Tomando umas com o Álvares de Azevedo

Acho que sei porque o filósofo Platão gostava tanto de viver no mundo das ideias e desprezava este mundo material, o qual ele considerava mera cópia imperfeita daquele. O mundo das ideias é perfeito, afinal, é o mundo como você gostaria que fosse. Tão perfeito que não consegue ser materializado no nosso mundo real, cheio de falhas. 

Até uns anos atrás fui uma pessoa que sempre preferiu viver no mundo das ideias. Lá eu tinha a minha vida perfeita e a sociedade perfeita. Todas ideais.

Quando eu era adolescente também tinha as minhas garotas idealizadas. Elas eram sublimes, puras, flutuavam entre as nuvens, como anjos.

Não é à toa que eu gostava tanto dos escritores românticos, que conheci na escola nessa época. Aqueles caras eram muito legais, pois colocavam suas amadas em um altar. Considerava-os meus melhores amigos, já que nenhum menino da minha idade transformava suas paixões de adolescente em deusas como eu e eles. Quase toda sexta-feira à noite ia para a taverna conversar e tomar umas com o Álvares de Azevedo. No mundo das ideias, óbvio. 

Claro, que cada uma dessas garotas idealizadas por mim tinha uma “cópia” imperfeita no mundo real. Para falar a verdade, não estava muito interessado nas “cópias”. Afinal, é muito melhor se relacionar com garotas idealizadas que não vão brigar com você, que não vão ter ciúmes, que não vão querer discutir a relação, que não vão ter TPM, que não vão reclamar que seu guarda-roupa parece o de uma pessoa enlutada ou te atrapalhar na hora de jogar vídeo-game. 

Quando, às vezes, eu entrava em contato com as “cópias” do mundo material, as garotas idealizadas se estilhaçavam no meu mundo das ideias, como vidraças atingidas por pedras. Ah, eu sofria muito me cortando com os cacos!

Recordando-me dessas coisas agora, percebo o motivo de não ter tido muitos relacionamentos naquela época. O idealismo romântico tinha me transformado em um menino que tinha medo de garotas reais. Quem disse que as “cópias” eram as meninas do mundo material? Na verdade, era tudo ao contrário. Elas, as que eu pensava serem cópias, eram pessoas reais, com sentimentos reais, com qualidades reais, com conflitos reais, como qualquer ser humano. As garotas idealizadas que eu amava simplesmente não existiam. Nem poderiam existir. 

A partir do momento que parei de me apaixonar pelas musas ideais comecei a conhecer garotas maravilhosas, muito melhores do que suas versões no mundo das ideias, e passei a me relacionar com algumas delas. 

Hoje, eu amo uma mulher por tudo de real que ela tem. 

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