Resenha #11: “Coração de Aço” de Brandon Sanderson

“Poderes corrompem. Superpoderes corrompem ainda mais”. Essa é a premissa do romance “Coração de Aço”, do escritor norte-americano Brandon Sanderson, o primeiro da série “Executores”.

Trata-se de uma história que busca desconstruir a ideia dos super-heróis, mostrando que uma pessoa pode ganhar poderes e não necessariamente usá-los para ajudar os indefesos.

Essa não é uma ideia nova. Desde os anos 1980 vários autores já imaginaram como seria o mundo real se pessoas tivessem superpoderes de verdade. Acredito que a obra-prima desse gênero seja a graphic novel Watchmen, de Alan Moore (roteiro) e Dave Gibbons (desenhos).

Mas Sanderson conta sua versão de uma realidade povoada por superseres sem ética de uma forma original. Até então eu ainda não tinha lido uma história em que o mundo é governado por super-heróis. Ou melhor, supervilões.

Foi exatamente por juntar dois gêneros que eu gosto muito — super-heróis e distopia — que me senti atraído a ler “Coração de Aço”.

CALAMIDADE

Após um evento ainda inexplicável chamado Calamidade surgir nos céus, como uma espécie de estrela ou cometa, várias pessoas ganharam superpoderes. Elas foram chamadas de Épicos.

Porém, os Épicos se tornaram vilões e começaram a dominar territórios (muitas vezes lutando entre eles) e a subjugar os demais seres humanos que não desenvolveram habilidades sobre-humanas.

Um dos Épicos mais poderosos do mundo se chama Coração de Aço. Ele transformou Chicago em aço durante um evento chamado “grande transversão”. A cidade então se tornou Nova Chicago. Em sua superfície, vivem Épicos e as pessoas que prestam serviços ao governo de Coração de Aço e que são de certa forma privilegiadas. Mas a maior parte da população vive uma vida miserável nas sub-ruas, que foram escavadas nos subterrâneos.

Coração de Aço tem dois grandes aliados: Tormenta de Fogo e Punho da Noite, este último mantém Nova Chicago em uma eterna noite. Além deles, existe Confluência, que doa seus poderes para garantir energia à cidade.

O romance é narrado em primeira pessoa pelo protagonista David, um jovem de 18 anos que junta o máximo de informações a respeito dos Épicos, para saber quais são os seus pontos fracos.

Quando ele tinha 8 anos, seu pai foi morto por Coração de Aço durante um assalto a banco, do qual ele foi o único sobrevivente. Nesse dia, ele viu Coração de Aço sangrar após ser atingido de raspão por um tiro disparado por seu pai, que, na verdade, queria matar outro Épico chamado Dedo da Morte.

A partir daí ele decidiu que iria ver Coração de Aço sangrar novamente e vingar a morte de seu pai.

Nesse mundo distópico existe um grupo de pessoas que são os verdadeiros heróis: os Executores. Pessoas normais que dedicam suas vidas a matar Épicos, usando estratégias parecidas com uma guerrilha urbana e alta tecnologia.

David se junta a um grupo de Executores para tentar concretizar sua vingança. Esse grupo é formado por Prof, o fundador dos Executores; Cody; Abraham; Thia e Megan, que também acabou de se tornar uma executora e será o interesse romântico de David.

O protagonista é um tanto imaturo, bobo e improvisa muitas ações arriscadas em momentos  em que aparentemente é melhor recuar. Muita gente pode achar David um mala por causa desses seus defeitos, mas isso é compreensível. Além de ele ser muito jovem, o trauma de ter visto seu pai morrer sem poder fazer nada o levou a nunca mais querer ser um “covarde”.

AÇÃO E SUSPENSE

“Coração de Aço” é o primeiro livro do Brandon Sanderson que li. Há muita ação e suspense em suas páginas, daquelas em que você prende a respiração. A história está sempre progredindo para chegar à conclusão. Cada capítulo termina em um “gancho” que te deixa curioso para ler o próximo, o que transforma a obra em um “vira-páginas” de primeira classe.

Existem também muitas reviravoltas no enredo. Apenas uma delas, envolvendo Prof, não me agradou muito. Mas não vou contar aqui para não estragar a surpresa. 

O mundo construído por Sanderson é cheio de detalhes, que são mostrados conforme a narrativa anda e não em extensos parágrafos descritivos, que costumam diminuir o ritmo da história e ser chatos.

A escrita de Sanderson não tem mistério: é clara, leve e fluída.

Embora a ação seja mais evidente, algumas questões interessantes são levantadas na obra: vale a pena viver em uma sociedade aparentemente ordenada, mas sem liberdade? Quais as consequências de se rebelar e destruir com violência um sistema autoritário? Como resistir à tentação de ser corrompido pelo poder?

CONCLUSÃO

Achei “Coração de Aço” um livro muito divertido. Ele deixa algumas pontas soltas, que acredito que serão esclarecidas nos outros dois volumes da série — “Tormenta de Fogo” e “Calamidade” — os quais pretendo ler futuramente. 

Apesar da premissa pessimista que citei no início desta resenha, existe uma mensagem positiva no livro: pessoas inteligentes e unidas, usando os recursos que possuem, podem derrubar tiranos por mais poderosos que eles sejam.

Como diz o pai de David: “Onde existirem vilões, existirão heróis. Aguarde. Eles virão”.

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