mesmo? A maioria não sabe — ele falou, se aproximando mais devagar.

— Saber o quê?

— Você é uma robô. Uma Amor Elétrico, para ser mais preciso. Você está em uma assistência técnica autorizada da Eletric Flowers.

Raquel começou a rir.

— Ok, acabou a palhaçada! Muito engraçada a pegadinha. Cadê o Flávio?

— O seu proprietário…

— Proprietário o cacete! Ele é meu marido!

— Ele a deixou aqui para o conserto faz mais de vinte dias e ainda não veio te buscar. Talvez não tenha dinheiro para…

— Para com essa droga, cara! Cadê o meu marido? Eu vou matar ele por essa brincadeira. E você também!

— Calma! Eu não estou mentindo.

O homem abriu seu holonet e mostrou um mapa que indicava que estavam em uma oficina.

— Olhe ao seu redor. Como você iria parar naquela mesa se não fosse um robô?

Raquel sentiu um frio na barriga e teve uma desesperada vontade de chorar.

— Você está mentindo! Eu lembro dos meus pais. Tenho recordações do meu pai me ensinando a andar de bicicleta, da minha mãe tentando me ensinar a costurar.

— Qual foi a última vez que você os viu?

— Eles já morreram faz tempo, mas eu lembro do velório e do enterro, o quanto chorei…

— Tudo que você acha que viveu foi programado pela Eletric Flowers. A tecnologia deles é tão avançada, que é capaz de te fazer lembrar de cheiros, gostos e sons. Nada disso aconteceu. Seus pais não existem.

— E o primeiro encontro com o meu marido? Eu me lembro bem até hoje.

— O homem que aparece nas suas lembranças é só um boneco 3D com o rosto do seu marido, que foi escaneado nos mínimos detalhes, assim como todo o corpo dele.

— Então toda a minha vida é uma grande mentira? — Ela já não resistia mais ao choro.

— Mas isso foi só um mal entendido — disse o funcionário da oficina, se aproximando de Raquel. Eu vou apertar o dispositivo que está embaixo da pele do seu pulso direito e você será desligada. Juro que vou destruir a memória do que aconteceu aqui e você poderá ser feliz novamente com o seu propr… marido.

— Não! Sai de perto de mim — gritou Raquel.

 A mulher correu para a porta, só que estava trancada e só a leitura da mão de alguém autorizado poderia abri-la. O funcionário quase a agarrou, porém, Raquel conseguiu escapar. Não havia mais saída na oficina. Ela foi se afastando devagar até encostar no balcão. Ao olhar para o lado, viu uma chave de rosca sobre a bancada. Pegou-a e acertou a testa do homem, que caiu desacordado.

Raquel  estremeceu.

— Ai, meu Deus, o que eu fiz?

Ela não tinha tempo para pensar nisso. Aproximou-se do homem e viu que ele estava respirando. Em seguida, o arrastou pelos braços até a porta. Apesar de ser magro, puxá-lo não foi uma tarefa fácil. Com muita dificuldade, Raquel conseguiu sentá-lo e colocar a palma da mão dele no leitor da porta.

Ela seguiu por um corredor e entrou no primeiro turbo elevador que encontrou.

Na oficina, o homem acordou. O sangue percorria seu rosto do ferimento até o queixo. Ele mandou um aviso pela holonet com uma foto de Raquel, dando conta da fuga de uma robô da Eletric Flowers.

Entretanto, já era tarde. Raquel tinha conseguido fugir do megaedifício há muitas horas.

***

A brisa da noite tocou sua pele. “Como pode um robô sentir o vento?”, Raquel perguntou a si mesma, caminhando até a aeroestação.

Lá, pegou um airtrain para a região da cidade onde ficava o megaedifício em que morava. Com certeza, ao chegar em casa, Flávio diria que foi tudo um grande engano e as coisas iriam voltar ao normal. Depois, ela procuraria um bom advogado para ver as medidas cabíveis contra a Eletric Flowers.

Enquanto o airtrain passava entre as estações, Raquel pensou sobre sua existência. Aquela experiência a fez refletir sobre si mesma pela primeira vez em muito tempo. Sempre viveu no automático, apenas reagindo ao que acontecia. Agora, queria saber quem ela realmente era, seu papel no mundo e o que poderia fazer melhor dali para frente.

O apartamento número 3.436.220 era o seu. O leitor da fechadura escaneou a mão de Raquel e destrancou a porta. Ao abri-la, ela viu Flávio com outra mulher na cama.

— Raquel! — disse Flávio. O que você está fazendo aqui?

— Aqui é a minha casa. O que ela está fazendo aí com você?

— Quem é essa mulher, Flávio? — disse a garota na cama, cobrindo os seios com o edredom.

— É que… não era para você estar aqui…

— Por que não era para eu estar aqui?

Flávio tentou responder, mas se engasgou com as palavras.

— É por que eu sou uma robô, não é? Uma Amor Elétrico?

— O quê? — perguntou a outra garota, já se vestindo. Você é desses pervertidos que transam com bonecas?

— Não… espere… eu…

— Cala a boca, seu otário — disse a garota saindo do microapartamento, esbarrando seu ombro no de Raquel ao passar pela porta.

— Raquel… eu posso explicar… Essa garota… não é nada para mim. Eu conheci ela em uma sala de encontros da holonet.

Flávio se levantou, enrolado na coberta, e caminhou na direção de Raquel.

— Não me olhe assim — disse ele.

Ao tentar pegar o braço dela pelo pulso direito, Raquel se esquivou.

— Tira a mão de mim, seu escroto!

Raquel bateu a porta na cara de Flávio, apesar dos protestos dele para ela esperar. 

***

Esperou o airtrain passar para ir até o parapeito da ponte do Viaduto do Chá. Lembrou-se de que seu avô lhe contou que se recordava de quando a ponte era sustentada por concreto e aço e não suspensa no ar, como era agora. Sua altura também era menor, ele dizia.

Mas seu avô nunca existiu. Será que os rostos e corpos usados como modelos para suas memórias programadas eram reais? Ela poderia encontrar os donos dos rostos de seus pais por aí? Ou era tudo criado a partir de retalhos de características de várias pessoas de verdade?

Olhou para baixo e se lembrou do pai que criaram para ela. Ele lhe disse, uma vez, que se matar era errado e punido por Deus. Será que Deus também ouvia as preces de um robô? Havia um lugar para os robôs no céu ou no inferno após serem desligados definitivamente?

O desamparo e a possibilidade de um eterno nada a angustiaram, mas ela preferia isso a viver como um eletrodoméstico. Quando se esborrachasse no chão, iria se tornar apenas um monte de peças quebradas, impossíveis de serem consertadas. Durante a queda, apertaria seu pulso para se desligar e não sentir o fim.

Ela subiu no parapeito. O vento zumbindo soprou seus cabelos. Inspirou o cheiro podre do rio Tietê, que contaminava toda a cidade e olhou para baixo novamente. Sob uma luz amarelada, carros de modelos antigos com quatro rodas e pessoas marginalizadas se movimentavam como em um formigueiro. Ela abriu os braços e fechou os olhos.

— Cuidado, moça, você pode cair — gritou um rapaz que passava pelo local.

Raquel olhou para ele sobre o ombro. Era um jovem de cabelos pretos vestindo uma jaqueta marrom, segurando a alça de uma mochila com uma mão. A outra estava estendida para ela.

— Cair? É isso mesmo que eu quero. Quero cair e morrer!

— Não sei qual o motivo, mas seja lá qual for, não vale a pena, moça.

— Eu não sou uma moça. Sou um robô.

— Eu também…

Raquel olhou para ele, espantada.

— Meu nome é Roberto — ele continuou. Eu trabalho em um serviço de atendimento ao consumidor aqui perto. Fiz milhares de perguntas quando descobri que era robô. Pensei em me matar, assim como você.

— E o que te fez mudar de ideia? A gente não é real.

— Claro que somos reais! Nós sentimos, pensamos e refletimos. Não importa qual foi sua origem, estar vivo é uma dádiva. Olhe só para esse céu.

Raquel observou as estrelas.

— Poder ver esse céu é um privilégio. É um dos poucos prazeres desse mundo que não precisamos pagar para ter.

— Como você consegue seguir em frente?

— No começo foi difícil. Tive que trocar de nome, endereço, trabalho, me passar por humano, mas valeu o esforço. Se a vida parece não ter sentido, cabe a nós darmos sentido a ela. Procuro a cada dia um novo propósito.

— Mas um robô será sempre inferior a um humano.

— Claro que não! Em muitas coisas, a gente é até melhor. Somos muitos e existem vários de nós que fugiram de seus proprietários e tentam ter uma vida normal. Acho que somos a evolução e um dia ainda estaremos no topo do mundo.

Raquel riu com os olhos cheios de lágrimas.

— Vamos, desça daí!

Ela deu a mão para Roberto e pulou do parapeito.

— Eu não tenho para onde ir.

— Você pode ficar no meu microapartamento por enquanto, se você quiser, é claro. Se você vier, posso te apresentar alguns de nós para te ajudar a recomeçar.

Raquel pensou um pouco e percebeu que não tinha nada a perder seguindo aquele rapaz.

Conto originalmente publicado na edição 6 da revista Literomancia

Os Idos de Junho

Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Era 18 junho de 2013. Vesti minha camiseta polo e uma calça Calvin Klein. Calcei meu tênis  Olympicus e dei os últimos retoques no meu topete, da mesma forma que fazia todos os dias antes de  ir para a faculdade. Naquela data, porém, não ia estudar. Não era a primeira vez que matava aula, mas  não ia ficar no barzinho em frente à faculdade, jogando bilhar, como era meu costume nessas ocasiões.  Eu ia acompanhar o protesto de Araçatuba em apoio às manifestações políticas que estavam  acontecendo naquele mês em todo o País. 

Meu pai me ofereceu uma carona até a faculdade, mas disse que não precisava. Menti para ele que queria andar um pouco. Eu nem imaginava a longa caminhada que faria naquele dia… 

Meus pais eram idosos e ficariam doidos se descobrissem minhas escapadas. E essa seria uma das piores delas. Não poderia decepcioná-los assim. Meus irmãos, muito mais velhos do que eu, já  reclamavam o suficiente de que não foram tratados da mesma maneira quando tinham 18 anos. 

Sai da minha casa no bairro Nova Iorque e fui até a rotatória da avenida Brasília. A noite começava a cair. O ar estava seco, mas a temperatura era até que agradável. Nem o tradicional calor infernal, nem o frio congelante do inverno araçatubense. O tempo ideal para uma passeata. 

Ao chegar à rotatória, percebi que não havia o trânsito caótico comum daquele horário, porque todas as ruas ao redor estavam bloqueadas. Lá, encontrei meu amigo e colega da faculdade de  jornalismo, Alan, que havia me convencido a participar daquele negócio. 

— E aí, seu tratante — eu disse para ele. 

— Ô doutor Marcos. Você veio! — respondeu Alan, oferecendo-me uma vuvuzela verde-amarela, que ele devia ter guardado da última Copa do Mundo. Eu a devolvi, dizendo que não queria aquela porcaria. Uma garota interrompeu nossa conversa, querendo pintar o meu rosto de verde-amarelo. Não aceitei também.

— Você precisa entrar no clima, cara — pediu Alan. 

— Cadê ela? — perguntei. Só vim aqui porque você disse que ela viria. Se ela não aparecer, vou  embora.  

Não era contra, nem a favor do governo. Naquela época, achava que todos os políticos eram ladrões. Minha presença no protesto também não tinha nada a ver com a faculdade de jornalismo. Apenas havia escolhido o curso que tinha menos matemática na grade. 

Estava ali porque o Alan me falou que a Dani participaria da mobilização e lá seria o melhor lugar para encontrá-la fora da faculdade.  

Nós três estávamos na mesma turma do primeiro ano de jornalismo. Dani tinha uma beleza diferente, não sabia bem ao certo como explicá-la, mas era algo que me atraía. Talvez o fato de ela nunca ter dado ouvido para as minhas conversas, ao contrário do que as outras garotas faziam, tenha  aumentado minha paixão. 

No entanto, no campus da faculdade não dava para conversar direito com ela, pois Dani estava sempre muito focada nas atividades do curso ou do diretório acadêmico. Também nunca a encontrava nas baladas, barzinhos ou quermesses que eu frequentava. 

— Ali está ela — disse Alan apontando Dani em uma pequena aglomeração de pessoas. 

Do alto de um caminhão de som, um rapaz anunciou que a manifestação ia começar. Os autofalantes tocavam o jingle de um comercial de carro, que pedia para as pessoas saírem às ruas. Os  manifestantes, então, passaram a se mover. Daniela seguia à frente, segurando um cartaz que pedia  saúde e educação “padrão Fifa”. Ela estava vestida com uma saia comprida, com estampas africanas,  uma blusinha branca e, por cima dela, um colete jeans, com bottons de bandas de rock antigas. 

Havia pouca gente e pensei que o protesto seria só aquilo mesmo. No meio daquelas pessoas, reparei  que havia um idiota, também da minha turma de jornalismo, chamado Lucas, vestindo calças  seguradas por suspensórios e uma ridícula gravata borboleta. Ele vivia discutindo política com Dani e batia boca com o professor de filosofia quando ele mencionava o nome do Karl Marx – um  cara que eu nem sabia quem era naquele tempo e nem queria saber. 

— Vai atrás dela! — disse Alan de repente, despertando-me de meus pensamentos. Você está esperando o que? Um convite? Nem parece o Marcos que conheço. 

Apertei o passo para alcançar Dani, mas fui logo parado por uma moça que me ofereceu  uma das pontas da enorme bandeira do Brasil que estavam estendendo por toda a faixa da avenida. Recusei.  

Enquanto a moça e outros jovens sacudiam a bandeira, o grupo de Dani seguia em frente, bem depressa. Tive que passar por baixo dela para cortar caminho e tentar alcançá-la. Ao sair do outro lado, a luz do helicóptero Águia da Polícia Militar ofuscou minha visão.  

Reparei que o manto negro da noite já havia coberto todo o céu. Alguns manifestantes de um  movimento estudantil começaram a gritar: “Ei, burguês, essa aqui é pra vocês!”. Confesso que o barulho deles e das hélices do helicóptero da polícia em busca de algum tumulto me fez sentir medo. 

Coloquei as mãos acima dos olhos e vi os longos cabelos cacheados de Dani bem longe de mim, próximos ao restaurante Bola Sete. Entretanto, não consegui chegar até lá por causa das várias faixas esticadas e pessoas segurando cartazes, que saíam e entravam na minha frente. 

Em um dos cartazes li que os professores mereciam receber salários melhores do que o Neymar. Concordei. Outros pediam mais saúde e educação e pensei que não tinha como não aderir a essas causas. Ri de um cara que carregava uma cartolina pedindo a redução do preço do Marlboro. Isso seria ótimo para mim. Também esbarrei em algumas pessoas enroladas em bandeiras do Brasil, paradas para fazer selfies. 

Ao se aproximarem do Hotel Íbis, os manifestantes foram para o outro sentido da avenida,  para retornar à rotatória. Já não conseguia mais ver Dani. Na altura do Hotel Pekin, reencontrei Alan. Ele apontou para a rotatória da Brasília com a Pompeu: 

— Olha só aquilo! — disse ele.

O local onde, até pouco tempo atrás, tinha apenas algumas pessoas, foi invadido por um mar de gente, que chegava pela Pompeu de Toledo e engrossava a marcha. 

Apertando um pouco as pálpebras, consegui distinguir a silhueta de Dani lá embaixo. Mas a multidão continuava me espremendo. 

E o Alan tinha sumido de novo.  

Quando estava próximo à rodoviária, consegui ultrapassar algumas pessoas, trombando em seus ombros e esmagando pés. Porém, uma velha Brasília amarela me barrou o caminho. O som do carro tocava em volume alto uma música que dizia “A burguesia fede”. 

Senti que o clima voltou a ficar tenso quando os manifestantes chegaram à prefeitura. Policiais do Choque cercavam o prédio e eram provocados por algumas das pessoas que participavam do protesto. Lembrei-me das repressões aos atos em São Paulo, que assisti na televisão, e meu estômago esfriou. Ao olhar para o outro lado, vi um rapaz no topo do monumento do Lions Clube. Ele estendia  uma camiseta com a imagem do Che Guevara. Não sabia por qual motivo, mas senti a necessidade de tirar uma foto daquela cena com o meu celular. 

Após atravessar o monumento, entrei na rua Luís Pereira Barreto a passos lentos, por causa da turba. Muitas pessoas de lojas, lanchonetes e farmácias saíram de dentro de seus estabelecimentos muito iluminados. Outras apareceram na sacada de prédios para ver os manifestantes, que lhes convidavam para o protesto. “Vem pra rua, vem pra rua!”, eles gritavam em meio a assovios, apitos e buzinas. 

Ao meu lado, surgiu um grupo vestindo camisetas da seleção brasileira, segurando uma faixa  com os dizeres “Morte aos políticos”. Outros integrantes estavam com cartazes pedindo “Intervenção militar já!”. Eles entoavam um hino que mandava a presidente ir tomar naquele lugar, igual ao que eu ouvia nos jogos de futebol. Um dos que gritavam me pareceu um senhor respeitável, com idade para ser meu avô. Ele, porém, xingava uma mulher que também tinha idade para ser minha avó. 

Apesar de achar o governo daquela senhora um desastre, sem saber exatamente por qual motivo,  perguntei-me como alguém poderia sair às ruas pedindo respeito sendo tão desrespeitoso. 

Olhei por cima das cabeças e mais uma vez não consegui ver onde Dani estava. No momento em que a marcha caminhava para o seu fim, já me sentia arrependido de ter participado daquela droga. Nunca andei tanto a pé como naquela noite e não troquei um olhar com a garota. Aquele povo achava mesmo que andando tanto alguma coisa ia mudar?, me perguntei. Aliás, que ideia besta tinha sido aquela de procurar a Dani para conversar durante uma passeata política. O que eu iria dizer para ela? Você vem sempre aqui? Hoje “faz um protesto gostoso”, não é? Pensei em matar o Alan assim que o encontrasse de novo. 

Ao atingir a Praça Rui Barbosa a multidão começou a se dispersar, apesar de um grupo seguir em direção à Câmara dos Vereadores. Alguns caras que estavam perto de mim passaram a chutar os  tapumes ao redor da praça, que estava em reforma há muito tempo. Eles eram vaiados por outras  pessoas que gritavam “sem violência, sem violência”, também em ritmo de torcida organizada. O  helicóptero da Polícia Militar continuava a sobrevoar minha cabeça, lançando luzes no entorno da  praça. 

Foi quando vi Dani e algumas amigas dela, à minha direita, tirando fotos. Era a minha chance! 

Mas, alguns gritos fizeram com que eu voltasse a atenção para a esquerda, onde o babaca do Lucas estava puxando a bandeira vermelha de um casal de idosos sem-terra. “Sem partido, sem  partido”, ele berrava, dando um banho de cuspe nos dois. 

Não consegui deixar de pensar nos meus pais ao ver a mulher e homem acuados. Os olhos cansados daquele senhor lembravam os do meu pai. Decidi ajudá-los. Além disso, já fazia muito tempo que eu queria dar uma lição naquele trouxa que se achava demais na sala de aula.  

— Para com isso, brother — falei para Lucas, que me empurrou. 

— Sai daqui seu idiota! Comuna! — ele gritou.

Eu revidei com um murro, que transformou o nariz dele em um chafariz de sangue. Lucas levou as mãos ao rosto, para conter o vazamento. O casal sem-terra aproveitou a oportunidade para fugir. Ele olhou para as mãos ensanguentadas e depois olhou para mim. Em seguida, gritou. Armei  meus punhos para a briga inevitável. 

No entanto, dois policiais militares vieram em nossa direção, com cassetetes prontos para racharem nossas cabeças. 

Corri como um ladrão flagrado em um assalto. Contornei a praça e segui pela rua Prudente de Morais. Depois, dobrei a Quinze de Novembro e peguei a Joaquim Nabuco. Olhava de tempos em tempos para cima, a fim de ter certeza de que o Águia não estava me seguindo. 

Finalmente, cheguei ao Terminal Rodoviário Municipal e pude colocar as mãos em meus  joelhos latejantes. Não conseguia respirar direito e sentia umas pontadas no baço. Tudo o que eu queria naquela hora era pegar um ônibus coletivo que me levasse direto para casa. 

— Eu vi o que você fez. Gostei! Aquele imbecil mereceu — era uma voz feminina que me dizia aquilo. 

Levantei os olhos e vi Dani segurando uma cartolina enrolada debaixo do braço. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. De repente, esqueci que tinha acabado de fugir da polícia. Botei as mãos na cintura para respirar melhor. 

— Não sou de brigar, ainda mais por política, mas não podia deixar que ele batesse naquelas pessoas — eu disse a ela. Não sei, mas senti alguma coisa estranha nessa manifestação, como se algo muito ruim estivesse prestes a acontecer se a gente não tomar nenhuma atitude agora. Sei lá. Posso estar falando bobagem também. 

— Não acho bobagem — falou Daniela. Penso a mesma coisa. Você é da minha turma de jornalismo, não é? 

— Sou — respondi com um sorriso. 

Um ônibus com destino ao bairro Nova Iorque parou na estação.

— Acho que é o meu — eu disse. 

— Vou pegar esse também. Deve passar pelo Alvorada.

Embarcamos.


Gostou do conto? Escreva nos comentários o que achou e não deixe de curtir se você gostou. Aproveitando que o assunto são as manifestações de junho de 2013, na minha newsletter desta semana escrevi a respeito do que vi e senti em um dos protestos e o que penso sobre as consequências das chamadas Jornadas de Junho. Confira lá e aproveite para assinar gratuitamente: https://open.substack.com/pub/marcenarialiteraria/p/junho-de-2013-o-fim-da-inocencia?r=r1iar&utm_campaign=post&utm_medium=web

Resenha #16: “As águas-vivas não sabem de si” de Aline Valek

A humanidade está sempre buscando uma maneira de estabelecer contato com outras formas de vida conscientes de sua existência, para afastar a estranha sensação de que está sozinha no universo. Ao mesmo tempo, cada vez mais a comunicação entre nós, seres humanos, é rara e complicada.

O tema da comunicação — ou a falta dela — está presente em quase todas as páginas do livro “As águas-vivas não sabem de si”, da escritora Aline Valek. Eu já conhecia a autora por conta de sua newsletter “Uma Palavra”, a qual gosto muito, e ao encontrar esse romance, fiquei curioso para saber como ela se saía na ficção .

A protagonista da história, Corina, é uma mergulhadora profissional e está trabalhando em uma expedição liderada por Martin, um polêmico cientista estrangeiro, que em vez de buscar vida inteligente no espaço, como a maioria de seus colegas, a procura nas misteriosas e ainda pouco conhecidas profundezas do oceano.

O trabalho de Corina consiste em colocar sondas no fundo do mar junto com outro mergulhador, Arraia, que ela  já conhece dos tempos em que prestava serviços em uma empresa petrolífera. Martin usa essas sondas para enviar sinais pelas águas na esperança de que alguma criatura marinha os compreenda e mande uma mensagem sonora de volta. Ele quer saber se os animais do mar têm algo a dizer aos seres humanos.

Solidão

A missão só consegue chegar a profundidades tão grandes graças a um traje especial desenvolvido pela empresa que patrocina a pesquisa e que, por meio dela, pode testar seus novos equipamentos de mergulho.

A expedição fica sediada em uma estação no fundo do mar chamada Auris. Além de Corina, Martin e Arraia, vivem nela mais duas pessoas: Maurício, outro cientista que auxilia Martin; e Susana, uma engenheira naval que também faz o papel de enfermeira e médica às vezes, sem ter formação alguma nessas áreas. 

O lugar é pequeno e monitorado por câmeras. Apesar dessa proximidade física, não há muita conversa entre seus moradores. Isso aumenta a solidão que parece existir naturalmente nas profundezas do oceano, o que dá espaço para muitos pensamentos melancólicos.

Assim como o fundo do mar, os personagens guardam muitos segredos. Dramas e traumas que são apresentados ao leitor aos poucos. Todos eles parecem estar ali para tentar superá-los, provar algo para eles mesmos ou para a sociedade. Suas personalidades são bem definidas e coerentes com o passado de cada um.

O segredo de Corina é o mais complicado. Ele pode colocar a vida dela e a de seu colega Arraia em risco a qualquer momento e pôr fim à pesquisa. Mas a teimosia e perseverança de Corina são admiráveis para mim, mesmo que isso possa levá-la às piores consequências. Outro personagem que me chamou a atenção foi Martin, por causa de sua obsessão, que me fez lembrar de outros velhos lobos do mar da literatura, como o Capitão Ahab de “Moby Dick” (Herman Melville) e o Capitão Nemo de “Vinte Mil Léguas Submarinas” (Júlio Verne)

Tem uma cena no livro que gostei muito e que exemplifica bastante a solidão e incomunicabilidade pelas quais os integrantes da expedição optaram. Os tripulantes de Auris também recebem mensagens da superfície vindas de seus familiares e amigos. Corina recebeu uma de sua mãe. Apesar de ter ficado emocionada, ela decide não responder. Fiquei pensando o quanto era irônico tentar estabelecer uma conexão com um ser inteligente hipotético no fundo do mar, enviando sinais e ficar aguardando uma resposta, enquanto ignoramos as tentativas de diálogo com pessoas que nos são próximas.

A obra tem vários outros exemplos de ruídos de comunicação como esse, mas não seria possível colocar todos aqui numa pequena resenha. Convido você a ler o romance e encontrá-los.

Animais Marinhos

Alguns capítulos são narrados do ponto de vista de animais marinhos, o que dá um toque de fantasia e ficção científica ao livro. Alguns deles são conhecidos nossos como cachalotes e águas-vivas. Outros teriam sido extintos há muito tempo, que é o caso dos azúlis, criaturas conscientes e civilizadas. E uma espécie existente nos dias de hoje, no entanto, ainda desconhecida: os espectros. Até mesmo o oceano possui um capítulo no qual ele é o narrador.

Mas não pense que essas partes são apenas exercícios narrativos. Elas têm um propósito dentro do romance.

Aline Valek – Foto: Marcos Felipe

A prosa de Aline Valek é envolvente e poética. Embora ela trate de muitos temas densos, o leitor tem uma sensação prazerosa em degustar suas palavras. A leitura avança em um ritmo devagar, da mesma forma que as coisas parecem fluir no fundo do mar. Tudo nos leva à contemplação e reflexões.

A escritora realça como o oceano é um lugar estranho, não só por causa de suas criaturas esquisitas, mas também porque ele parece inadequado aos seres humanos, que apesar de conseguirem entrar em suas domínios, não têm uma estrutura corpórea para sobreviver por muito tempo naquele lugar.

Nos detalhes do fundo do oceano, porém, parece estar escrita a história do nosso planeta e da nossa espécie, à espera de alguém com coragem, inteligência e força, que consiga chegar até lá e decifrá-la. Alguém como Corina que ouve e aceita o convite incessante vindo desse perigoso abismo: mais fundo, mais fundo.


Você já conhecia esse livro da Aline Valek? Escreva aí nos comentários o que você achou desta resenha e não deixe de curtir se você gostou!

Chat(o)bots

Tenho um amigo que acredita que a maior parte das conversas que ocorrem no Whatsapp são entre robôs, desses que enviam respostas automáticas.

Outro dia, eu testemunhei uma delas. De um lado, o número de uma lanchonete que faz entregas. E do outro o contato de um serviço de atendimento ao consumidor de uma empresa de cartões de crédito.

— Boa noite! Hoje o x-salada está na promoção aqui no Kikão Lanches. Três por R$ 10,00. Bora fazer seu pedido?

— Oi, boa noite! Meu nome é Dri, sou assistente virtual da Agiotacred e vou realizar o seu atendimento. Digite de forma breve como eu posso ajudá-lo?

— Desculpe, acho que não entendi seu pedido. Gostaria de ver o nosso cardápio? Digite 1 para sim ou 2 para não.

— Desculpe, mas não consegui entender o que você precisa. Vamos tentar outra vez? Escreva de maneira sucinta o que você deseja. Por exemplo: fatura do cartão.

— Opção inválida. Se você quiser receber nosso cardápio digite 1. Caso contrário, digite 2 para sair.

— Desculpe, mas ainda não consegui entender o que você precisa. Gostaria de ser encaminhado para um de nossos atendentes? Digite sim ou não.

— Por falta de comunicação, vamos encerrar o  atendimento. De 0 a 5, como você avalia nosso serviço?

— Opção inválida. Por falta de comunicação, vamos encerrar o atendimento. Se quiser retomá-lo, basta nos enviar uma mensagem.

— Opção inválida. Agradecemos a atenção! Se precisar novamente da gente, mande qualquer mensagem para este número.

— Oi, boa noite! Meu nome é Dri, sou assistente virtual da Agiotacred e vou realizar o seu atendimento. Digite de forma breve como eu posso ajudá-lo?

— Boa noite! Hoje o x-salada está na promoção aqui no Kikão Lanches. Três por R$ 10,00. Bora fazer seu pedido?

Reza a lenda que esses dois estão conversando até hoje.


Você conhece a minha newsletter? Na última edição eu fiz um experimento com o ChatGPT que tem muito a ver com esta crônica. Fiz uma série de pegadinhas da 5ª série para verificar se ele era uma inteligência mesmo. O resultado você pode conferir neste link: https://marcenarialiteraria.substack.com/p/fazendo-piadas-da-5-serie-para-o

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Anjo da Guarda

Se eu contar talvez você não acredite ou pense que fiquei louco. Mas vou contar assim mesmo: eu converso com o meu anjo da guarda. 

“Como assim? Você não é um cético?” — alguém pode perguntar. Sim, acho que ainda sou. 

Vou tentar explicar antes que você diga que sou doido. Para começar eu não o vejo. Bom, até aí tudo bem, porque ninguém vê o seu anjo da guarda. 

Em segundo lugar, a gente não conversa por meio de palavras. Meu anjo da guarda, que batizei de André, aparece disfarçado de bom senso.

É um incômodo dentro de mim, indicando o que eu devo ou não fazer, e que só para quando eu o obedeço. 

E o bendito está sempre certo! Quando eu não dou ouvidos para ele, geralmente, me dou mal. Algumas vezes não acontece nada de ruim, mas, no fundo, sei que ele mexeu os pauzinhos no mundo metafísico para livrar a minha cara daquela vez. 

Hoje mesmo, ou melhor, no dia em que estou escrevendo esta crônica, fui abastecer minha moto. O caminho todo o meu anjo da guarda ficou buzinando na minha mente: não se esquece de encher os pneus. 

Eles estavam murchos há vários dias, o que prejudicava a estabilidade da moto. Porém, estava com muita pressa, queria voltar para casa logo. Mas o André continuou falando.

“Depois, quando o pneu estourar, você não vai culpar Deus, o universo, o destino”, senti ele dizer. 

— Tá bom, tá bom! — eu disse.

— O quê? — perguntou o frentista que me atendia. 

— Ah, desculpe, não foi nada não. Não ligue para mim, sou um cara esquisito. 

 Levei a moto até o calibrador e comecei a encher os pneus.

— Pronto! Está feliz agora? — perguntei ao anjo.

Porém, o incômodo tinha passado. O Anjo da Guarda estava satisfeito pelo dever cumprido. 

***

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Tomando umas com o Álvares de Azevedo

Acho que sei porque o filósofo Platão gostava tanto de viver no mundo das ideias e desprezava este mundo material, o qual ele considerava mera cópia imperfeita daquele. O mundo das ideias é perfeito, afinal, é o mundo como você gostaria que fosse. Tão perfeito que não consegue ser materializado no nosso mundo real, cheio de falhas. 

Até uns anos atrás fui uma pessoa que sempre preferiu viver no mundo das ideias. Lá eu tinha a minha vida perfeita e a sociedade perfeita. Todas ideais.

Quando eu era adolescente também tinha as minhas garotas idealizadas. Elas eram sublimes, puras, flutuavam entre as nuvens, como anjos.

Não é à toa que eu gostava tanto dos escritores românticos, que conheci na escola nessa época. Aqueles caras eram muito legais, pois colocavam suas amadas em um altar. Considerava-os meus melhores amigos, já que nenhum menino da minha idade transformava suas paixões de adolescente em deusas como eu e eles. Quase toda sexta-feira à noite ia para a taverna conversar e tomar umas com o Álvares de Azevedo. No mundo das ideias, óbvio. 

Claro, que cada uma dessas garotas idealizadas por mim tinha uma “cópia” imperfeita no mundo real. Para falar a verdade, não estava muito interessado nas “cópias”. Afinal, é muito melhor se relacionar com garotas idealizadas que não vão brigar com você, que não vão ter ciúmes, que não vão querer discutir a relação, que não vão ter TPM, que não vão reclamar que seu guarda-roupa parece o de uma pessoa enlutada ou te atrapalhar na hora de jogar vídeo-game. 

Quando, às vezes, eu entrava em contato com as “cópias” do mundo material, as garotas idealizadas se estilhaçavam no meu mundo das ideias, como vidraças atingidas por pedras. Ah, eu sofria muito me cortando com os cacos!

Recordando-me dessas coisas agora, percebo o motivo de não ter tido muitos relacionamentos naquela época. O idealismo romântico tinha me transformado em um menino que tinha medo de garotas reais. Quem disse que as “cópias” eram as meninas do mundo material? Na verdade, era tudo ao contrário. Elas, as que eu pensava serem cópias, eram pessoas reais, com sentimentos reais, com qualidades reais, com conflitos reais, como qualquer ser humano. As garotas idealizadas que eu amava simplesmente não existiam. Nem poderiam existir. 

A partir do momento que parei de me apaixonar pelas musas ideais comecei a conhecer garotas maravilhosas, muito melhores do que suas versões no mundo das ideias, e passei a me relacionar com algumas delas. 

Hoje, eu amo uma mulher por tudo de real que ela tem. 

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Resenha #15: “Fundação” de Isaac Asimov

“Conhecimento é poder”. Seja para objetivos nobres, como evitar que a civilização volte à barbárie, ou para fins questionáveis, tal qual detê-lo para subjugar outros povos. Esse velho ditado permeia o romance “Fundação”, do escritor Isaac Asimov, nascido na Rússia e naturalizado norte-americano. Chamado também pelos fãs de “Bom Doutor” e “Pai dos Robôs”.

Publicada pela editora Aleph, “Fundação” é o primeiro livro de uma trilogia escrita nos anos 1950. Mais tarde, na década de 1980, a série ainda ganharia outros quatro volumes. Os três primeiros livros foram eleitos em 1966 a melhor série de ficção científica e fantasia de todos os tempos, desbancando nada mais, nada menos, que “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien e “Barsoom” de Edgar Rice Burroughs.

A primeira obra foi publicada em partes na lendária revista pulp Astoundig Science Fiction. Para se ter uma ideia de sua importância, a trilogia inspirou outros clássicos da ficção científica, como Duna e Star Wars. Recentemente, a Apple TV+ adaptou o romance em uma série de sucesso que, infelizmente, ainda não assisti.

Psico-História

Hari Seldon por Michael Whelan

A história de “Fundação” se passa a milhares de anos no futuro, numa época em que a galáxia é governada por um Império composto por 25 milhões de planetas habitados. Somente em Trantor, planeta que é capital do Império Galáctico, vivem 40 bilhões de pessoas.

A humanidade se esqueceu até mesmo de onde veio. Os estudiosos supõem que os seres humanos surgiram em algum lugar perto de Sirius, Sol e Alpha Centauri. A expansão do Império Galáctico foi possível em muito por causa da tecnologia de viagens espaciais, chamada Salto, que pode levar uma pessoa de um ponto da galáxia a outro em pouco tempo.

Porém, após mais de 10 mil anos de soberania do Império Galáctico, um homem chamado Hari Seldon começa a apontar sua ruína. Para isso, ele utiliza um método que me deixou fascinado chamado Psico-História. A Psico-História é um ramo da matemática capaz de prever o futuro das civilizações, baseado nas probabilidades de reações de conglomerados humanos a estímulos sociais e econômicos, excluindo-se aí ações individuais.

Segundo Seldon, em 300 anos o Império cairá. A divulgação de suas ideias causa sérios problemas a ele, por serem consideradas perigosas. Seldon então é preso e levado a julgamento. No entanto, apesar da queda inevitável, ele afirma diante do tribunal que tem um plano para reduzir o período de barbárie subsequente de 30 mil anos para “apenas” um milênio. Em seguida, o Império deverá ser reerguido.

A ideia de Seldon é a criar uma Fundação, a qual será responsável pela elaboração de uma Enciclopédia Galáctica, contendo todo conhecimento produzido pela humanidade, a fim de que ele não se perca completamente e se torne um alicerce para a restauração do Império Galáctico.

Temendo que Seldon possa estar certo, as autoridades do Império decidem exilá-lo em um planeta pobre em recursos, nos limites da galáxia, chamado Terminus. Lá, longe de Trantor, ele e seu grupo de cientistas poderão desenvolver a tal da Fundação.

Mas Seldon sabia que isso poderia acontecer. Na verdade, isso fazia parte de seus planos. O fato é que a criação da Enciclopédia Galáctica foi só uma fachada para sua verdadeira estratégia para salvar a humanidade da destruição.

A queda do Império realmente começa quando os planetas da periferia da galáxia, praticamente esquecidos pelo Império, começam a se rebelar, se transformando em reinos independentes, porém, caracterizados pela falta de ciência e civilização.

‘Ain, vai falar de política?’

“Fundação” tem muitas tramas políticas e reviravoltas de bastidores. Muitos desses acontecimentos são revelados em vários diálogos entre os personagens, que deixam a leitura mais leve e fluente.

O tema do imperialismo está presente em suas páginas, principalmente, a ideia de que todo império, por mais poderoso e longevo que seja, um dia vai desmoronar, geralmente, provocando destruição, miséria e mortes. É. A História sempre se repete. Vale lembrar que Asimov se inspirou na obra “Declínio e Queda do Império Romano” de Edward Gibbon para criar a série Fundação.

O autor retrata as várias formas como o imperialismo age para conquistar suas colônias. No caso da Fundação, primeiro a dominação de outros planetas se dá por meio da religião, que detém o conhecimento científico. Para ser introduzida nos demais reinos, a Fundação transformou a ciência em uma seita religiosa. Depois, o controle dos outros povos ocorre através do poder tecnológico e econômico.

Concisão

Isaac Asimov

Embora Asimov seja um escritor de hard sci-fi, a leitura não é difícil. Seu estilo é claro e bastante conciso, sem parágrafos ou capítulos extensos. Em pouco mais de 200 páginas, são narrados mais de 150 anos desde o início da Fundação.

A sensação é de que tudo acontece muito rápido, até porque a leitura leve do romance nos faz querer devorá-lo o mais rápido possível. Por outro lado, não dá muito para se apegar aos personagens. Apesar de terem uma caracterização marcante e desejos bem definidos, que ficam bastante claros nos diálogos, eles vêm e vão depressa, o que me lembrou muito outro clássico da ficção científica “O Fim da Infância” de Arthur C. Clarke.

Aliás, a galeria de personagens é extensa. Além de Seldon, os destaques vão para o primeiro e o maior prefeito de Terminus, Salvor Hardin, e para o primeiro dos Príncipes Mercadores, Hober Mallow.

Como já havia dito, existem muitos diálogos, que achei naturais e nos dão informações sobre passado, presente e explicam conceitos. Há momentos de grande tensão, como o ataque iminente de Anacreon à Fundação e o julgamento de Hober Mallow.

As expectativas são realçadas também por trechos da Enciclopédia Galáctica antes de cada uma das cinco partes, que antecipam um pouco o que vai acontecer, e os cliffhangers no fim dos capítulos.

Gostei ainda da construção de mundo da Fundação: as características dos planetas, suas tecnologias e cultura.

Já estou ansioso para ler o segundo volume: “Fundação e Império”.

***

Já leu Fundação? O que você achou? Ainda não leu? Ficou interessado? Deixe seu comentário aqui embaixo e curta se você gostou da resenha.

A Modernidade Esfaqueada

Tela “As Mulatas” de Di Cavalcanti danificada por terroristas – Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

É muito provável que o idiota que deu seis facadas na obra “As Mulatas” de Di Cavalcanti no Palácio do Planalto, durante os ataques terroristas em Brasília no último 8 de janeiro de 2023, não fazia a menor ideia de quem era o autor ou da magnitude daquele quadro. Mas o ato não deixa de ser simbólico por várias razões.

Muitas pessoas apontaram que o esfaqueamento representava o ódio que os golpistas têm por mulheres, ainda mais por mulheres negras, que não têm medo de serem livres, belas e felizes. Também há o ódio pela cultura, pela arte, pelo que é belo, pela liberdade de se expressar e por tudo o que é brasileiro de verdade. Veja que ironia, logo eles que se julgam patriotas!

Concordo com essas interpretações. Mas o que pode ter passado despercebido para muitas pessoas e que me chamou muita a atenção foi como esse esfaqueamento simboliza também a ojeriza que a extrema-direita tem pela modernidade.

Di Cavalcanti foi um pintor modernista. Era amigo de Mário e Oswald de Andrade. Junto a eles e outros artistas ajudou a realizar a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo. Em suas pinceladas percebemos a influência das artes de vanguarda europeias, que fervilhavam naquela época, mas com um toque de brasilidade ao representar o nosso povo e a nossa cultura.

Os autoproclamados intelectuais da extrema-direita brasileira detestam o modernismo. Assim como os nazistas no passado, eles acham que a arte moderna e tudo que seguiu sua influência posteriormente representam a degeneração humana. Repetindo a erudição enciclopédica que ouviram de outros gurus extremistas, citam pintores clássicos como verdadeira expressão de arte, sem nem saber do que estão falando.

Vale lembrar que outra obra vandalizada pelos bolsonaristas raivosos foi a escultura “A Bailarina”, de Victor Brecheret, também artista do modernismo brasileiro.

Eu tenho minhas críticas à modernidade, por motivos totalmente opostos aos deles, porém, não posso negar a contribuição que ela trouxe para a humanidade.

E não pense você que a raiva dos golpistas tem a ver com uma busca por um mundo melhor. Não. Muito pelo contrário. A ideia de progresso é horrível para essas pessoas. Para elas, o ideal seria voltarmos à idade média. Uma das características do fascismo é justamente esse culto imbecil a um passado idílico que sequer existiu.

Os ideólogos da extrema-direita acreditam que estão em uma guerra cultural contra todo o tipo de arte que, na cabeça deles, representa o marxismo. E isso compreende desde uma novela da Globo até as poesias do Paulo Leminski. Por isso, querem uma “higienização” por meio da eliminação de tudo o que contraria seus padrões estéticos (o que para alguns deles se aplica a seres humanos também).

Nessa primeira batalha física, os fascistóides feriram gravemente nossa cultura, mas não conseguiram matá-la. O quadro “As Mulatas” está sendo restaurado. A nossa democracia precisa ser restaurada também.

***

E o que você pensa disso tudo? Escreva aí nos comentários. Sei que o tema é polêmico, por isso, só te peço que seja educado. E curta o post se você gostou desta crônica.

Resenha #14: “Iluminações” de Alan Moore

Sou suspeito para falar sobre Alan Moore, pois eu o considero o maior roteirista de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Leio tudo o que encontro dele desde a primeira vez que li Watchmen, após muito tempo tentando evitá-lo por preconceitos religiosos, pelo fato de ele se autoproclamar mago.

Se arrependimento matasse… Enfim.

Porém, a antologia de contos Iluminações, publicada pela editora Aleph, é o meu primeiro contato com sua ficção em prosa. E o homem não me decepcionou. Sei que ele ainda tem outras duas obras nesse gênero “A Voz do Fogo” e “Jerusalém”, que desejo muito ler no futuro.

Nesta coletânea, o autor experimenta diversas formas de narrar, buscando todas as possibilidades que a ficção em prosa e o formato do conto podem oferecer, da mesma forma que ele já havia explorado as potencialidades que a linguagem das HQs possui. Por isso, cada conto é extremamente original.

As histórias abordam temas muito caros a Moore, como a questão do tempo e espaço, o sobrenatural, a literatura beat, histórias em quadrinhos, nostalgia e críticas sociais. Fiquei me perguntando como alguém tão recluso como ele, que nem mesmo assiste TV, pode saber tanto sobre a nossa sociedade contemporânea.

Os gêneros dos contos também são diversos. Temos horror cósmico, fantasia e bastante humor em suas páginas. Moore usa estilos de escrita diferentes. Ele vai de um texto mais complexo, cujo significado é mais difícil de penetrar, até uma escrita mais leve e informal.

Até mesmo nos agradecimentos, que tenho certeza que muita gente não lê, Moore consegue prender nossa atenção. Por meio deles, ele nos conta um pouco como surgiram os contos do livro. No final, ainda há uma entrevista muito boa que o escritor concedeu ao jornalista Ramon Vitral, em que ele fala sobre assuntos pertinentes aos tempos que vivemos.

A seguir, analiso um por um os contos de “Iluminações”:

Lagarto Hipotético

Som-Som é uma meretriz em um prostíbulo chamado Casa Sem Relógios. Ela foi deixada lá pela mãe quando ainda era criança. Seus clientes são feiticeiros e, para não contar seus segredos, Som-Som passou por um procedimento em que a liga que une os lados direito e esquerdo do cérebro foi cortada. Além disso, ela recebeu uma máscara de porcelana que deixou apenas a parte esquerda do seu rosto à mostra – uma imagem que me causou bastante estranheza a princípio. Dessa forma, as únicas coisas que Som-Som consegue expressar em palavras são memórias de antes do procedimento, por mais que tente falar outra coisa.

Ela é testemunha de um romance trágico entre dois moradores da Casa Sem Relógios: um ator muito talentoso chamado Foral Yatt e uma mulher trans, Rawara Chan, que deixa o lugar para seguir uma carreira bem-sucedida de atriz. Quando Rawara aparece novamente na Casa Sem Relógios para uma visita, Foral, que ficou muito magoado com sua partida, vai aos poucos roubando a identidade dela, de forma bastante abusiva.

Em seu retorno à Casa Sem Relógios, Rawara dá a Foral um presente que, para mim, é uma das melhores imagens do conto: o lagarto hipotético. Como ela explica, se trata de um brinquedo para o intelecto, que consiste em uma esfera que pode ter ou não um lagarto hibernando eternamente dentro dela. Pareceu-me ser uma metáfora para a condição de Som-Som, uma vez que, por ela não conseguir usar a linguagem, é impossível saber o que se passa em seu íntimo. Ou ainda uma metáfora para as intenções de Foral.

Neste conto, Alan Moore usa um estilo um pouco mais rebuscado do que os demais, mas nada que atrapalhe o entendimento da história. Há uma reviravolta no final, mas que, pelo menos para mim, já era previsível.

Nem Mesmo Lenda

Sem dúvida, o melhor conto da coletânea. O enredo é bem simples. O Cisan (Comitê para a Investigação Surrealista das Alegações dos Normais) está reunido para discutir os novos rumos da organização. Em vez de procurar vampiros e fantasmas, seu líder sugere buscar criaturas que nunca foram vistas, as quais ninguém sabe como são. Isso acaba chamando a atenção de uma comunidade de entidades invisíveis que decide intervir.

Porém, a estrutura que o autor usa para narrar a história a torna um grande exemplo de originalidade. O conto se desenrola em dois tempos intercalados, sendo um deles destacado em itálico, técnica muito semelhante a que Ernest Hemingway utiliza no conto “As Neves do Kilimanjaro”. Dessa forma, Alan Moore prepara o terreno para um plot twist de explodir a cabeça.

Local, Local, Local

Uma advogada chamada Angie é a última pessoa na Terra. Enquanto as previsões do Apocalipse se confirmam surrealmente acima de sua cabeça, ela está indo entregar uma propriedade – nada mais, nada menos do que o nosso mundo – ao seu novo dono, um sujeito muito gente boa chamado (sim, é ele mesmo).

Jê é um cara descolado. Veste uma camiseta onde está escrito “Posso estar velho, mas pelo menos vi todas as bandas que prestam…” (quero uma dessas!), usa mullets, gosta de séries e fuma cigarro eletrônico. De vez em quando fala uns palavrões também.

Os dois passeiam por onde um dia já foi o Jardim do Éden (que curiosamente fica na cidade inglesa de Bedford) no momento em que os anjos do Céu e as hordas de Lucífer se enfrentam. Mas, como Jê comenta, tudo é muito burocrático, apenas para cumprir um contrato. Como se fosse uma luta livre da WWE, sabemos quem é do bem e quem é do mal, e como a batalha vai terminar. Por isso, Jê não está nem aí para o que está acontecendo.

Durante a conversa, ele faz uma proposta para Angie que, talvez, possa chocar alguns leitores mais puritanos.

Narrada de uma forma leve e despojada, esta história me fez rir muito.

Leitura a Frio

Esta é uma história de terror e suspense, mas que também tem algumas pitadas de humor.

Rick Sullivan é um médium charlatão. No entanto, ele não se vê assim. Para Rick, seu trabalho é justificado pelo conforto que ele proporciona às pessoas que perderam seus entes queridos. Ele acredita que essa é a sua missão divina na Terra.

Tudo vai mudar quando um homem chamado David, cujo irmão gêmeo morreu, entra em contato com Rick. Apesar de não ter muita certeza de que seu irmão Dennis aprovaria o que estava fazendo, David marca um primeiro encontro com Rick.

Antes de conversar com o cliente em potencial, Rick vasculha as redes sociais de Dennis, a fim de conseguir material sobre como era a vida pessoal dele, para fingir que está recebendo mensagens do além.

Rick descobre que Dennis era uma pessoa extremamente cética. E, apesar de ter consciência de que nunca recebeu uma única mensagem do mundo espiritual, essa falta de fé o deixa bastante irritado.

Em um estilo de relato bem lovecraftiano, o conto é narrado em primeira pessoa, como se o protagonista estivesse conversando com o leitor informalmente. Há uma reviravolta surpreendente no final. Preste atenção nos detalhes!

O Estado Altamente Energético de Uma Complexidade Improvável

Durante um femtossegundo antes do Big Bang (que pode ter durado milhões de anos), surge uma espécie de cérebro consciente de sua existência. Com o tempo, ele foi criando extensões que lhe permitiram ter sensações e sentimentos, os quais foi catalogando como uma tabela periódica. Essa consciência se autonomeou Pamperrégio.

Em sua jornada de descobertas, Pamperrégio encontra outro cérebro. Ele desenvolve extensões nele e se apresenta como o criador do universo, onisciente e onipotente. Esse outro cérebro também tem consciência e Pamperrégio o chama de Glynne.

Glynne acredita em tudo o que Pamperrégio diz, inclusive na sua teoria “Ter-mais-dinâmica”, a qual consiste na crença de que o universo está sempre progredindo para o melhor.

Pamperrégio começa a desenvolver desejo por Glynne e os dois passam a ter um relacionamento amoroso. Mais para frente, eles encontram outros cérebros conscientes. Surgem os primeiros casos de preconceito e até mesmo uma universidade, onde Glynne vai ensinar a essas outras consciências as crenças de Pamperrégio.

Mas, vai chegar um momento em que Glynne não vai mais suportar o autoritarismo de Pamperrégio.

Esse foi o conto mais desafiador para mim. Não que eu não tenha gostado. Achei-o bom. Mas tive muita dificuldade na leitura por causa das abstrações e imagens surreais da origem do universo. Alan Moore também usa bastante adjetivos pomposos e advérbios, que deixaram a história mais complicada de imaginar.

Iluminações

Neste ótimo conto, Alan Moore critica a mania cada vez maior da nostalgia. De acordo com esta história, ao contrário do que ficamos devaneando, se o passado fosse revivido, as coisas não seriam melhores. Na verdade, o mundo se tornaria um pesadelo.

O protagonista é um homem de meia-idade que acabou de se separar da mulher. Seus filhos já são crescidos e seus pais estão mortos.

Após encontrar um velho álbum de família, ele decide ir até um lugar turístico onde se recorda ter passado momentos muito bons com seus pais na infância.

Porém, ao chegar lá, ele percebe que tudo está mudado. Até mesmo as coisas que se tornaram melhores o incomodam. Ainda assim, o personagem insiste em seu passeio, pois há resquícios do local da sua infância em meio a nova paisagem, que fazem parecer que ele ainda existe em algum lugar.

A princípio, pensei que este conto fosse o primeiro “realista” da coletânea. No entanto, conforme acompanhamos as andanças do protagonista, vamos sentindo um clima estranho, semelhante ao das ruínas da cidade do conto “A sombra de Innsmouth”, de H.P. Lovecraft. Aliás, a cidade onde se passa esta história tem o sugestivo nome de Welmouth.

Os parágrafos com lembranças do protagonista são intercalados pelas ações do presente. As duas linhas do tempo vão ficando cada vez mais confusas e a coisa só piora quando o personagem vai ao parque de diversões Pleasureland.

O que se pode saber a respeito do Homem-Trovão

Com quase 300 páginas, este conto está mais para uma novela. Nele encontramos outro alvo das críticas recorrentes de Alan Moore: a indústria de histórias em quadrinhos de super-heróis dos Estados Unidos.

Enquanto em Watchmen os super-heróis são usados pelo autor para construir uma sátira ao gênero, aqui Moore faz críticas violentas às pessoas que produzem as revistas.

Quem conhece pelo menos um pouco da história dos comics vai encontrar diversos paralelos com a realidade. De uma forma não linear, o conto cobre desde o surgimento dos super-heróis, com contrabandistas de bebidas durante a Lei Seca se tornando os grandes donos das editoras, até a febre dos filmes e séries dos dias atuais, passando por fatos históricos como a caça às bruxas do Macarthismo e a invasão do Capitólio.

Existem algumas referências a pessoas, editoras e personagens reais: Sam Blatz é o Stan Lee, Joe Gold é Jack Kirby, a American é a DC, a Massive é a Marvel, o Homem-Trovão é o Superman e o Rei Abelha é o Batman. É impossível não ficar tentando adivinhar quem é quem enquanto vamos lendo. Fiz até algumas pesquisas na internet para descobrir as referências.

Existem dois personagens que meio que protagonizam o conto. Worsley Porlock é o editor-chefe da American e Dan Wheems é um dos roteiristas da editora.

Porlock assume o cargo após a estranha morte de Brandon Chuff durante um jantar em um restaurante. Embora esteja chocado com a passagem do colega, ele não consegue esconder a empolgação de se tornar editor-chefe.

Enquanto Porlock cada vez mais se afunda nos vícios da indústria dos quadrinhos, Dan Wheems procura seguir um caminho diferente depois da morte de Chuff. Ele percebe que as HQs de supers não o prepararam para a perda de alguém, bem como para outras coisas da vida real. Então, assim como Alan Moore, Wheems decide tentar se esquecer dos comics e se aproximar da literatura.

Moore usa bastante experimentalismo neste conto. Algumas passagens são narradas em diferentes formatos, como roteiro de HQ, interrogatório, fórum de internet, sessão de psicanálise, crítica de cinema e entrevista “pingue-pongue”.

As críticas à indústria norte-americana de quadrinhos de super-heróis são inúmeras: exploração de artistas e roteiristas; roubo de propriedade intelectual; falta de criatividade; fãs sem talento transformados em profissionais do mercado; leitores mais preocupados com os personagens do que com a estrutura narrativa das histórias; infantilização de adultos; colecionismo; contribuição na ascensão de líderes políticos autoritários; e por aí vai.

Em alguns momentos, acho que Moore exagera, especialmente ao mostrar os fãs e profissionais como pessoas extremamente decadentes. Mas entendo que essa é a forma que ele encontrou para deixar suas críticas mais ácidas. Esse exagero torna alguns trechos estranhamente engraçados. A gente acaba rindo de situações que, se pararmos para pensar, não deveríamos achar graça nenhuma. Ainda mais que uma ou duas delas aconteceram mais ou menos daquela forma na vida real.

Por outro lado, acho que o autor também mostra algumas coisas boas que os quadrinhos podem proporcionar, como grandes amigos que podemos fazer por causa dos gibis, sejam à distância ou pessoalmente em uma convenção.

Foi impossível não me emocionar ao ver a forma como Porlock, em sua infância, lia os quadrinhos para se esquecer por um momento a separação de seus pais. Ou como sua primeira convenção o tirou da solidão, ao encontrar outros garotos desajustados socialmente, que compartilhavam da mesma paixão. E esse evento ainda lhe deu o sonho de trabalhar com algo que ele realmente amava.

Luz Americana: Uma avaliação

Por meio de um texto acadêmico, principalmente através de notas de rodapé, conhecemos a história de um escritor beat fictício chamado Harmon Belner. O estudo também é, obviamente, de uma autora inventada: C. F. Bird.

O texto de Belner analisado é sua obra-prima, o poema Luz Americana. Conforme vamos lendo seus versos, após uma introdução explicativa, sabemos das influências do autor, seu comportamento e relacionamentos conturbados. O principal deles é com outro escritor, Connor Davey, um grande admirador de seu trabalho.

Temos ainda um vislumbre da cena beat, principalmente, na cidade de San Francisco. Moore usa referências a autores clássicos do gênero, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, bem como as pessoas que os rodeavam – uns “santos marginais” – e acabavam virando inspirações para seus textos. E ainda os locais frequentados pelos beatniks na cidade.

Moore utilizou uma forma bastante diferente para escrever esse conto. Assim como a maioria das histórias do livro, há um plot twist no fim, e o escritor se vale da estrutura narrativa que está usando para armá-lo. 

E, Enfim, Só Para Dar Cabo do Silêncio

Dois condenados estão caminhando lado a lado. Um deles vai tagarelando sozinho até que o outro, chamado John Halper, acaba desistindo de ficar calado e começa a falar também. O principal assunto é descobrir quem o primeiro personagem é.

Este conto é totalmente narrado por meio de diálogos. Através deles, o leitor vai recebendo aos poucos as informações da história, como detalhes a respeito do caminho que os dois estão percorrendo (que, aliás, é bastante bizarro); o motivo pelo qual eles foram condenados; e a época em que se passa o conto (durante o reinado de Ricardo Coração de Leão, na Inglaterra).

Pode ter sido tudo culpa minha, mas demorei para entender a revelação deste conto. Precisei ler mais de uma vez. 

***

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Tristezas Velhas, Novas Esperanças

Não me recordo exatamente como era o trecho, mas me lembro que o escritor Thomas Mann, em uma passagem de seu livro “A Montanha Mágica”, disse que a gente só sabe que é Ano Novo por causa dos sinos e fogos de artifício que o anunciam. A natureza em si continua impassível, sem dar sinal de mudança.

Nós vivemos em uma era muito racionalista, o que é bom. Por outro lado, sei que isso, quando levado ao extremo, tira muito da poesia do cotidiano.

Eu já odiei muito as festas de fim de ano. Costumava desejar aos meus amigos, em tom de deboche, que eles tivessem uma boa volta completa em torno do sol.

Realmente, os dias são como todos os outros depois de 1º de janeiro. Hoje é terça-feira, amanhã será quarta. Haverá um dia e uma noite. Nada de novo sob o sol. O dia de hoje poderia ser batizado como dia 32 de fevereiro que não sentiríamos a menor diferença.

Mas como a vida seria insuportável se não existissem coisas como o ano passado. A ideia de que algo doloroso aconteceu há um ano é confortadora. Se não houvesse esse ponto final no dia 31 de dezembro, o sofrimento seria contínuo. Com o passar do ano novo, a tristeza vai ficando velha e vamos superando-a.

O Ano Novo também traz esperança. Se algo não deu certo neste ano, bom, no próximo ano poderá dar certo.

Quando era criança e minha mãe trazia um calendário do próximo ano do supermercado — a famosa “folhinha” — eu ficava contemplando todos aqueles dias que estavam por vir, tentando imaginar o que aconteceria. Certa vez, contei isso para ela. “Xi! Só desgraça!”, minha mãe comentou.

Já passei por algumas coisas na vida que me permitem dizer que não existem anos completamente bons, mas que também não existem anos completamente ruins. Coisas boas e más acontecem alternadamente o ano inteiro.

Mas que se dane! Quero olhar para o calendário como aquele garotinho e pensar que tenho 365 novas oportunidades para realizar os meus sonhos.

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